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Forte Apache

A palavra é uma arma (e vice-versa)

João Villalobos, 03.12.12

 

Leio por aí que o Doutor Pacheco Pereira, no seu último programa, entre o vídeo viral do PSY-Gangnam Style e o livro de Fernando Rosas sobre Salazar, exibiu uma espigarda-metralhadora Kalashnikov. Espero que não a leve também para o Quadratura do Círculo mas, caso assim o entenda na sua liberdade de expressão e para o reforço de qualquer argumento, sugiro a versão com coronha retrátil que é bastante mais maneirinha. 

O abraço improvável

José Meireles Graça, 03.12.12

Agostinho Lopes é um conhecido carroceiro do PCP. Não é grave, a espécie é transversal ao espectro partidário: num partido geralmente cordato como o PSD, repleto de gente circunspecta e engravatada, é possível um Odorico Paraguaçu ter granjeado votos, sucesso e prestígio ao longo de décadas. É certo que o preço fica para os sucessores pagarem, mas no resto do País, governado por gente com muito mais gravitas, a coisa não foi diferente. Porém, não é realmente disso que quero falar - as palavras são como as cerejas.

 

Agostinho, em pleno Congresso, disse o seguinte: "Há duas ilusões a evitar, a que é possível uma política alternativa com a manutenção do euro e mais federalismo como querem o PS e o Bloco de Esquerda e a ideia de que tudo se resolve com uma saída pura e simples do euro, qualquer que seja a forma como se sai e as condições de saída." Para Agostinho Lopes, um governo "patriótico e de esquerda" deve, no entanto, preparar o país para "a reconfiguração da zona euro, nomeadamente a saída da união económica e monetária, por decisão própria ou crise na União Europeia, salvaguardando os interesses de Portugal."

 

Isto é muito embaraçoso: porque, no essencial e com apenas duas correcções, não tenho nenhum problema em subscrever a tirada.

 

A primeira é que com a manutenção do Euro seria possível uma política alternativa, consistindo em privilegiar cortes na despesa e não aumentos de receita. A diferença teria sido um efeito menos depressivo, menos conflitualidade (aproveitando um estado de graça agora finado), e criação de condições para, se e quando o crescimento recomeçasse, o governo do dia, presumivelmente do PS, partisse de uma base muito mais baixa para restaurar o despesismo público - que é na prática o que o PS sabe fazer. Esse corte vai agora acentuar-se, ainda que em parte: quando tudo o mais falha, nomeadamente a cobrança de impostos, o único caminho possível para atingir o fugitivo equilíbrio é cortar na despesa.

 

A segunda é que o patriotismo não é património da Esquerda. No caso do PCP, aliás, os textos sagrados recomendam o internacionalismo proletário: alguém duvida que o PCP seria federalista, se uns Estados Unidos Europeus pudessem ser comunistas? Não é património da Esquerda nem será, a meu ver, a melhor luz à qual devem ser vistas quaisquer mudanças.

 

A luz necessária é a do realismo: o Euro falhou; os mesmos que o engendraram dizem agora que, para o corrigir, são necessárias mais instituições "comunitárias", designem-se ou não por federais; e países diferentes têm interesses diferentes, que podem ser convergentes, embora não sempre. Pode-se acreditar que é possível o governo de uma manta de retalhos feita de povos diferentes, com línguas diferentes, economias diferentes  e diferentes percursos históricos, sem nenhum cimento que não seja uma ideia abstracta de engenharia de pátrias e um interesse comum que todos os dias é desmentido. Mas isso requer um tal esforço de fé que só a mesmerização de toda uma geração e o medo do desconhecido, agora que desfazer a feira parece imensamente mais difícil que a ter levantado - pode explicar.

 

As razões não serão as mesmas, e os objectivos menos ainda, mas, hoje por hoje, um abraço, camarada Agostinho.

A minha carta aberta a Passos Coelho

Francisco Castelo Branco, 03.12.12

Caro Primeiro Ministro,

Tenho 27 anos e desde que acompanho a política só me lembro de cinco Primeiro-Ministros. Vi Guterres e  Durão a fugir do país após situações financeira complicadas para Portugal. O primeiro demitiu-se porque perdeu as autárquicas e não mais se recandidatou, o segundo aproveitou a euforia do Europeu 2004 para sair sem ser notado. De Santana Lopes não tenho grande memória porque o tenho que ele esteve no poder não foi o suficiente para tirar conclusões, no entanto não mais me vou esquecer daquele discurso da tomada de posse. Um verdadeiro desastre.
Finalmente acompanhei o consulado Socrates. Confesso que estava expectante em relação ao seu mandato. Nunca imaginei que conseguisse ficar 6 anos no poder e vencer por duas vezes as eleições. A forma como triturou os líderes do PSD, até chegar ao confronto consigo, foi notável. Agora tenho acompanhado a sua liderança e quero dizer que noto diferenças muito importantes se compararmos com os quatro anos que enunciei.
Ao contrário do que muitos dizem, não acredito que o senhor seja um mentiroso. Aquilo que se diz em campanha eleitoral não poder servir para definir um rumo do país. Eu percebo que muitos fiquem chateados porque o senhor disse que não ia aumentar os impostos. No entanto, não acho que tenha faltado à verdade nesse aspecto. Não é importante aquilo que se diz em campanha eleitoral, já que estar no governo é outra música. Sou daqueles que não concorda com o brutal aumento dos impostos, contudo acredito que se trata de uma medida passageira e que em breve os impostos vão baixar de forma significativa. Espero que faça um corte substancial da despesa para que seja proibido cometer os excessos do passado. Ou seja, estou com esperança que este corte seja mais para mudar mentalidades do que acabar com o Estado Social. Esta matéria daria pano para mangas, mas o problema é que não tenho espaço para falar dela nesta carta, pelo que ficará para mais tarde.
Digo-lhe já que gosto de duas qualidades que o senhor tem demonstrado. São elas a coragem e a coerência. Começamos pelo fim, a coerência. Ao contrário do que sucedia com o seu antecessor, o senhor não hoje uma coisa e outra amanhã. Felizmente o senhor tem alertado que se trata de um caminho díficil e que vai ser duro. É de louvar a sua honestidade pessoal e política, coisa rara nos dias que correm. Isto leva-me à coragem. Ao ter aceite conduzir o país nestas circunstâncias, sabendo de antemão que não vai ser pêra doce, o senhor Primeiro-Ministro está a dar a cara e isso é uma qualidade que poucos políticos têm. Pior do que ter políticas erradas é esconder o problema, e isso nunca fez parte do discurso, por isso é que o aplaudo. Outros estariam a pintar o país de cor-de-rosa. Neste aspecto, dou razão também a Manuela Ferreira Leite aquando das eleições em 2009, mas o país preferiu continuar a viver acima das possibilidades.
Também sou liberal e a favor de um Estado mínimo e  mais iniciativa privada, sobretudo em áreas que o Estado não tem necessidade de gastar dinheiro, porque os privados podem assegurar uma melhor gestão e contribuir também de outra forma para a qualidade dos serviços com algum investimento. Por isto é que não percebo aquela lenga lenga que o Estado tem de assegurar quase tudo aos seus cidadãos. Neste aspecto, incluo duas questões: a cultura e o serviço público de televisão e rádio. Ora, quanto mais investimento privado houver, melhor será a qualidade dos serviços. Sou completamente contra a manutenção de serviços no Estado que dão prejuízo. Um serviço que só dá prejuízo deve ser alvo de cortes de maneira a garantir um funcionamento equilibrado. Até para garantir aos cidadãos um serviço de qualidade. Tudo se resume a uma palavra: se não funciona é para cortar. Em relação à Educação e Saúde tenho dois pontos de vista. Na Saúde o Estado devia contribuir com participação superior a 50% com incidência especial nos mais carenciados e idosos. No que toca à educação, as autarquias deveriam ter um papel mais interventivo e fiscalizador de forma. Sei que mexer nestas duas áreas vai gerar muita indignação, no entanto indignado estou eu que não quero contribuir para uma saúde e educação sem controlo de gastos, bem como noutras áreas que depende da intervenção do Estado. Saúdo o seu trabalho por estar a fazer um corte radical com o passado. Com alguns vícios que duram neste país há quase 20 anos. E aqui culpo tanto o PSD como PS, porque foram estes partidos que estiveram no Governo e levaram o país a esta bancarrota. Tal como eu, há muitos portugueses que estão consigo, apesar dos inúmeros protestos. As pessoas estão fartas das mesmas práticas, dos mesmos círculos e de passar a vida a pagar impostos ao Estado para que este meta o nariz onde num país civilizado não era chamado.
Conte com o meu apoio para ultrapassar esta fase e mandar a troika embora de Portugal. Se os indicadores estiverem correctos e começarmos a crescer em 2014, é certo que em 2015 a vitória está assegurada, até porque o PS com António José Seguro não vai a lado nenhum. No entanto não queria acabar esta carta sem lhe colocar duas perguntas: 
Vai escolher um bom candidato para Lisboa ou deixará ganhar António Costa na capital para que este não lhe venha a fazer sombra nas próximas eleições legislativas? 
Se conseguirmos mandar a troika embora e as eleições de 2015 forem livres, vai querer continuar o apoio do CDS?

Ai aguenta, aguenta

André Miguel, 01.12.12

Esta prosa do colega de armas José Meireles Graça conduziu-me a esta vacuidade do Sr. Daniel Oliveira, o qual se mostra muito preocupado com a saída do país da geração melhor preparada.

Como emigrante agradeço desde já o adjectivo sobre a preparação, a qual na cabeça do Sr. Daniel Oliveira deve-se, certamente, unicamente à aposta na educação que o Estado depositou em nós. Isto de vivermos num mundo sem fronteiras, com liberdade de escolha e mérito próprio para procuramos o melhor, são coisa de somenos na cabeça da maioria da nossa esquerda. Se até Obama diz que não devemos a nós o nosso sucesso mas sim a terceiros é porque deve ser verdade… Enfim, adiante.

A certa altura atira o Sr. Daniel que este jovens “Eram sobrequalificados para o tecido empresarial português, que, por culpa própria e do Estado, não acompanhou o investimento público na qualificação do trabalho”. Engana-se meu caro. Foi precisamente o excesso de investimento público, o incentivo, a procura do progresso, o apoio e o subsídio financiado com os impostos sugados aos privados, juntamente com o crédito fácil e barato para o Estado que fez com que os nossos empresários, mesmo acompanhando a nossa qualificação, não tivessem meios de nos oferecer oportunidades. O Estado glutão tudo comeu e nada deixou até à entrada em cena do FMI. Como emigrante lhe confesso que dispensaria bem todo e qualquer apoio do Estado à qualificação do meu trabalho, deixe lá isso para quem paga os ordenados. O único apoio que o Estado devia dar ao mercado de trabalho era não apoiar o mercado de trabalho, sair da frente e deixar aos privados essa tarefa; o Estado não deve ser regulador e jogador.

Quanto à preocupação de não regressarmos permita-me tranquilizá-lo, pois regressaremos, fique tranquilo pois gostamos muito do nosso cantinho à beira mar. Também não se preocupe que sua santidade o Estado não ficará sem mão de obra qualificada. Hoje partimos, já expliquei as razões, mas depois de arrumar a casa, depois de todos os estragos de anos a fio a incentivar a qualificação do trabalho estiverem minorados, não se preocupe que Portugal voltará a necessitar os melhores e nessa altura lá estaremos e se não formos nós, certamente, outros estarão disponíveis. A certa altura diz ainda que “Desprezamos, enquanto povo, quase todas as conquistas dos últimos quarenta anos”. Fale por si, pois eu, jovem emigrante, tal como a minha família, orgulho-me de todas as conquistas de Portugal, pois não esqueço as histórias de miséria dos meus pais e avós no Alentejo do antigamente. E não, o país que construímos nas últimas décadas não está a partir, está a reconstruir-se. Até lá é aguentar, tal como nós emigrantes aguentamos a sua preocupação bem falante.

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