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Forte Apache

As notícias deprimentes

Luís Naves, 26.12.11

É difícil fazer um balanço de 2011, de tal forma o ano foi complexo. Os últimos tempos, medidos em semanas ou escassos meses, têm sido de notícias deprimentes. Vivemos numa espécie de era da incerteza. O que julgávamos estável (família, emprego, igreja, estado) parece ter entrado numa crise sem paralelo na nossa memória. Os media encarregam-se de descrever um cenário catastrófico da realidade e parece haver uma competição entre analistas sobre quem consegue pintar a situação mais a negro.
Neste país, onde não há uma cultura da coligação e do compromisso, as mudanças foram quase sempre revolucionárias. Nos últimos cem anos, este é o terceiro governo reformista, o segundo em democracia. Olhando para a resistência e hostilidade às suas iniciativas, para a violência e cinismo de certos comentários, quase dá para acreditar que reformar o país não é apenas difícil, mas quase impossível. Trata-se de uma visão superficial: o facto é que a revolução não é uma possibilidade, ao contrário do que aconteceu no passado, pelo que nos resta a via muito estreita da reforma.

 

Não é cómodo dependermos do capricho de banqueiros e de investidores sem nome, a operar algures no chamado mercado, essa entidade abstracta. O capitalismo está a criar um modelo económico que ignora as pessoas. Já nem é preciso produzir objectos. Hoje, as empresas são activos financeiros e os funcionários passaram a custos. O emprego deixou de ter valor, as relações entre patrões e trabalhadores evoluem na hostilidade crescente. A insatisfação é generalizada. As pessoas deixaram de saber a razão do seu trabalho e esforço. Os trabalhadores são “colaboradores”, portanto, dispensáveis. O mundo financeiro cegou e julgo que este modelo não é viável.
 

A democracia também entrou em crise. Os mercados financeiros mandam nos países e submetem os estados à sua vontade. Por todo o lado, estão a emergir forças populistas, com discursos cada vez mais radicais. Nos EUA e em vários países europeus, começam a aparecer fenómenos políticos com mensagens curtas e simplistas, mas que excluem outras formas de pensar. O aspecto mais grave, a meu ver, é o da intolerância em relação a ideias diferentes. Podia aqui dar exemplos, mas estou a referir-me sobretudo à intolerância religiosa nos EUA (até o ensino da teoria da evolução está em perigo) e aos diferentes populismos de tipo nacionalista na Europa, que nos países do norte já representam entre 10% e 20% do eleitorado. Estes fenómenos estão a crescer depressa, cada vez mais visíveis nos media, onde o discurso politicamente correcto se tornou sufocante. Portugal está atrasado na matéria, mas o populismo/ radicalismo ideológico é já visível na blogosfera nacional, onde abundam os discursos do género “nós é que somos os bons e os outros estão todos errados”.

Havia muito a dizer sobre a crise social, mas acho que ela está ligada aos problemas criados pela exuberância do sistema financeiro. Pessoas a perderem as casas, empresas que fecham sem razão aparente, dívidas que surgem não se sabe de onde, governos sem verba para mandar tocar um cego, a ameaça de não haver recursos para pagar as pensões do futuro. Tudo isto é difícil de explicar às vítimas. As pessoas trabalharam honestamente toda a vida, pagaram os impostos, descontaram para a segurança social, têm expectativas legítimas de segurança no emprego e de velhice protegida. Como explicar que o modelo social faliu, sobretudo porque os bancos emprestaram à louca, porque os governos gastaram à doida, porque os especuladores ganharam à farta? O sentimento de que o justo paga pelo pecador leva aos votos de protesto, à instabilidade política e aos cantos de sereia dos populistas de esquerda e direita.


Por outro lado, as nossas sociedades estão a tornar-se mais desiguais. Há uma justiça para os ricos e outra para os pobres, a educação é diferente, a saúde é diferente. O fosso aumenta. Os ricos vivem mais tempo do que os pobres e os valores contemporâneos são essencialmente materialistas. Triunfa na vida quem acumula mais bens. Neste contexto, é interessante verificar a profunda crise da Igreja Católica (estou a falar de Portugal), que mudou recentemente de discurso, em críticas constantes ao materialismo que domina o nosso tempo, mas sem abdicar dos privilégios e, no fundo, na sua tradicional defesa do statu quo. A igreja chegou agora ao estado social, ela que nunca o defendeu.

 

É interessante ver como em Portugal se descreve a crise do Estado e da Europa. Para muitos, mais valia sairmos já da UE e da zona euro e seguirmos um caminho que ninguém consegue explicar com exactidão. O Estado português domina metade da economia nacional e mais de 40% da riqueza produzida vai para impostos. O desperdício é enorme, pois este nível sueco de fiscalidade dá origem a serviços deficientes.
Depois de ter batido na parede, o país está sob resgate internacional (na realidade, 90% do dinheiro é europeu) e em troca de empréstimos que permitem pagar as contas durante três anos, o país comprometeu-se a aplicar um exigente programa de austeridade e reformas estruturais. O cumprimento deste programa devia ser mais ou menos consensual, mas ouvimos gente responsável a dizer “não pagamos”. Para meu espanto, o anúncio de cada nova reforma que conste do memorando da troika é imediatamente saudado por um coro de protestos nos noticiários. A primeira peça é sobre o que falta fazer, a segunda sobre aquilo que se fez a mais. Sabemos que temos de mudar, assinámos um compromisso em como íamos mudar, mas quando surge uma mudança, alto e pára o baile.
Na análise nacional da crise europeia, existe uma esquizofrenia semelhante. Sem países sobreendividados como Portugal, o euro estaria tranquilo. No entanto, a moeda única ameaça desintegrar-se se não houver uma solução para o problema das dívidas soberanas, que por sua vez causou uma falta de liquidez no sistema financeiro e graves dificuldades para os bancos.
Endireitar a zona euro passa pela federalização das estruturas da moeda única e pela imposição de disciplina orçamental aos países endividados. A última cimeira europeia conseguiu finalmente chegar a um acordo sobre estes dois elementos, iniciando um processo que aliviou a pressão sobre o euro. Mas em Portugal isto foi interpretado como o anúncio do fim do mundo. Para alguns, era federalismo a mais; para outros, não se tinha feito o suficiente. Claro que os comentários catastrofistas foram desmentidos pelos factos, sendo estes inúteis para calar os insultos aos líderes da Alemanha e da França. Confundindo desejos com tendências, não há analista português que não preveja a derrota iminente de Nicolas Sarkozy ou Angela Merkel em eleições nos seus países, apesar de as sondagens não permitirem fazer estas afirmações (as eleições francesas de Abril-Maio serão renhidas e Sarkozy tem boas hipóteses de vencer; Merkel dificilmente perderá em 2013). Está completamente excluída a possibilidade de alguém afirmar em público que Merkel possa ter alguma razão naquilo que diz ou faz.

 

A Europa sairá da crise, talvez dentro de um ou dois anos, para grande surpresa dos comentadores nacionais, cuja desconfiança em relação à União Europeia sempre achei bastante primária. (Infelizmente, trata-se de um discurso comum em Portugal). O declínio da Europa, sinceramente, também me parece uma conversa com pouca sustentação, mas isto exige um post apenas sobre esse assunto. Talvez seja possível falar do declínio da Civilização Ocidental, que de forma paradoxal triunfa por todo o lado, mas este é um tema mais abstracto.
Há recuos civilizacionais, mas as crises a que temos assistido são temporárias e esta nem é tão grave como outras porque já passámos. Ainda me lembro de 1974 e 1975, uma situação revolucionária que podia ter dado em guerra civil. Muitos portugueses perderam todas as suas poupanças e surgiram 500 mil refugiados de Angola e Moçambique, alguns ressentidos com o que lhes sucedera e recebidos com pouca solidariedade por uma sociedade em transformação acelerada, onde havia choques culturais sérios. Aí sim, a igreja, a família, o estado, a economia e a cultura, estava tudo em convulsão ao mesmo tempo. Os problemas por que passa a Europa não têm comparação com os de 1989.
Enfim, julgo que esta será uma crise incapaz de afectar a coesão nacional, embora exista um perigoso risco de se prolongar por demasiado tempo (quando fizermos as contas, incluindo o que já passou, teremos perdido uma década e meia). Em relação ao passado, desta vez Portugal tem a vantagem da ajuda externa e de não haver tentações corporativas capazes de acabar com a democracia. É o inverso do que aconteceu em outros tempos, quando os militares faziam golpes para endireitar a situação.
Mesmo assim, será difícil e alguns privilegiados conseguirão escapar entre as gotas de chuva, evitando os sacrifícios: a classe média vai empobrecer 20%, haverá pobreza a sério e tragédias humanas, famílias que não vão resistir, desemprego, desistência, desespero, mas está a ser criado um clima pior do que aquele que nos espera. O objectivo é condicionar as reformas. Por exemplo, ainda só fizemos um quinto do caminho da consolidação orçamental e a meta alcançada, neste momento, já devia ser metade (o défice deste ano só é cumprido por receitas extraordinárias). O esforço de cortes no próximo ano é muito superior ao que estava previsto. Ao ser criado um clima de pessimismo generalizado, torna-se mais difícil manter o espírito reformista. Os partidos gostam de ser reeleitos e a pressão sobre os actores políticos é a melhor garantia de que o processo possa ficar só a meio gás.

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