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Forte Apache

Equívocos europeus

Luís Naves, 05.06.12

A complexidade da União Europeia e os aspectos bizantinos da sua realidade dão origem em Portugal a muitas interpretações exageradas e visões românticas. Ou é o fim do mundo ou o topo do mundo. Frequentemente, ambos.

Como julgo estarmos num momento de definição, é importante que os leitores compreendam que a UE não passa de uma organização de 27 países e que tem poderes muito limitados. As decisões estão concentradas nos Estados e estes prosseguem naturalmente os seus interesses nacionais, o que se reflecte nos debates do Conselho Europeu, o órgão máximo.
Bruxelas (já o escrevi aqui) é uma espécie de gigantesca fábrica de salsichas, mas em vez de alimento produz legislação. As leis que adoptamos (mais de dois terços delas) são cada vez mais fabricadas pela burocracia comunitária. Daí a convergência: se os países têm legislação muito parecida, então as suas sociedades e as economias tendem a tornar-se semelhantes. Um mercado tão gigantesco não podia funcionar com regras demasiado distintas. Para mais, este é um processo de longo prazo. Claro que as salsichas não são consumidas da mesma maneira em todo o lado, há com chucrute e com batatas, com arroz e sem mostarda, em pão e acompanhada de cerveja ou vinho, com natas ou com iogurte. As variantes nacionais não desaparecem, mas é sempre salsicha. Não confundir as leis com a cultura dos países, a sua língua ou opções educacionais, áreas que não estão abrangidas pelos poderes comunitários, mas apenas pela cooperação voluntária dos países.
A União é hoje uma entidade esquisita, a várias velocidades, que funciona em rede e onde tudo se negoceia longamente. Há vários eixos: o mais importante é Paris-Berlim, que a crise financeira tornou mais forte; mas existe também Londres-Berlim, hoje enfraquecido. A Alemanha conta quase sempre com a Itália, a França com a Espanha e o Reino Unido com a Polónia. No entanto, por vezes, as coisas podem ser um bocadinho diferentes. Surgiu entretanto uma fractura entre norte e sul, devido a diferenças de competitividade provocadas por choques assimétricos, pois a globalização beneficiou o norte e prejudicou o sul.
Uma lei demora tipicamente dois ou três anos a ser negociada. Ou seja, e ao contrário do mito, o esquema que está a ser montado para salvar a moeda única foi executado praticamente à velocidade da luz.
A política também tende a ser europeia. Umas eleições gregas nos anos 80 mereciam 20 linhas numa página do DN da época. Agora, fazem correr rios de tinta, directos na TV e tornam-se tópico de conversa de café.

 

Aachen

José Meireles Graça, 05.06.12

A União Europeia é hoje o conjunto de egoísmos nacionais que durante o tempo de um espirro histórico pareceu que não era.


Entendamo-nos: enquanto o espaço europeu foi um de aprofundamento sucessivo do comércio livre, fosse com seis, nove, dez ou doze países, os cidadãos e empresas prejudicados pelo estabelecimento da comunidade foram sempre largamente suplantados pelos muitos mais que benefíciaram. E outro tanto sucedeu com a passagem a quinze membros, não obstante já então estar em vigor o Tratado de Maastricht, de 1992, que incorporava matérias que só indirectamente tinham a ver com as quatro liberdades (circulação de mercadorias, de serviços, de pessoas e de capitais).


Em 2004, mais dez países de uma assentada; e três anos depois os dois restantes, para os actuais vinte e sete.


Houve outros tratados, claro, para lidar com uma estrutura decisória crescentemente complexa, levados a bom termo; e falhanços (do ponto de vista europeísta), como a reiterada recusa da Noruega em aderir, a falta de unanimidade em torno de Schengen, o falhanço da Constituição do assanhado Giscard d'Estaing, etc.


Em 1999 veio o Euro. E houve quem, já então, achasse a construção bizarra, por falta de políticas orçamentais e fiscais comuns e por dúvidas sobre a razoabilidade de impôr a mesma moeda a espaços com diferenças abismais de competitividade e desenvolvimento.


A história de sucesso da CEE; o horror às guerras intestinas que sempre fizeram parte da paisagem europeia; a memória recente das duas guerras mundiais e o problema alemão; o medo do urso Russo; a corrente de fundo europeísta que desde o início distante na década de 50 subjazia às instituições comunitárias: tudo facilitou a vida aos engenheiros de pátrias que por aquele então acharam boa ideia ignorar umas quantas objecções de guarda-livros e nacionalistas retrógrados, e dar um passo irreversível no sentido da federalização. Se o Euro tinha os defeitos que alguns diziam que tinha, a correcção só se poderia fazer aprofundando a integração da qual as opiniões públicas desconfiavam e que, aqui e além, já claramente rejeitavam, em referendos de resultado politicamente incorrecto.


Que sabem os Povos, afinal, do que lhes convém? Não sabem evidentemente nada - quem sabe são as élites e todo o burro come palha, em havendo quem a saiba dar.


Entretanto, veio 2008 e a crise fez descobrir que o Euro foi o manto por trás do qual muitos Estados se endividaram muito para além do razoável. Isto, que já seria muito, não é ainda concludente, porque outro tanto sucedeu com Estados que não estão no Euro, a começar pelos EUA que todavia têm uma moeda de refúgio, mas também com o Reino Unido, que não tem.


As élites são ainda bastantemente as mesmas. E sendo as coisas confusas, como sempre acontece a quem vive no meio de processos históricos conturbados, fogem para a frente para não se suicidarem politicamente. E que podemos nós ler em prosa curta e leve, aqui à mão, que nos ajude a ver no meio do nevoeiro?


Bem, talvez isto, e isto e isto e isto e isto e isto. Ainda é pouco? Leia também isto.

 

Cada um verá porventura coisas diferentes. Eu vejo a sombra de Carlos Magno, sem a espada longa, chata e mortífera, e com um ar contrafeito, por lhe cair no colo o Império que desta vez não queria. Os Franceses acham que Carlos Magno era um deles. Mas tinha a capital em Aachen.

RiR 2012 by JFD

jfd, 04.06.12

Como disse pelo pensarlisboa.com o RiR tem um pouco de tudo para todos. Para mim em especial gostei por demais dos Expensive Soul. Não me conhecem de nenhum lado. Mas foi com orgulho que vi a sua linda actuação no palco mundo. Que os vi a apresentar os nossos representantes para os Jogos Olímpicos e para-olímpicos e que os ouvi tocar e cantar das minha melhores e preferidas músicas. Esta banda é genial. Desde que surgiram uma lufada de ar fresco. Aqui fica a minha preferida desde sempre desta banda de outra dimensão.

É uma festa. Celebração da música, dos média, dos sponsors, do público, dos média, de todos. Vem outro em 2014. Entretanto passará de novo em Madrid e fará estreia pela cidade do Tango.

 

Pátio das Cantigas

Maurício Barra, 04.06.12

«Por qualquer misteriosa razão o jornalista é um ser incólume e intocável, que nunca pode ser nem negado, nem desmentido, nem contrariado mesmo quando diz uma inverdade ou age por transparente má-fé. Enquanto de uma forma geral a classe política é para condenar liminarmente». Maria João Avillez

( fala quem sabe )

 

« Esta boa gente acha que basta dizer "vamos crescer" para que o PIB comece a dar pulinhos de contentamento.» Henrique Raposo

( no socialismo, a realidade é substituída pelos amanhãs que cantam)

 

"Quando o poder reside na detenção e gestão do segredo e na sua eventual comunicação, já não estamos em "democracia", estamos naquilo que, à falta de melhor, se pode designar por "bufocracia". Paulo Rangel

( neste caso, com uma ajuda Expressa e Pública )

 

« O Bloco de Esquerda grego já tem luta para o verão: diz ter a marca registada e vai exigir aos ingleses que paguem pelos Jogos Olímpicos.» Fonseca Ferreira

( de facto, estes senhores são especialistas em argoladas )

 

« no Vaticano, o suspeito do crime é o mordomo.»

( hummm ! o mordomo ? )

 

« Ordenados da EDP não têm implicação na factura da electricidade» António Mexia

( pois não, são os prémios por objectivos ) 

As não-alternativas da Esquerda fortemente lúcida

José Meireles Graça, 04.06.12

Na sua coluna no Expresso do fim de semana passado, em artigo fremente de indignação, Miguel Sousa Tavares amarra ao pelourinho da opinião pública Sócrates, Teixeira dos Santos, Alberto João Jardim, Durão Barroso e restantes dirigentes da UE ("os grandes senhores da Europa entregues à sua irrecuperável estupidez"), Merkel, a Troika, António Borges, os grandes escritórios de advogados e o Governo actual  — espero ter listado tudo. Relvas, desta vez, escapou, como escaparam Alexandre Soares dos Santos, António José Seguro e o Monstro das Bolachas, sem dúvida por ter acabado o espaço disponível.


MST queixa-se, em resumo, dos desmandos socialistas que nos trouxeram até aqui; da União Europeia que não lidou com a situação da melhor maneira; e da receita austeritária, tanto europeia quanto nacional: "...como é que um pequeno país, como Portugal, experimentou uma receita jamais vista — a de tentar salvar as finanças públicas através da ruína da economia".

Quem descreve problemas em artigos de opinião não tem obrigação de fornecer soluções — um bom diagnóstico já é suficientemente raro para merecer encómios. Mas MST oferece algumas soluções — já lá vamos.

Ocorre que MST é  socialista. E proponho que mesmo que Sócrates não fosse, como provavelmente é, venal; mesmo que os contratos das PPPs tivessem sido redigidos de forma equilibrada e não por advogados espertos e políticos estúpidos ou desonestos; ainda que não se tivesse feita obra pública que agora escandaliza pelo esbanjamento e a desnecessidade; se não tivesse sido nacionalizado o BPN; e se os erros cometidos não o tivessem sido por tantos incompetentes, mas sim por muitos mais inocentes - o resultado não teria sido muito diferente.

É que o equilíbrio das contas do Estado nunca foi, depois do 25 de Abril, nada que o establishment respeitasse. E não é, mesmo agora, nada que a Esquerda aprecie. E assim, o dizer que o mal não está na despesa excessiva mas sim nesta despesa excessiva é o que se diz sempre que o resultado é o desastre: Ah, que se estes incontáveis biliões tivessem sido gastos em educação, e em saúde, e em formação profissional, e na Cultura, e fossem administrados por gente séria, que diferente seria!

Não seria diferente — seria muito parecido. A menos que tivéssemos moeda própria, caso em que o valor dela reflectiria pela desvalorização os delírios dirigistas e intervencionistas dos governantes que temos escolhido, servindo de aviso e, em parte, de correcção.


MST não vê isto. E imagina que com outro pessoal (quem? Seguro pelos vistos não serve) alternativa à austeridade.

 

Não tivemos direito a uma ideia-força do que poderia ser este programa alternativo, mas a algumas ideias parciais: i) O programa de renegociação das PPPs não está mal, embora pareça ignorar a contemplação dos interesses estrangeiros que estão presentes e cuja ofensa poderia ser um tiro nos pés; ii) Obrigar "os bancos a aplicarem todo o dinheiro que vão buscar ao BCE a 1% de juros no financiamento da economia e das empresas viáveis e não em autocapitalização, para taparem os buracos dos negócios de favor e de influência que andaram a financiar aos grupos amigos", soa muitíssimo bem. Excepto pelo pormenor de os fazer falir, obrigando à sua nacionalização; iii) "Todas as empresas de construção civil, que estão paradas por falta de obras e a despedir às dezenas de milhares, se possam dedicar à recuperação e remodelação do património urbano, público ou privado, pagando 0% de IRC nessas obras". Excelente ideia, embora os privados não estejam a dar sinais de, mesmo com desconto, estarem interessados nas obras que MST estima altamente desejáveis, e o Estado não ter dinheiro para financiar as suas; iv) "Proíbam as privatizações feitas segundo o modelo em moda, que consiste em privatizar a parte das empresas que dá lucro e deixar as 'imparidades' a cargo do Estado." Realmente...eu iria mais longe, não privatizando empresas sem garantias de não estar a criar monopólios privados. Embora, tirando o BPN, uma bota rota e podre que era preciso descalçar, não esteja ao corrente da existência de outra empresa em que o Estado tivesse ficado com as imparidades.


"A próxima vez que o careca, o etíope e o alemão cá vierem, estou disponível para tomar um cafezinho com eles no Ritz. Pago eu, porque não tenho dinheiro para os juros que eles cobram se lhes ficar a dever."

Ora, Miguel, pode confiar, eles sabem que é de boas contas. Mas duvidam que o nosso País também seja. E por isso, 4,5%, com a inflação como está, nem parece um número muito impressionante. Eu a si emprestava-lhe a 2% — ao País nem aos 4,5%.