Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011
por Francisca Prieto

 

Há coisa de um par de anos, no meio de uma data de papelada, dei com uma carta que escrevi ao Menino Jesus quando andava na escola primária. A fórmula utilizada assentava no pressuposto de que Jesus, na azáfama natalícia, podia não perceber exactamente do que eu estava a falar e, para que não houvesse qualquer hipótese de equívoco, complementava cada pedido com indicações precisas, do estilo "quero uma corda de saltar igual à da Catarina Fernandes" ou "quero umas meias de quadrados azuis, como as da Mafalda Coelho".

 

Jesus, não obstante a sua omnisciência, acabou por me oferecer uma corda de saltar vagamente parecida com a da Sandra Fonseca, que estava longe de ter a categoria da da Catarina Fernandes. Na altura fiquei um bocado desiludida, mas nada que se parecesse com o que me aconteceu no ano passado.

 

Ora em Dezembro de 2010 já a crise tinha arrancado na pole position, de maneira que eu, tendo a sorte de ainda não ter sido atropelada pelos acontecimentos, generosamente roguei a Cristo que, em vez de me trazer bens materiais, me levasse uns quilos a mais. Quatro, salvo erro, implorava o pedido.

 

Passado o festim natalício, pouco a pouco, fui notando pequenas oscilações na balança no sentido descendente, de maneira que cedi em perdoar a velha história da corda de saltar e confirmei a minha crença nas boas intenções do Menino.

 

Até que, lá para meio do ano, por alturas da estreia do "Peso Pesado", comecei lentamente a voltar a deixar de conseguir apertar o botão das calças. Bem sei que o Natal já ia longe, mas era justo que o meu pedido tivesse validade de pelo menos um ano, com possibilidade de renovação de contrato. Afinal, se eu tinha prescindido de bens materiais, não era razoável que o meu apelo ficasse esquecido só porque tinha aparecido um grupo com carácter de emergência.

 

De maneira que, Menino Jesus, agradecia que este ano acertasses as nossas contas, com retroactivos. Pelo sim, pelo não, deixo-te uma carta à antiga, não vá o diabo tecê-las.

 

Querido Menino Jesus,

Este ano gostava muito que me oferecesses:

 

 - Uma assinatura da revista LER, como o João Gomes de Almeida também pediu (se só houver uma, guarda para mim, se faz favor, porque ele está farto de publicar sugestões no Forte Apache e uma delas é chocolates, o que é facílimo. Jovem João, com este tipo de pedidos, mais ano, menos ano, farás uma carta igual à minha do ano passado, mas isso é lá contigo).

 

- Um quadro da mãe da minha amiga Ana. Podes ser tu a escolher, desde que seja rectangular, na horizontal e assim para o grande, que o quero para cabeceira de cama.

A Ana diz que há para lá muitos no atelier, de maneira que não há grande justificação para não o conseguires meter no sapatinho (a desculpa de que só calço 38 seria uma gracinha patética).

 

- Gostava também que me oferecesses um curriculum como deve ser para me aceitarem no Social Entrepeneurship Programme do INSEAD. Parece que não chega pagar os olhos da cara (com as órbitas incluídas) por um curso que tem como objectivo tornar o mundo melhor. Parece que temos de provar com dados concretos que somos super dinâmicos.

Se fosses pessoa para agarrar na trapalhada da minha vida e listar uma coisa de jeito, ficava-te eternamente grata. Omite por favor que tenho quatro filhos porque não é líquido para esta malta que esse seja um factor que traga qualquer tipo de melhoria para o mundo (e, para te falar com franqueza, eu própria às vezes também tenho sérias dúvidas).

 

- Por último, agradecia-te que me concedesses rotinas de escrita, para eu não andar para aqui nesta anarquia que não leva a lado nenhum, senão ao intrincado mundo dos blogues (não desfazendo). Se há coisa enfadonha que aprendi num curso de escrita criativa é que é preciso ROTINA para ascender à glória literária, objectivo que prossigo sem sucesso desde as primeiras redacções da escola primária.

 

Agradecida pela tua atenção, sem mais delongas me despeço, acreditando firmemente que desta vez a minha voz será escutada.

 

Beijinhos, Menino Jesus, e parabéns.

(confesso que isto agora foi graxa)

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3 comentários:
De k. a 9 de Dezembro de 2011 às 14:08
pfft!

Eu tenho muito mais sucesso com as minhas cartas ao Grande Espírito Consumista do Natal, o verdadeiro e único que comemoramos no solstício de inverno.

MAS! Eu sou um xuxa generoso, observai a minha reza:

"Óh grande espírito consumista, faz com que a conta bancária do esposo desta menina engorde miraculosamente!"

There, se tudo correr bem, agora POSSUIDO pelo grande espírito, o seu marido irá comprar-lhe essas coisas todas.
Se não comprar, é claramente porque o senhor seu marido NÃO gosta de si (porque o grande espirito EXISTE e nunca falha), e sugiro que lhe coloque um escorpião nas meias! >:D

ahhh se fosse tudo tão simples...


De Francisca Prieto a 9 de Dezembro de 2011 às 14:24
Agora já me fez rir. Só não estou a ver é o meu abençoado marido a ter a paciência de me inventar um curriculum como deve ser. Mas também não se pode ter tudo, não é? Já basta contribuir para as propinas.
Vou ficar cá uma mimada.


De jfd a 13 de Dezembro de 2011 às 18:27
Delicioso Cara Francisca.
K, humor no ponto, como sempre ;)
Xuxa mais divertido que tu só o Socas, aluno!

Boas festas!

(dei por mim a pensar - será a primeira vez que as desejo este ano?!??!)


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