Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012
por Ricardo Vicente

A decadência de longo-prazo de todas as correntes políticas de esquerda (comunismo, socialismo, até a social-democracia) também se explica por isto: uma incapacidade de reconhecer que a direita também pode ser inteligente. Mas a esquerda não aceita isso, não concede que a direita seja, ao menos vá lá, inferiormente inteligente: a suposta maior tolerância e magnanimidade da esquerda não chegam para tanto. Pior: a esquerda muitas vezes não aceita sequer a existência de uma direita democrática. Ainda pior no caso português: a esquerda considera que, no âmbito do regime nascido a 25 de Abril de 1974, a direita é uma anomalia dificilmente tolerável (na menos má das hipóteses).

 

A intolerância e a recusa em absorver o melhor que "o outro" oferece resultam sempre no mesmo: decadência. Todas as histórias de intolerância chegam ao mesmo fim.


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11 comentários:
De k. a 13 de Janeiro de 2012 às 17:29
oh deus oh deus, é o fim da historia!

lol


De Paulo Sousa a 13 de Janeiro de 2012 às 20:35
Escreveu o que senti, quando ainda hoje estava a ouvir o Contraditório. Não conhecia o espírito crítico daquelas almas superiores, que durante anos e anos faziam vénias com flic-flac a todas os anúncios do governo, e agora por cada passo que nos aproxime da sustentabilidade arrancam as vestes.
Julgo que seria suposto que a direita estivesse representada no programa pelo Luis 'coiso' Delgado 'e tal', mas até nisso foram infelizes.


De Ricardo Vicente a 14 de Janeiro de 2012 às 10:30
Obrigado pelo seu comentário. É bom saber que não estamos sozinhos.


De weber a 14 de Janeiro de 2012 às 12:41
Que me recorde, e desde que tenho comprometimento com a polis, me situei no perímetro das esquerdas (marxistas, católicas progressistas, socialismo democrático...).
Contudo, sou velho suficiente, já vivi mais de seis décadas, para me permitir uma certa distância desta aparente dicotomia.
1/ Creio que o tópico esquerda/direita deveria ter sido remetido já para o lixo da história (ouvir ontem, no Parlamento, um jovem cristão-democrata afirmar, sem sorrir, que um dos membros fundadores do BE, aderente da 4ª Internacional, trotskista, era responsável por inenarráveis ditaduras e regimes totalitários!...é de uma ignorância à prova de bala...);ouvir um líder maoista tratar o CDS como extrema-direita!...;
2/Ainda pode ter interesse funcional para definir a ocupação dos topos nas Assembleias ou Parlamentos e nada mais que isso;
3/A dicotomia só serve para tapar o Sol com a peneira;
4/ Esta politica é má, dizem uns, por que é de esquerda; outros, dirão, esta politica é má, porque é de direita;
5/ Errado. As politicas são más...porque sim, porque a realidade demonstra que assim é.

Cada vez mais estou disponível, socialista-democrata, para afirmar que a ministra Cristas está a fazer um óptimo trabalho, que ao ministro Mota Soares se pode mesmo referir como excelente, que o ministro Portas denota uma sagacidade e uma argúcia na defesa de Portugal e dos nossos interesses.
Sem dificuldade sustento que que o líder do PS, o líder parlamentar do PS somam disparate ao disparate. Andam sem norte, sem sul, menos ainda sem oeste!
A gaijada do PC e do Bloco, esses, erráticos, associaram-se aos sociais-cristãos e aos sociais-democratas para correrem com o Sócrates. Agora, esganiçados "insultam" o governo, as bancadas que os apoiam, as politicas que teimam em concretizar, diabolizam tudo e todos.
Hoje, torna-se dificil vislumbrar ideologia que separe as águas.
Sempre, tolerante, sustentei que o que define a qualidade de um ser humano é a sua praxis, a sua robustez nos comportamentos.
O que distingue uma má politica de uma boa...não é ser de esquerda ou de direita, mas, outrossim ser boa ou má.
O seu post só peca por curto e por generalista.
As politicas do Álvaro, ministro da economia, são boas ou más? Estou-me nas tintas se o homem é de direita ou de esquerda. As politicas da UE são boas ou más? É isto que me importa. Pouco me interessa se Sarkozy é de direita ou se a senhora Merkel vem da RDA e é quimica de formção.
Hoje os rótulos enganam.
Hà gente de direita bem mais à esquerda do que uma certa gaijada de esquerda. Mais do que óbvio.
Hoja há monarquias bem mais republicanas que certas repúblicas.
Abaixo os rótulos|
Viva os conteúdos!.
Cumprimentos


De Ricardo Vicente a 14 de Janeiro de 2012 às 13:23
Que tal reservarmos o caixote-de-lixo-da-história para coisas como nazismo e comunismo?

Sou um ferrenho defensor da dicotomia esquerda-direita. Enquanto os problemas fundamentais da política continuarem a ser os mesmos, essa dicotomia faz sentido e é necessária por todos os motivos. Devemos dar primazia a...

indivíduo ou sociedade?
liberdade ou igualdade?
mercado livre ou o Estado na economia?

Estas foram, são e vão continuar a ser as dicotomias fundamentais e os rótulos esquerda e direita funcionam razoavelmente bem para distinguir quem pensa o quê e em que quadrante esta ou aquela política encaixa.

Não consigo compreender que alguém defenda que não existe qualquer conflitualidade (não existe "trade-off") entre indivíduo e colectivo; liberdade e igualdade; laissez faire e economia do Estado.

Bom fim-de-semana!


De l.rodrigues a 14 de Janeiro de 2012 às 18:44
Eu, por meu lado, prefiro questionar as suas dicotomias:

indivíduo E sociedade
Liberdade e Igualdade (não é fácil conceber uma sem a outra e vice versa, se não ficarmos por definições extremas e estritas).
E o mercado não é livre sem o estado na economia.
(não foi no auge da liberdade dos mercados que surgiram as leis anti-trust? Não foi preciso os estados banirem organizações emanadas da vida das sociedades para libertarem os mercados?).


De Ricardo Vicente a 14 de Janeiro de 2012 às 22:42
Como escrevi no último parágrafo do comentário, não consigo compreender como é que alguém consegue não reconhecer a conflitualidade entre primazia ao indivíduo versus primazia à sociedade, igualdade vs. liberdade e mercado vs. Estado. É claro que há exemplos de articulação produtiva entre pólos para cada uma daquelas três dicotomias. Mas são as excepções que provam as regras.

Quase tudo de tudo pode ser analisado à luz daquelas dicotomias. Das leis do tabaco à procriação medicamente assistida até... até tudo.


De l.rodrigues a 15 de Janeiro de 2012 às 11:14
"há exemplos de articulação produtiva entre pólos para cada uma daquelas três dicotomias"

Pois, a minha resposta significava que só da articulação produtiva dos pólos que refere se pode construir uma sociedade justa e próspera.

Considero no entanto que colocar estado e mercado no mesmo eixo é um erro de base. Ao estado opôe-se a ausência deste, o que é conhecido por anarquia. O "mercado" é sempre uma construção do "estado", a não ser que o restrinjamos a trocas informais e espúrias entre indivíduos. Ao nivel das sociedades não há mercados sem leis e regras.

Enquanto um estado é uma organização complexa, nascida de uma história, cultura, geografia etc, o "mercado" que lhe tenta opor é pouco mais do que uma forma idealizada e extrapolada de troca comercial.

Ou seja, pretende-se que os fenómenos que regem uma troca simples entre dois indivíduos, sejam os mesmos que regem toda a complexidade da vida de uma sociedade. Isto é para mim o "pecado original" liberal.



De Ricardo Vicente a 15 de Janeiro de 2012 às 14:12
Aquelas dicotomias são uma simplificação necessária. Onde escrevi "Estado" poderia ter escrito "intervenção do Estado na economia enquanto proprietário, gestor, produtor, regulador, redistribuidor de rendimentos, implementador de mudança de mentalidades, planeador e etc.". Este "Estado" opõe-se a "mercado livre", que pode significar um país onde "o Estado só garante defesa", o que não significa que se viva em anarquia.

Pois, aí está outro daqueles assuntos em que dificilmente é possível consensos. O mercado precisa do Estado e as trocas informais são espúrias? Há quem acredite que é dessas trocas informais que se vão desenvolvendo tradições e normas. É das trocas informais que se vai construindo sociedade (de baixo para cima, das "grassroots") e regras; e nos países em que sucede o inverso, isto é, de cima para baixo, da vanguarda iluminada para as massas ignorantes, do centralismo ditador contra a vontade individual - é aí que as pessoas se sentem mais alienadas em relação ao poder e ao direito e é, "naturalmente", aí que a economia funciona menos bem.


De André Miguel a 15 de Janeiro de 2012 às 11:05
Tenho por hábito dizer que a sua "santidade" a Esquerda tudo se lhe perdoa e é precisamente por aqui que vai a sua decadência, com a sua filosofia de apoio aos mais desfavorecidos (uma falácia!) arrasta-nos a todos para a servidão. É a primazia do todo sobre o individuo. O problema é quando o individuo deixa de ver os seus esforços recompensados, como acontece na história recente de Portugal. Por isso ainda há esperança.


De Ricardo Vicente a 15 de Janeiro de 2012 às 14:16
Concordo, concordo: ser de esquerda é razão suficiente para que muito seja perdoado a muita gente; e o apoio nunca é aos mais desfavorecidos: a redistribuição faz-se sempre do todo para os mais bem organizados, acabando estes quase sempre por se tornar não nos mais desfavorecidos mas nos mais privilegiados.

Na história recente e antiga de Portugal as pessoas que se sentem menos recompensadas emigram. É um pouco triste mas também é verdade que quem emigra experimenta coisas únicas que dificilmente experimentaria no seu país mesmo que este fosse meritocrático.

É preciso ter sempre esperança!


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