Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011
por Luís Naves

De forma subtil, mas mudou. A Cimeira de Bruxelas representa uma grande vitória da chanceler Angela Merkel, que os comentadores portugueses claramente subestimaram nas últimas semanas, em termos duríssimos e obviamente errados. Ao fazer aprovar um pacote de disciplina orçamental sem mudar substancialmente o Tratado de Lisboa, a Alemanha clarificou a situação interna da UE e uniu os europeus numa solução que dá credibilidade à zona euro. O Tratado já tinha os mecanismos suficientes para resolver a questão, nomeadamente a figura da cooperação reforçada, mas não foi necessário recorrer formalmente a esta regra, pois há 26 países num dos lados e apenas um do outro.

Os resultados são complexos e será necessário digerir tudo com atenção, mas julgo ser possível fazer alguns comentários:

 

Este é apenas o primeiro passo de um processo que durará anos. Mas, sublinho, em Portugal foram poucos os que compreenderam aquilo que estava a acontecer. A Alemanha lidera a UE e decidiu que não ficava ninguém para trás. Um dos momentos decisivos, curiosamente, foi a negociação com a Polónia, que na prática resultou no isolamento do Reino Unido.

David Cameron está, de facto, numa situação difícil, com o seu governo dividido e o partido conservador a hesitar. Londres fica fora da "união de estabilidade orçamental" e fora do euro, pelo menos até ser negociada uma saída airosa. O facto é que a UE já não é apenas um mercado único, mas deu um passo firme numa direcção mais federal.

A "união de estabilidade orçamental" tem obviamente aspectos criticáveis, mas mudou a natureza da organização. Falta ainda a parte da solidariedade, o fundo permanente, eventualmente eurobonds e mudança de estatutos do banco central, mas os países cederam soberania, o euro poderá sobreviver e, acima de tudo, não houve imposição, mas negociação intergovernamental.

A má notícia desta cimeira é a exclusão do Reino Unido, o que terá repercussões em outras ambições da União. Mas não é caso encerrado.

Portugal teve um excelente resultado nesta cimeira, pois conseguiu o que queria, ficar dentro da zona euro, sendo agora bem evidente que se continuar a mostrar determinação em pagar as dívidas terá a compreensão dos aliados. O PS parece andar aos papéis e os pedidos de referendo são, no mínimo, absurdos.   

   

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5 comentários:
De Desconhecido Alfacinha a 9 de Dezembro de 2011 às 18:00
Optimo post mas " a (auto) exclusão do Reino Unido" não é nenhuma novidade para quem segue os assuntos europeus há pelo menos 20 anos.

Mais tarde certamente se emendará isso, tal como costumado.

Bom FDS e respeitosos cumprimentos,


De Pedro Correia a 9 de Dezembro de 2011 às 21:35
Muito bem, Luís. Substancialmente de acordo com a tua análise - nada fácil por ter sido feita mesmo em cima do acontecimento.


De CAA a 9 de Dezembro de 2011 às 21:39
Discordo, com mágoa. O Acordo é curto. O próximo esforço já está a chegar...


De Ricardo Vicente a 10 de Dezembro de 2011 às 11:26
Tirando este post, ainda não tive tempo de ler nada sobre o assunto. Mas parece-me que os resultados desta cimeira respondem ao futuro - garantir que o euro funcione melhor no futuro - mas não respondem ao presente - como resolver a actual crise ANTES das eleições na Alemanha? Não vale de nada ter o futuro garantido se não conseguirmos sobreviver ao presente...


De Ricardo Vicente a 10 de Dezembro de 2011 às 14:28
Não deixar ninguém para trás e negociação intergovernamental: positivo.

Nenhumas alterações ao fundo permanente, nenhuns eurobonds, nenhum default parcial: negativo.

E mais poderes de supervisão bancária para o BCE e bancos centrais? A crise revelou um dos grandes falhanços europeus (como já escrevi): o da supervisão por parte do BCE e bancos centrais.

Estas mudanças são para o futuro. Se não se resolver a crise agora e depressa, não sei se haverá futuro. Como é que reagiram as taxas de juro? Pois...


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