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Forte Apache

O priapismo do PS

José Meireles Graça, 29.12.12

Se e quando o PS regressar ao Poder, sou dos que acharão justo - tão justo e apropriado como a nomeação, nas insolvências, dos próprios insolventes como fiéis depositários dos bens a executar.

 

Claro que os insolventes não costumam orgulhar-se da condição a que chegaram, e não lhes ocorre a ideia peregrina de, se melhorarem de vida, repetir os passos que os levaram ao abismo.

 

Por isso esta comparação é nitidamente forçada. Mas, mesmo assim, foi a que me ocorreu ao ler o estimável Zorrinho: "Respeitamos as metas do memorando mas é outro o caminho para as podermos cumprir. Um caminho baseado numa visão moderna do Estado social, numa nova economia sustentada no conhecimento e na inovação limpa, na participação e no envolvimento das pessoas e das comunidades".

 

Tenho porém dúvidas se o estou a interpretar correctamente, porque a referência à inovação limpa me deixa um tanto perplexo: estará Zorrinho a insinuar que a inovação no anterior consulado PS, da qual foi o mais brilhante corifeu, via Plano Tecnológico, Estratégia de Lisboa e outros brilhos de lantejoulas, foi, digamos, hum, suja?

 

Não posso crer. Deve ser mazé retórica, daquela do voluntarismo, dinamismo e empreendedorismo - priapismo de treteiros, em suma.

Algumas incertezas e (quase) certezas no mundo em 2013

Alexandre Guerra, 28.12.12

Num exercício prospectivo, ficam aqui algumas incertezas e (quase) certezas no mundo em 2013. Fica também o convite aos leitores deste blogue para acrescentarem na caixa de comentários as suas incertezas ou (quase) certezas para o novo ano que se aproxima.


As incertezas 

 

- O papel do Japão na região Ásia-Pacífico com a nova liderança de Shinzo Abe, sobretudo ao nível das relações diplomáticas com a China e com os Estados Unidos.

- Que impacto terá a eleição da primeira mulher para a presidência da Coreia do Sul nas relações político-diplomáticas entre os dois países da Península Coreana?

- É possível que Pyongyang volte a fazer lançamentos de propulsores balísticos (foguetões) em 2013. Mas haverá algum teste nuclear?

- O cenário político em Itália é neste momento uma incerteza, com as eleições legislativas no horizonte.

- Uma das grandes questões em aberto é saber se a Espanha vai resistir a um resgate massivo.

- Embora já tenha delegado poderes no seu vice, é ainda uma incógnita se Hugo Chávez abandona de vez o poder na Venezuela.

- Será que 2013 marcará o divórcio entre o Reino Unido e a União Europeia?

- Qual o impacto das ondas de choque da “Primavera Árabe” na Casa de Saud da Arábia Saudita e no Reino Hachemita da Jordânia?

- Quantos mais casos de corrupção vão afectar a presidência de Dilma Roussef?

- Os próximos tempos trarão luz sobre o futuro da Direita francesa.

- A Bélgica é um país instável, com duas comunidades linguísticas a reclamarem duas visões diferentes de sociedade. Será que em 2013 as divisões voltarão a vir ao de cima?

- Numa altura em que as divisões entre o Hamas e a Fatah voltam a acentuar-se e com Israel a rejeitar, por completo, o novo estatuto da Autoridade Palestiniana, enquanto Estado observador não membro das Nações Unidas, conseguirá Mahmoud Abbas manter-se à frente dos desígnios palestinianos?

- Depois de Osama bin Laden, será que as forças americanas conseguirão capturar Ayman al-Zawahiri em 2013?

- Poucas dúvidas há quanto à possibilidade de ocorrerem atentados terroristas no próximo ano, a grande questão é saber onde e quando.

- É ainda pouco claro qual o registo que Vladimir Putin pretende impor à política externa da Rússia nos próximos tempos. 

- Em 2013 haverá uma reaproximação entre Washington e Islamabad?

- Os Estados Unidos vão cair no precipício?

A África do Sul continuará a ser um país com uma sociedade muito tensa e dividida. O presidente Zuma não tem dado grandes provas de ser um homem de bom senso e de apaziguamento. Será incerta a reacção da sociedade sul-africano perante um eventual desaparecimento de Nelson Mandela em 2013.

 

As (quase) certezas


A vitória de Benjamin Netanyahu nas próximas eleições legislativas é quase uma certeza. Mesmo que perca alguns deputados no Knesset, Bibi deverá aproveitar a vitória para reforçar a sua política de expansão dos colonatos e de isolamento da Autoridade Palestiniana.

- Vão continuar a surgir inúmeras notícias a dar conta da proximidade do Irão à "bomba nuclear", mas dificilmente haverá novidades concretas neste capítulo.

- Os ataques cibernéticos camuflados promovidos pelos Estados Unidos contra o Irão deverão continuar, no seguimento do que já aconteceu com os vírus Stuxnet e Flame. 

É das poucas certezas absolutas: a Somália continuará a ser uma manta de retalhos e o melhor exemplo de um "Estado falhado".

- A Al Qaeda irá continuar a perder força e a ficar sem estrutura de cúpula, mas as suas afiliadas instaladas em zonas como o Norte e Corno de África vão manter-se activas e com capacidade mobilizadora.

- Os movimentos fanáticos religiosos na Nigéria, na República Centro Africano, no Uganda e na República Democrático do Congo manter-se-ão activos. Muitos senhores da guerra, como Joseph Kony, líder do LRA, continuarão a deslocar-se livremente pelas selvas africanas, cruzando fronteiras altamente permeáveis.

- Em 2013 vai perceber-se se Hillary Clinton está empenhada em ser a próxima candidata pelo Partido Democrata às presidenciais americanas. Por outro lado, o Partido Republicano vai continuar dividido entre diferentes correntes ideológicas.

- A Irmandade Muçulmana deverá cimentar o seu poder no Egipto, levando a que muitos egípcios recordem os "bons velhos" tempos de Mubarak com saudade. A desconfiança entre o Cairo e Telavive vai aumentar. Washington vai certamente estar muito atenta à evolução da situação interna egípcia, país para o qual é canalizado um grande apoio financeiro americano.

- O Iraque e o Afeganistão manterão o trilho do calvário.

- É muito provável que a guerra civil da Síria vá sendo "alimentada" por potências externas, como a Rússia, o Irão, os curdos e, até mesmo, os Estados Unidos de forma camuflada.

- O Brasil, a Índia ou a China vão continuar a brilhar na economia internacional, embora esta última possa revelar de forma mais evidente algumas fragilidades.

- Pequim irá manter a escalada de investimento em equipamento militar.

- Alguns estados do Golfo continuarão a implementar reformas e a captar investimento estrangeiro.

- A Birmânia irá acentuar a sua política reformista e de abertura ao exterior.

- Nem a UE nem o Euro vão acabar, assim como as intermináveis reuniões do Conselho Europeu.

- Países enormes como o Canadá ou a Austrália continuarão a ser irrelevantes no sistema internacional.

- O nome de José Manuel Durão Barroso começará a ser falado para cargos internacionais como a ONU ou a NATO.

- A Croácia tornar-se-á o 28º membro da União Europeia e a Alemanha continuará a ser a grande potência da Europa.

A resignação

José Meireles Graça, 28.12.12

Na intensa e permanente propaganda pró-UE, as Quatro Liberdades (uma formulação com ressonâncias maoístas) são apresentadas como uma conquista - mais uma - no longo e glorioso caminho da "construção europeia".

 

São elas, relembrando, a de movimento de produtos e mercadorias, de serviços, de pessoas (incluindo trabalhadores) e de capital.

 

Não viessem estas liberdades acompanhadas de um super-estado com uma crescente burocracia centralizadora, interventiva e legislativa; e não fosse já evidente que a Europa não é a das Nações, mas, crescentemente, a de um Directório, e, tendencialmente, a de um país; e sendo patente que, nas relações entre Estados, tal como na relação entre as pessoas, quem parte e reparte escolhe a melhor parte:

 

Estas quatro liberdades valeriam a pena. Mas o preço que se paga e o que se adivinha é cada vez maior, desde logo porque a liberdade principal de um país pequeno e pobreta como o nosso, que é a de gerir as suas dependências, não apenas desapareceu por força da bancarrota, como não se lhe vê o regresso, mesmo para lá do momento em que o País atinja o fundo que incessantemente parece mais fundo.

 

Não é que estas cogitações interessem muito: a classe dirigente é pela sua maior parte europeísta, o que quer dizer nas nossas circunstâncias concretas Eurista; o acumular de problemas e impotências facilita o aprofundamento da integração - qualquer solução parece uma solução; e não será a mesma classe que criou o monstro que o há-de liquidar - nem os políticos nem os burocratas são adeptos do hara-kiri.

 

Mas isto é entre nós. Noutras paragens, a propósito de assuntos menores, o Estado arreganha os dentes aos seus cidadãos que querem ir pastar para mais verdes prados - circula à tua vontade mas deixa ficar o arame. Se a intimidação não resultar, a solução que já generalizadamente se defende é a harmonização fiscal. Por cima, já se vê.

 

Mas não é provável que quem quer e pode ter impostos relativamente mais baixos esteja disposto a abrir mão da vantagem competitiva; nem que, com mais ou menos barulheira mediática, os cidadãos se deixem alegremente espoliar.

 

Isto é uma grande maçada: Todos os impérios se fazem com grandes proclamações e o bruxelense não é, neste particular, diferente. Mas a Europa escolheu a democracia e a liberdade como pedras angulares. E alguns cidadãos e alguns países não as veem como a democracia dos escravos do Estado e a liberdade de obedecer e abdicar.

 

Pelo que o affaire Depardieu, a mim, parece-me mais um sintoma que um fait-divers. E, para acabar o ano numa nota positiva, um sintoma de que a resignação não é o estado de alma ubíquo que a nós nos parece ser. 

Amigos para sempre

Dita Dura, 27.12.12

As minhas memórias da escola primária são a sépia, têm o sabor de leite chocolatado e o cheiro da sala de aula naquele dia. Nunca tive grande amizade com o Fernando mas, desde que aconteceu aquilo, fiquei ligado a ele para sempre. Há mistérios que a vida não perde tempo a explicar-nos.

 

Tudo se passou num dia que deveria ser como os outros, na rotina aborrecida da aula da terceira classe. Devo ter sido o último a perceber o que se estava a passar, mas quando dei por mim havia um círculo em torno do Fernando e a professora aos berros porque ele não sabia alguma coisa, provavelmente a tabuada ou o nome dos rios. Ele a chorar desalmadamente, ela completamente possuída e ávida de vingança, cada vez mais enfurecida e ansiosa, a exigir ouvir a mesma gravação repetida que nós tínhamos de decorar, mesmo que não entendêssemos. Mas em vez de emitir qualquer som articulado, o Fernando apenas conseguiu molhar o chão e arrancar uma gargalhada geral, “mijou-se todo!” Fui o único a ficar calado mas confesso que ainda tentei esboçar um sorriso para não me julgarem. Os amigos que ele tinha, que continuou a ter e ainda tem, riram-se até não poderem mais. Não tenho a certeza se ele aprendeu uma lição importante nesse dia, mas sei que eu aprendi.

 

Confiamos na amizade eterna, mas esta só permanece enquanto durar a oportunidade e a paciência. Tal como tudo na vida, as relações humanas são um negócio, uma troca que só dura enquanto for considerada justa e útil. Podemos enganar-nos a nós próprios e aos outros com juras infinitas ou convicções absolutas, mas esta é a verdade. E o pior é que não pode, nem deve, ser a desculpa para nos tornarmos egoístas ou passivos. Apercebermo-nos de tudo isto é duro mas é inevitável e chama-se crescer.