Domingo, 15 de Janeiro de 2012
por Fernando Moreira de Sá

 

Ontem, pouco passava das oito da manhã e estava nas instalações da RTP Porto à conversa com o Presidente de Braga 2012 e um colaborador da RTP a discutir a velha questão do Norte e os media nacionais. Obviamente, a questão da privatização da RTP e, sobretudo, o futuro da RTP Porto eram tema de acalorado debate matinal entre cigarros consumidos no exterior do edifício.

 

Hoje, numa das páginas de facebook mais seguidas e activas do Norte (ESTA) um seguidor da mesma escreveu: O Jornal de Notícias foi o único jornal de expressão nacional a levar para a sua capa a abertura da Capital Europeia da Juventude em Braga. Os outros jornais optaram pelas habituais notícias de desgraça, intriga e futebol nas suas já tradicionais capas. Será que um evento que pretende ser um dinamizador de economia local, regional e até nacional não merece maior valorização, apoio e mediatismo por parte de quem pode e deve fazê-lo? (Miguel Oliveira).

 

Em 2012, Braga é Capital Europeia da Juventude e Guimarães Capital Europeia da Cultura. Dois grandes momentos, ambos no Minho e Norte de Portugal. No primeiro caso, é a primeira vez que uma cidade portuguesa é escolhida. No segundo caso, é a terceira vez. No primeiro caso, Braga é única Capital Europeia da Juventude em 2012 e Guimarães divide com Maribor. O que interessa saber, ao contrário do justo desabafo do Miguel Oliveira, é se o Norte e o Minho aproveitam os respectivos eventos para perceber a importância de uma comunicação regional forte. Não é por acaso que o JN deu o devido e merecido destaque de capa ao evento. Não é por acaso que o Porto Canal deu o devido destaque e hoje, pelas 19h, repete a transmissão do espectáculo da cerimónia de abertura. Não é por acaso que o JN reforçou a sua equipa no Minho. E não é por acaso que o Porto Canal fez o mesmo, abrindo uma delegação em Braga em 2012. Como não é por acaso que em Braga existem dois jornais diários muito fortes, o Correio do Minho e o Diário do Minho, assim como rádios locais igualmente fortes (RUM e Antena Minho).

 

O caminho é esse. Como para os canais ditos nacionais, Vila Franca de Xira já é Norte longínquo e só serve para pequenos apontamentos estilo "favor que se faz aos provincianos" e se se olhar, por exemplo, para o Expresso tal realidade se torne ainda mais nítida, o caminho é fazermos nós pela vida. Não quero ser injusto: a TVI esteve ontem em Braga (uma excelente reportagem), a SIC também e fez uma bela reportagem e a RTP até transmitiu um dos seus programas da tarde em directo de Braga (e todas estiveram na cerimónia de abertura). Assim como as principais rádios e jornais nacionais. Eu sei, se sei, que estiveram. Eu sei o esforço que os seus jornalistas do Norte fazem, todos os dias, lutando para conseguirem meter as suas peças e sei, ui se sei, o que lhes acontece, as injustiças profissionais de que são alvo, o desinvestimento que diariamente sentem na pele por parte das suas chefias sentadas nas poltronas em plena capital do império. Em Guimarães também vão estar, até para não parecer mal e, quem sabe, fruto desta prosa, até o vão fazer com mais cuidado. Eu sei. Por o saber muito bem, continuo a lutar para que as gentes do Norte também saibam e possam, de uma vez por todas, abrir os olhos.

 

E abrir os olhos é apostarem nos seus órgãos de comunicação social, no seu Porto Canal, na sua RTP Porto, no seu JN, no seu Correio e Diário do Minho, no seu Grupo Santiago, no seu Notícias de Vila Real, Diário de Aveiro, Diário de Viseu e assim sucessivamente. Só quando o fizerem, só quando neles investirem, serão respeitados pelos outros. É uma forma de criar riqueza, de ter verdadeiro acesso à informação. Reparem, a culpa não é de Lisboa. A Capital faz o seu trabalho. Nós não. Quando temos um diário, como o Público, criado por um grupo empresarial do Norte, que vende mais em Lisboa que no Norte todo, estamos à espera de quê? A culpa é de Lisboa? Não, é nossa - mesmo que o Público se coloque a jeito e sempre tenha menosprezado a sua região.

 

Quando vejo e sinto na pele a dificuldade do Porto Canal em obter apoios, quando no Norte me dizem, "é um canal do Porto", em vez de perceberem que é um canal do Norte que começou, naturalmente, no Porto (como o JN começou no Porto e depois alargou a toda a região) e que se está a expandir por toda a região e é o único, repito, único espaço diário de informação do que se passa em Chaves, em Viana do Castelo, em Braga, em Guimarães, em Bragança, em Vila Real ou, resumindo, no Douro/Trás-os-Montes/Minho/Douro Litoral e no eixo Aveiro-Coimbra-Viseu, ter o nome "Porto" é apenas e tão só o do local onde nasceu e não daquele onde vive. Hoje, o Porto Canal, tal como o JN, já ultrapassou as fronteiras da Circunvalação e nós, homens e mulheres do Norte, se queremos ter acesso à informação do que se passa na nossa terra, temos de apoiar estes OCS que são nossos em vez de andar sempre a lamentar que a RTP/SIC/TVI/Expresso/CM/Público não nos ligam nenhuma e depois, ver o Correio da Manhã disponível de borla nos cafés de partes significativas do Norte ou ver nos mesmos cafés e restaurantes as televisões sintonizadas nesses mesmos meios de comunicação que tanto gostamos de criticar por não nos ligarem nenhum. Olhem para os nossos vizinhos galegos, que são menos que nós em quantidade mas alimentam a sua TVG, as suas rádios e os seus diários como A Voz da Galiza ou o Faro de Vigo. É esse o exemplo a seguir. A lamúria não nos leva a lado nenhum.

 

Por exemplo, a nossa batalha no que toca à RTP Porto não passa pela sua manutenção como pública ou pela sua privatização. Não. O caminho é outro. É conseguir que os seus profissionais, os seus meios técnicos, as suas instalações, que também são nossas, fiquem connosco e ao serviço da nossa região. Se no público ou no privado? Tanto se me dá. Olhem, por mim, o Porto Canal e a FCP Media podiam candidatar-se a ficar com a RTP Porto. A solo ou em parceria com o Estado? Repito, tanto se me dá. Assim como não percebo o porquê de o Estado não permitir que o Porto Canal esteja na TDT.

 

Por isso, caro Miguel Oliveira, o importante não é os outros ignorarem. O importante é nós não ignorarmos os nossos, é sublinhar que o JN fez o seu trabalho e por isso merece o nosso apoio. É apostarmos no que é nosso em vez de nos andarmos a "picar" porque o nosso canal se chama Porto e não Braga ou Vila Real. O Porto é e será sempre o coração da região mas nunca deverá ser a sua "capital". Nenhum coração sobrevive sozinho, precisa do cérebro, dos pulmões e de todos os restantes órgãos que fazem este corpo, a nossa Região Norte. Nenhuma Região, nestes tempos, sobrevive sem uma comunicação social regional forte (olhem para a vizinha Espanha e para a sua comunicação regional) e esta só será forte se nós a fizermos forte, apoiando-a, investindo nela, gerando massa crítica para a alimentar. 

 

É isso que Braga está a fazer e é por isso que se está a tornar um exemplo a seguir em toda a região. É a verdadeira alma da Pronúncia do Norte que não é contra ninguém mas, isso sim, a favor de algo muito simples: o que é nosso.



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5 comentários:
De Anónimo a 15 de Janeiro de 2012 às 18:05
Afinal em que é que ficamos?

Quando os meios de comunicação de expressão nacional não dão relevo aos acontecimentos do Norte, são do "império" e não prestam. Quando dão, e até de forma reconhecida, vamos lá lutar pela nossa quinta que eles não prestam! Depois as comparações com a Galiza são engraçadas. A Galiza não é uma comunidade Autonoma do reino de Espanha? Há alguma comparação entre a republica de Portugal e o reino de Espanha para se pensar em regiões autónomas?
E quem disse que a região Norte quer ser "gerida" pelo exacerbado bairrismo Portuense? É mesmo muita presunção. O único problema dos seguidores desse bairrismo é não eles a exercerem no Porto o que tanto criticam em Lisboa. Se assim fosse já estava tudo bem. Afinal eles não são o número um, são os dois. Por isso é que grandes Portuenses, logo que temn oportunidade, vão para Lisboa exercer o que tanto critocaram antes. Obviamente que depois já não faz mal, ... afinal são eles a fazerem.
Meus senhores, deixem-se de separatismos, porque logo que podem ... vocês passam-se para o outro lado!
O que vos interessa ... tão só ... é serem vocês a estarem no topo, nada mais!


De Fernando Moreira de Sá a 15 de Janeiro de 2012 às 20:39
Existiam duas hipóteses possíveis perante um comentário anónimo: simplesmente deitar ao lixo devido à falta de coragem em dar a cara ou, a escolhida, publicar na mesma para colocar o anónimo perante o ridículo da situação.

Será pedir muito, a quem comenta anonimamente, fazer o favor de ler o que lá está e não aquilo que desejava que estivesse? Será pedir muito desejar que quem comenta anonimamente (e não só) o fizesse conhecendo a realidade daquilo que é escrito?

Separatismo? Exacerbado bairrismo do Porto? Será que conhece Braga? Ou Guimarães? Ou os que estão para lá do Marão?

Quando a estupidez pagar imposto, temos o problema da dívida resolvido...


De Luis Assumpção d'Almada a 16 de Janeiro de 2012 às 00:33
Deve ter doído o post do Fernando Sá; logo apareceu uma dama ofendida. Colonialista e centralista, comentando à sua maneira, saloia e de visão pequena (da sua janela abarca todo o país, que é como quem diz, até Vila Franca e até ao Cristo Rei)... Um dia, mais cedo do que se pode imaginar, o sangue vai correr por baixo das pontes. O Norte, o Sul estão fartos de serem chulados por uma capital colonialista e centralista, que vai tratando as regiões como outrora os esclavagistas o faziam às províncias ultramarinas. Por Portugal!


De Dylan a 16 de Janeiro de 2012 às 23:58
Caro,

E a sua janela, abarca até onde? Até ao Douro?...
O país é pequeno demais para essa sua "intifada" provinciana. Não é com sangue e ressentimento que vai resolver coisa alguma. Mostre-se trabalho e resultados. Não berre só contra o centralismo de Lisboa, insurja-se também contra o despesismo público do Metro do Porto, das derrapagens financeiras da construção da Casa da Música e da ampliação do Aeroporto Francisco Sá Carneiro.


De Dylan a 17 de Janeiro de 2012 às 00:05
Por acaso tenho reparado que a revista Visão tem trazido artigos interessantes acerca de Braga - Capital Europeia da Juventude e Guimarães - Capital Europeia da Cultura.
Sinceramente, creio que a falta de mediatismo foi semelhante às anteriores edições em cidades como Lisboa (1994) e Porto(2001).


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