Sábado, 17 de Dezembro de 2011
por Alexandre Guerra

 

Nick Clegg/Foto:The Guardian - David Levene

 

As ondas de choque da última cimeira europeia continuam a fazer-se sentir com muita intensidade em terras de Sua Majestade. Mas, curiosamente, as consequências estão a ser diferentes daquelas que se poderiam supor à partida.

 

Basta relembrar que poucas horas depois de ter sido conhecido o "veto" do primeiro-ministro britânico, David Cameron, ao acordo celebrado por todos os outros dirigentes europeus, Nick Glegg, líder dos Democratas Liberais e número dois do Governo inglês, dava uma entrevista televisiva para manifestar de forma veemente a discordância com a decisão do seu "chefe".

 

Aquilo que poderiam ser declarações explosivas e fatalistas para o Governo de coligação, estão a servir, antes, para clarificar algumas águas políticas no Reino Unido. 

 

Ao vir a público com tanto estrondo, Clegg obrigou Cameron e as várias fileiras do Labour e dos tories a assumirem sem rodeios as suas posições sobre a Europa.

 

Um das primeiras consequências foi colocar o próprio Cameron à defesa, já que nunca um líder britânico tinha desferido um golpe tão duro contra o projecto europeu. E as coisas, efectivamente, não estão a correr bem ao primeiro-ministro, querendo, por um lado, enviar um sinal conciliatório para a Europa e, por outro, não decepcionar os eurocépticos britânicos.

 

Aqueles, no seu tradicional discurso, fazem-se ouvir cada vez mais alto, contaminando a opinião pública, historicamente pouco entusiasmada com a Europa, mas que nas actuais circunstâncias poderá vir a radicalizar o seu sentimento hostil em relação ao projecto europeu.  

 

Clegg está a aproveitar este momento como uma espécie de hora da verdade. Politicamente, está a jogar a sua cartada. 

 

Ainda esta Sexta-feira, em declarações ao The Guardian, Glegg, num discurso apaziguador e conciliatório, veio apelar à calma entre Paris e Londres e defender o regresso do Reino Unido ao "coração da Europa". Clegg posiciona-se, assim, como um mediador do "conflito".

 

Ao mesmo tempo, aproveitou um telefonema do primeiro-ministro francês, Francois Fillon, esta Sexta-feira, para demonstrar a firmeza que neste momento parece estar a faltar a Cameron.

 

Fillon queria clarificar as declarações inflamatórias proferidas pelo seu ministro das Finanças, Francois Baron, que referiam que a situação económica e financeira do Reino Unido era muito pior do que a da França no âmbito da vigilância das agências de rating. Clegg disse a Fillon que as declarações de Baron eram inaceitáveis, no entanto, referiu que deviam ser dados passos para acalmar a retórica.  

 

O número dois do Governo britânico sabe que por estes dias é o melhor "aliado" da Europa no Reino Unido. Mas, de forma inteligente, tenta também ganhar espaço político a Cameron, ciente de que só o conseguirá através de um discurso firme e que seja visto pelos britânicos como a defesa dos seus interesses. Porém, o grande desafio de Clegg será explicar aos britânicos, sobretudo aos mais eurocépticos, que os seus interesses também se jogam na Europa.


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