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Forte Apache

O tripé de duas pernas

José Meireles Graça, 28.09.12

Sou um fiel da Quadratura do Círculo. A fórmula do programa é eficaz: um tipo do CDS, outro do PS, outro do PSD; a actualidade política; cordialidade, senão cumplicidade, no trato; um moderador que não dá nas vistas; e categoria dos residentes. A simplicidade e transparência do formato e o perfil dos senadores da opinião, ontem e agora, explicam a longevidade. Se o programa tivesse a pretensão de ter comentadores "independentes"; ou quisesse ter lá todo o espectro partidário, com um comunista a debitar as teses do Congresso e as directivas do Comité Central, ou um bloquista a espumar baba e ranho contra os ricos - o tédio escorria pelas paredes e o programa finava-se pela insignificância do share.

 

Mas com a actual maioria o tripé perdeu uma perna: Costa reclina-se satisfeito na cadeira enquanto Pacheco vai metodicamente demolindo o Governo, constituído, parece, por gente que quando não é completamente impreparada é desesperantemente idiota. Nada, absolutamente nada, se aproveita.

 

Isto provoca mal-estar, porque mina a convenção implícita do programa: ninguém está ali por seguidismo acrítico, passe a redundância, mas aquela gente tem, é suposta ter, e não nos incomoda que tenha, porque isso é assumido, simpatias partidárias. A gente filtra, porque a gente não semos burros.

 

Costa sabemos que tem ambições políticas, debita o mantra do PS em matéria económica, e acha previsivelmente este governo um desastre, por estar sob diktat estrangeiro e ter maus resultados, do mesmo modo que achava o anterior excelente por os resultados serem péssimos, mas por culpa do estrangeiro. Lobo Xavier é do CDS, a eterna e teimosa minoria cravada na garganta da desejada hegemonia do PSD. E Pacheco Pereira, hoje, é de onde?

 

Pacheco é da Marmeleira, onde vive. E nesse pacato refúgio congemina há anos análises profundas e teses subtis, a benefício da liderança do seu partido de há muito, que lhe emprestava um ouvido atento e deferente. E é aqui que bate o ponto, agora: ninguém lhe liga.

 

Eu acho isto muito mal, estragaram-me o programa. E por isso peço, desta modesta tribuna: ouçam, no PSD e no Governo, Pacheco! Que ele não precisa propriamente de lugares, precisa é de ter acesso a ouvidos poderosos. E os conselhos que pode prodigalizar em matéria de tática política são preciosos, desde que quem os receba tenha a precaução de fazer o oposto do que ele recomendar.

 

Assim é que não dá: ou Pacheco Pereira é nomeado para qualquer coisa, ou cai o Governo, ou eu mudo-me para a TVI 24. Tomem nota.

 

Jornalismo ou Cãozoada

Maurício Barra, 28.09.12

Supondo que a repetição intensiva que a SICN exibiu, e continua a exibir, sobre a perseguição que faz ao primeiro-ministro em qualquer lado a que ele vá, não tenha sido encomendada pelo BE ou pelo PC (mas parece), esta exibição histriónica revela muito do que é a política editorial de uma estação de televisão.

O ódio visceral que a SIC dedicou a este governo desde o primeiro dia, porque não queria ser incomodada pela privatização da RTP, é a demonstração da arrogância de quem se considera dono da informação em Portugal e não quer, também, ver perturbada a formatação ideológica da informação que quotidianamente “ fornece” aos portugueses. Aliás, a alternativa que propôs foi a eliminação da RTP e a constituição de um duopólio que se “encarregaria”, adicionalmente, da nova televisão que viesse a ser privatizada ou concessionada.

Assim, desvirtuar o conteúdo pela forma é, habitualmente, a cacha do dia. Não começou hoje nem vai acabar amanhã. Ter ou não ter honestidade intelectual não faz parte das preocupações de muitos ansiosos primários que fazem do jornalismo o megafone diário das suas agendas políticas. Não subsistirão enquanto discurso dominante e racional, mas são notórios porque em público exercem a que deveria ser a sua profissão.

Analisando friamente, muitos dos “transmissores de notícias” do nosso país não têm como objectivo ser jornalistas, mas sim ser paparazzi do quotidiano, procurando notoriedade efémera a qualquer custo, (en)cobertos pela falta de probidade de editores que, quando os mandam reportar, efectivamente os mandam ladrar e morder, para que a notícia não seja o que a pessoa diz, mas sim a marca da mordidela na canela.

 

Obsrv: suponho que não vos escapou o ataque em alcateia dos bobbies e tarecas de Sócrates (e de Marinho Pinto) à Ministra da Justiça, pelo simples facto de a senhora ter garantido que não prescrevia a investigação ao eventual dolo público das negociações de Governo de Sócrates com as PPP's.

Dúvida sobre a sugestão da demissão da Ministra da Justiça

Carlos Faria, 27.09.12

Alguns deputados socialistas sugeriram a demissão da Paula Teixeira da Cruz, por ter dito que ninguém «ninguém está acima da lei», que «tudo deve ser investigado» e que «acabou o tempo» em que havia «impunidade».

Será que com isso queriam dizer que há socialistas acima da lei, que não devem ser investigados e para os quais se deve preservar a impunidade?

 

Efetivamente se pensavam isso, tal talvez possa justificar alguns comportamentos difíceis de compreender, nomeadamente ao nível as renegociações de algumas ppp... eu por mim subscrevo o que disse a atual ministra da Justiça e que se as investigações descobrirem culpados, estes não saiam impunes, sejam socialistas ou não.

Abaixo a reacção

José Meireles Graça, 27.09.12

"Em relação à Fundação Nadir Afonso, a responsável, Laura Afonso, disse, também à agência Lusa, que não chegou a ser avaliada “porque nunca recebeu apoios públicos. “O dinheiro investido no empreendimento para a sede vem do município [de Chaves], mas através de fundos comunitários", sustentou Laura Afonso sobre o projecto, que ascende a nove milhões de euros de investimento."

 

Não sei, nem tenho que saber, absolutamente nada sobre Laura Afonso, mas não me custa admitir que seja uma excelente pessoa a todos os títulos. Mas tem a noção discutível de que o Município de Chaves não é público, e que os fundos comunitários são gerados espontâneamente num lugar mítico, possivelmente os céus por cima de Bruxelas.

 

Sucede que o Município de Chaves gera as suas receitas com a produção de alvarás de licença, destinados a uma clientela cativa, e com transferências de impostos; e as instâncias europeias, essas, têm uma punçãozinha no IVA, da qual se fala pouco.

 

Estas receitas são públicas e bem públicas, Afonso que me desculpe. E como votei no Governo que está para, entre outras coisas, acabar com o imenso espatifar do meu dinheiro; e como nesse particular tenho tido muitas desilusões, não me levará a mal que eu veja com bons olhos este tímido esforço para acabar com a rebaldaria, e com maus as reacções.

 

Mas agora que desabafei com Laura, que se terá exprimido mal, ou será ingénua, já não posso dar o benefício da dúvida ao sátrapa da Madeira. Olha, Bertinho, há décadas que fazes o mesmo negócio dúbio: compras votos com benefícios para os teus eleitores, e divides as contas entre eles e os outros, que são os do contenente.

 

Insistes que o contenente não tem nada a dizer. Eu acho que tem. E espero que, desta vez, os cubanos de Lesboa não se deixem impressionar com o teu cansado número de tigre de papel.

O Terror das Festas Escolares

Francisca Prieto, 27.09.12

 

Cá por casa, assim que se avizinham festividades escolares, começo a abrir as mochilas dos meus filhos com a cautela de quem já foi exposto a Antrax. Se é certo que, num ano, bastou mandar um par de collants azuis para o teatro da turma, também já sucedeu terem-me exigido mascarar um filho de Bolo Rei.

 

Ora um destes dias estava à conversa com uma amiga que, a propósito destas andanças, me contou um mal entendido perfeitamente legítimo para gato que já foi escaldado. Andava o seu petiz no jardim de infância quando, por alturas do carnaval, disseram à mãe que “amanhã o João tem de vir mascarado de casa”.

A minha amiga, que até é da área de design, entrou em pânico e não se inibiu de expressar a sua indignação à educadora, salientando que aquilo não era coisa que se pedisse de véspera, que ela uma mãe que trabalhava, que lhe parecia inconcebível aquele grau de exigência, e por aí fora.

 

Chegando ao escritório, partilhou de imediato a angústia com uma colega arquitecta, na esperança de que esta, com toda a sua experiência, tivesse alguma ideia milagrosa que a salvasse do pesadelo.

Estavam as duas em pleno brainstorming, discutindo a possibilidade de utilização de diversos tipos de materiais, que iam do k-line às placas de esferovite, quando entrou o responsável de produção da agência, a quem contaram a causa de tanta azáfama.

Achando que estava perante duas loucas, o senhor calmamente esclareceu que era provável que o que a educadora pretendia era que o João chegasse ao colégio já vestido para o carnaval, ou seja, “que fosse vestido de casa”.

 

Uma história destas não me teria ficado na memória se aqui há uns tempos a minha amiga Fernanda, nada e criada em Beja, não me tivesse contado que uma vez no teatro da primária tinham vestido as meninas de monte alentejano (e já estou a imaginar o efeito em palco).

 

É por estas e por outras que suspiro de alívio sempre que põem os meus filhos a fazerem de operários, de chineses ou de homens do povo. Afinal, nos tempos que correm, sempre torna este carnaval muito mais realista.