Gastronomia Natalícia

Este texto vai fazer um ano daqui a uns dias. É relativo ao Natal passado, portanto. Contudo, quando hoje dei de caras com ele, não resisti a republicá-lo porque não acredito que alguma vez se venha a superar o nível de primor deste feito nos Natais da minha família.
Contava eu, então:
A minha mãe é conhecida mundialmente pelos seus desastres culinários. Comprovam-no as mossas irregulares e as manchas de carvão irreparáveis que cobrem a base de todos os tachos e frigideiras da casa onde cresci.
Não é que não saiba cozinhar. Até se safaria relativamente bem, não fosse a sua eterna crença de que é possível fazer várias coisas ao mesmo tempo.
O Natal costuma ser uma quadra particularmente acidentada. É certinho que, entre filhos e netos que invadem a cozinha e a fazem largar o peru para ir a correr explicar onde está a toalha de mesa, há-de haver uma rabanada a arder nos infernos da fritadeira, bagos de arroz a unirem-se para toda a eternidade e uma laranja a ser arrumada ao acaso numa gaveta do congelador.
Há dois ou três anos achámos que tinha atingido o clímax da distracção quando desligou uma chamada e, sem querer, enfiou o telemóvel para dentro do peru. Felizmente alguém ligou para dar as boas festas antes de se acender o forno e lá conseguimos recuperar o aparelho.
No entanto, este ano, embora não tenha acontecido nada que faça tanta vista, a sucessão de desastres faz-me considerar que talvez tenha sido o Natal mais apocalíptico de sempre.
Começou logo no dia 24, quando me ofereci para ir com o meu pai buscar uma encomenda de sonhos à pastelaria do bairro. Plenos de cumplicidade, pedimos um café e dividimos um coscorão (coisas que nos fazem lembrar a minha avó). Depois, enfiámo-nos no carro, com uma grande caixa entalada ao colo do meu pai.
Quando chegámos a casa, num gesto automático para facilitar a saída do passageiro, agarrei na dita caixa que tratou de se desfazer por mim abaixo, deixando-nos a ambos soterrados em sonhos e, ao carro, impregnado de açúcar peganhento.
“Deixe lá, pai, até é poético ficar soterrado em sonhos na véspera de Natal”, disse eu para aliviar o ambiente, imediatamente antes de lhe pedir um aspirador emprestado.
No dia seguinte, já com os sonhos muito arrumadinhos em travessas, estava a minha mãe a transladar o peru assado para um tabuleiro quando se deu o incidente mais significativo. Parece que lhe pegou de um lado, a minha irmã Gui do outro, e ficaram as duas com bocados do animal linchado na mão. Corri à cozinha para acudir mas, mediante os destroços irreparáveis, restou-me oferecer apoio moral. “Não faz mal, mãe, este ano nem vêm os tios todos. Somos praticamente só nós, os da casa. E já sabes que ninguém liga ao peru, nós gostamos mesmo é do recheio”. E, enquanto a consolava, começou-me a chegar às narinas um valente cheiro a queimado.
Pois na azáfama da operação de salvamento da ave, o famoso recheio tinha-se colado de pedra e cal ao fundo do tacho. Ainda provei, para ver se conseguia resgatar a memória do sabor, mas nada feito, estava igualzinho às sopas requentadas que me obrigavam a comer na infância.
Sempre optimistas, depositámos todas as esperanças na chicken pie da minha tia Merry que apareceu entretanto. Não era o recheio da minha mãe, mas que diabo, já não temos idade para nos andarmos a desgostar com parvoíces.
Lá metemos a chicken pie no forno e fomos adiantando o almoço com o peru esfacelado, acompanhado de batatas fritas de pacote que miraculosamente alguém desencantou na despensa.
A meio do almoço ouvimos minha irmã Gui a gritar na cozinha “vocês não vão acrediiiiiitar, acabo de deixar queimar a chicken pie”. Tememos o pior, mas veio-se a constatar que a minha irmã é uma terrível alarmista. A empada não estava toda queimada, só estava preta na parte de cima e colada na de baixo. Com alguma perícia conseguimos retirar as crostas e dar conta do recheio sem problemas de maior.
Por alturas da sobremesa, tocou a campainha e surgiu das brumas o Salvador em pessoa. Era o meu primo Nuno a carregar alegremente a taça do Santo Graal da mousse de chocolate da tia Lacas. Felizmente um doce que não precisa de ir ao forno.