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Forte Apache

Um apontamento à parte das notícias do mundo

Alexandre Guerra, 29.12.11

O antigo professor de guitarra clássica do autor destas linhas dizia há uns anos que na música, tal como na arte em geral, os gostos discutem-se, mas o que não se discute é aquilo que está bem ou mal feito. Aqui, os critérios são objectivos e há pouca margem para interpretações desviantes. Também o grande Miles Davis já rejeitava a discussão e a categorização de estilos musicais. Para ele existiam apenas duas opções: a boa ou a má música.

Assim, gostos à parte, ninguém no exercício do seu bom senso questionará a "boa" qualidade de Johann Sebastian Bach, de Miles Davis, dos Beatles, dos Led Zeppelin, dos Pink Floyd ou de Keith Jarret, apenas para mencionar alguns exemplos. Ou negará a excelência de trabalhos como o "Thriller" do Michael Jackson, o “Apetite for Destruction” dos Guns N’Roses, o "Nevermind" dos Nirvana, o "Ten" dos Pearl Jam ou o "Ok Computer" dos Radiohead, referindo alguns álbuns dos últimos 25 anos.

Ora, quando a técnica exímia se alia à criatividade sublime o resultado é uma obra de arte. No entanto, é possível ter criatividade sem ter uma técnica exímia. O álbum "Nevermind" é um bom exemplo da genialidade criativa aliada à simplicidade técnica. Uma simplicidade que se torna constrangedora sempre que alguém pega na guitarra e toca a música “Come as You Are”. O autor destas linhas (que nem é particular fã dos Nirvana) questiona-se sempre como é possível construir algo tão grandioso de uma ideia musical tão simples. Por outro lado, existem músicos e bandas que produzem obras de inquestionável valor técnico, mas que podem não ser grandes rasgos criativos. Os Dream Theater (sim, e tudo isto foi para chegar aqui), uma banda com mais de 25 anos, incluem-se nesta categoria.

E é precisamente pela sua genialidade técnica que ao longo destes anos aquela banda tem mantido uma legião de fãs em todo o mundo. Além do mais, é o próprio meio musical, nomeadamente da área do hard rock e do metal, que presta um respeito aos Dream Theater, precisamente pelo seu virtuosismo.

Os seus músicos tiveram formação musical, evoluíram e há muito que se tornaram em referências na cena musical. O guitarrista John Petrucci, por exemplo, é considerado um dos melhores do mundo, tendo integrado por várias vezes o projecto G3, na companhia de Steve Vai e de Joe Satriani. São várias as publicações que o elegem como um dos melhores. Sacar um “riff” ou uma “malha” de Petrucci não é para todos. John Myung é um dos monstros do baixo, chegando mesmo a ser considerado no ano passado, numa sondagem de uma rádio, o melhor baixista de todos os tempos. Também o antigo baterista (até ao ano passado), Mike Portnoy, ganhou inúmeros prémios e foi o segundo mais novo a entrar para o Rock Drummer Hall of Fame. O novo baterista, Mike Mangini, é igualmente um virtuoso. A propósito, os Dream Theater, que já foram nomeados para os Grammy, entraram para o Long Island Music Hall Of Fame em 2010.

Tecnicamente, e esta é apenas a opinião do autor destas linhas, os elementos dos Dream Theater são superiores aos membros dos Metallica (aliás, são frequentes os “pregos” de Kirk Hammet e Lars Ulrich ao vivo), no entanto, essa excessiva virtuosidade não acompanha a criatividade contemplada no Master of Pupetts ou no estrondoso Metallica (também vulgarmente conhecido como “black album”) da banda de James Hetfield.

Os Dream Theater são fãs e amigos dos Metallica, tendo inclusive já tocado ao vivo o Master of Puppets. Entretanto, dos muitos bons trabalhos dos Dream Theater, o autor destas linhas deixa aqui uma pequena amostra daquilo que os rapazes são capazes ao vivo, em Panic Attack.

Abuso do Direito à Greve

Ricardo Vicente, 28.12.11

Vasco Graça Moura hoje no DN (sublinhado meu):

 

Os maquinistas da CP acabam de mostrar que o Estado de Direito não vale dez réis de mel coado para a sua arrogância totalitária. As ferroviárias criaturas fizeram-no contra iustitiam, isto é, para evitarem a administração da justiça e bloquearem o normal desenvolvimento de processos disciplinares em que os arguidos dispunham de todas as garantias de defesa, num quadro de plena legalidade.  (...)

 

Há ainda outro aspecto em que essa gente mostrou o seu total desprezo pelo Estado de Direito e pela solidariedade humana : o da desproporção chocante e irracional entre os meios de que os grevistas lançaram mão e os interesses legítimos de muitos milhares de pessoas que contribuem para os sustentar e que eles prejudicaram torpemente.

 

Só é de surpreender que um tribunal tenha ignorado estas coisas elementares, não se tenha apercebido do escandaloso abuso de direito que este procedimento envolveu e se limitasse a fixar em 15% os serviços mínimos. Na prática, admitiu-se judicialmente que a greve seja um meio idóneo para bloquear a própria administração da Justiça.

 

Ler ainda este post, este e estes.

Mística Chocolatier

Francisca Prieto, 27.12.11

 

Constato com pesar que na minha cesta de oferendas natalícias não se vislumbra uma única caixa de After Eight. Se me perguntarem se sou especial adepta deste chocolate mentolado, apresso-me a esclarecer que, a par com 90% da população, estaria fora de questão colocá-lo no pedestal da indústria chocolateira.

 

Mas há que admitir que os After Eight não são meros quadrados de chocolate. Os After Eight carregam toda uma carga simbólica, cultivada ao longo de décadas, por tias e avós. Representam a passagem à idade adulta. É o momento em que, numa reunião familiar, deixamos de receber meias do Mickey para sermos honrados com uma voluptuosa caixa de cores sóbrias, albergando bombons meticulosamente enfileirados em saquetas de papel preto, com um logotipo impresso a dourado. Receber uma caixa de After Eight no Natal está para nós como um Bar-Mitzvá está para os Judeus: é todo o reconhecimento do nosso amadurecimento enquanto ser humano.

 

Suponho que tenha sido a Ferrero a criminosa responsável pela queda deste ritual ancestral. Inundou as grandes superfícies com paletes de Rochers e de Mon Chèris, conduziu os consumidores até às caixas pela mão do Ambrósio, atirou-os para dentro de uma limousine e fez aquilo a que se chama car jacking: levou-os para não mais voltarem.

 

Se os chocolates fossem melhores, não me estaria para aqui a queixar. Fossem eles trufas suíças ou bombons belgas, e eu já me tinha rendido ao passar dos tempos. Mas não. Agora somos obrigados a viver a idade adulta com bombons de ginja e temos de fazer boa cara. Agradecer, até.

 

Que atire a primeira pedra quem, numa noite carente, nunca abriu a porta de um aparador para rebuscar nos confins da loiça uma caixa de Mon Chèris e depois teve a trabalheira de lhes cortar o topo para deixar escorrer o estupor do licor, deitar a ginja pelo cano e consolar miseravelmente as mágoas com os destroços do chocolate.

 

Agora, que levantem o braço todos os portugueses que efectivamente gostam de bombons de ginja.

 

Meia dúzia, logo vi.

greves

Marta Reis, 26.12.11

parece que se está a banalizar a greve enquanto forma de luta.

é certo que é um direito, mas devemos usar da melhor forma os direitos que temos, sobretudo quando afectam seriamente o dia-a-dia de milhares de pessoas.

As notícias deprimentes

Luís Naves, 26.12.11

É difícil fazer um balanço de 2011, de tal forma o ano foi complexo. Os últimos tempos, medidos em semanas ou escassos meses, têm sido de notícias deprimentes. Vivemos numa espécie de era da incerteza. O que julgávamos estável (família, emprego, igreja, estado) parece ter entrado numa crise sem paralelo na nossa memória. Os media encarregam-se de descrever um cenário catastrófico da realidade e parece haver uma competição entre analistas sobre quem consegue pintar a situação mais a negro.
Neste país, onde não há uma cultura da coligação e do compromisso, as mudanças foram quase sempre revolucionárias. Nos últimos cem anos, este é o terceiro governo reformista, o segundo em democracia. Olhando para a resistência e hostilidade às suas iniciativas, para a violência e cinismo de certos comentários, quase dá para acreditar que reformar o país não é apenas difícil, mas quase impossível. Trata-se de uma visão superficial: o facto é que a revolução não é uma possibilidade, ao contrário do que aconteceu no passado, pelo que nos resta a via muito estreita da reforma.

 

Não é cómodo dependermos do capricho de banqueiros e de investidores sem nome, a operar algures no chamado mercado, essa entidade abstracta. O capitalismo está a criar um modelo económico que ignora as pessoas. Já nem é preciso produzir objectos. Hoje, as empresas são activos financeiros e os funcionários passaram a custos. O emprego deixou de ter valor, as relações entre patrões e trabalhadores evoluem na hostilidade crescente. A insatisfação é generalizada. As pessoas deixaram de saber a razão do seu trabalho e esforço. Os trabalhadores são “colaboradores”, portanto, dispensáveis. O mundo financeiro cegou e julgo que este modelo não é viável.
 

...

Rodrigo Saraiva, 26.12.11

depois da mensagem de Natal do primeiro-ministro lá vieram as reacções da oposição. O PCP disse o que diria tivesse Passos Coelho dito o que disse ou o seu contrário. O PS, que nunca fez contrição dos últimos seis anos, veio, sem pudor, pedir contrição de seis meses. O BE, talvez ainda de ressaca natalícia, disse só hoje reagir.