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Forte Apache

O funil informativo

Luís Naves, 13.01.12

Paulo Pinto escreve este texto em Jugular e levanta problemas interessantes. Sobre a descoberta da Austrália, o primeiro tema, não me pronuncio e fico à espera da continuação. Mas o autor cita vários jornais que dão exactamente a mesma informação e ironiza sobre a "criatividade nas redacções".
Paulo Pinto teve a paciência para encontrar um exemplo clássico de uma tendência cada vez mais visível na comunicação. Chamo a este fenómeno o "afunilamento", mas deve haver expressões mais apropriadas. Alguns confundem com "arrastão mediático", que a meu ver é diferente. O primeiro  está relacionado com a limitação dos critérios de notícia e o segundo mais com a repetição de ideias feitas. Ambos reflectem um empobrecimento do debate, ambos estão ligados à fragmentação dos públicos.

 

Muitas pessoas que não conhecem as redacções espantam-se com certos textos que encontram nos jornais. Desconhecem que os profissionais do sector são cada vez mais precários e fragilizados perante os poderes. Que têm pouco tempo para executar as tarefas e ainda menos tempo para reflectir sobre elas. A crise da imprensa merecia uma análise profunda, mas resulta de uma pescadinha-de-rabo-na-boca: fragmentação de públicos reduz os leitores e, portanto, as receitas, o que leva as organizações a cortar nos custos, portanto nos salários, nos colunistas e nas reportagens. A redução da qualidade diminui ainda mais o número de leitores e, portanto, as receitas. Os jornais tentam aumentar estas receitas criando novas plataformas, mas não podem contratar, usando a mão-de-obra existente, que passa a trabalhar em diferentes formas de jornalismo. Pensem numa corrida aos armamentos, mas ao contrário: é preciso gastar cada vez menos dinheiro, mas reduzindo a receita menos do que os rivais. De cinco ou seis títulos, fica um ou mesmo nenhum. O perigo para a democracia é evidente.

 

As redes sociais, como a blogosfera, introduziram um problema adicional nesta equação. Os autores são muitas vezes especialistas em áreas específicas e não perdoam trabalhos jornalísticos superficiais, sem perceberem que a superficialidade será cada vez mais aquilo que encontram nas páginas de jornais.
O exemplo identificado por Paulo Pinto, de frases quase idênticas em vários jornais, mostra que existe crescente facilidade na manipulação da informação (embora esse não seja o caso do exemplo). Nas redacções surge uma informação, supostamente de boa fonte; a história tem os elementos sensacionais que as chefias associam ao interesse público; o trabalho tem de aparecer rapidamente nas diversas plataformas; não há, pois, tempo para verificar as fontes, cruzar a informação, ouvir os especialistas. A técnica do passado, que era mais prudente, está em vias de extinção.
Dou um exemplo de um texto escrito por mim no DN, sobre um vídeo de soldados americanos a urinar sobre combatentes talibãs. Toda a gente usava a expressão "combatentes talibãs", saiu assim em todos os jornais, em todas as fontes, mostrando que havia uma fonte original (que desconheço qual seja) onde o caso era assim apresentado. Nas imagens surgem de facto soldados americanos a urinar sobre três cadáveres de homens vestidos de forma tradicional. Mas não há armas ao pé dos três mortos, o contexto é desconhecido, a data do combate, as circunstâncias do acontecimento. Até existe um carrinho de mão, como se fossem trabalhadores. E se não fossem talibãs?

Provavelmente, alguém vai investigar, até porque há um inquérito. Mas a imprensa (internacional) está cada vez mais dependente dos inquéritos oficiais, das fontes oficiais. Com o afunilamento da origem, na maioria das vezes com o seu rasto perdido, as notícias são cada vez mais parecidas umas com as outras, mesmo em países diferentes. O fait divers triunfa e sabemos como tanto faz que seja um pouco exagerado ou rigoroso. Triunfa o princípio de não deixar um facto estragar a boa história.

No passado, dois jornalistas iam a um evento e sacavam relatos diferentes. Havia intensa rivalidade para conseguir a informação mais substancial. Agora, as redacções são locais onde não apenas escasseia a criatividade, mas sobretudo o trabalho passou a ser de escritório. Os jornalistas são cada vez mais teclistas que colam pedaços da realidade, criando uma visão do mundo que basicamente lhes é fornecida em fragmentos cujo código genético de origem nem sempre é devidamente conhecido.
Qualquer erro de cópia (cansaço, ignorância, má-fé, pressa) é propagado em rede. Quanto mais perto o erro estiver da origem, maior será o equívoco.
Isto é diferente do fenómeno (tão português) do arrastão mediático. Aqui existe um preconceito de base e jornalistas ou comentadores que tentam confirmar esse preconceito. Os exemplos são quotidianos e torna-se difícil contrariar a corrente. O mundo é baseado em bons e maus, em direita e esquerda. A realidade torna-se simples e as caricaturas são amplificadas pelo chamado "jornalismo de causas", que devia ser chamado apenas mau jornalismo.

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