Domingo, 15 de Janeiro de 2012
por Pedro Correia

 

Não há paz sem liberdade. E não há liberdade sem esperança. Um político de excepção vislumbra motivos de esperança mesmo entres os clarins da guerra. Um desses políticos foi Abraham Lincoln, autor da mais memorável mensagem de esperança, proferida em plena Guerra Civil norte-americana, a 19 de Novembro de 1863.

Foi o chamado Discurso de Gettysburg: demorou apenas cerca de três minutos. Três parágrafos, 255 palavras - não era necessária nenhuma mais. As forças da União haviam ali derrotado quatro meses antes o insurgente exército confederado do Sul que se batia contra a abolição do esclavagismo, cortando amarras com a política humanista do Norte. Mas Lincoln, embora galvanizado por essa vitória militar recente, pôs de lado a retórica triunfalista e deixou no cemitério local um apelo digno de um estadista: "Compete-nos a nós, os sobreviventes, garantir que aqueles que caíram no campo de batalha não morreram em vão e que nesta nação, sob os auspícios de Deus, renasça a liberdade - e que o governo do povo, pelo povo e para o povo não desapareça da face da Terra."

Cem anos mais tarde, este discurso teria sequência num outro, proferido junto ao Memorial Lincoln, em Washington, por Martin Luther King. "Tenho o sonho de que um dia esta nação se erguerá e viverá o significado autêntico do seu credo -- termos por verdade evidente que todos os homens foram criados iguais. Tenho um sonho -- o sonho de que um dia, nas rubras colinas da Geórgia, os filhos dos antigos escravos e os filhos dos antigos donos de escravos se sentarão juntos à mesa da fraternidade", declarou o reverendo justamente distinguido em 1964 com o Prémio Nobel da Paz.

No tempo de Abraham Lincoln ainda não havia Nobel da Paz. Mas ele tê-lo-ia merecido, mais do que todos os presidentes americanos que viriam a ser galardoados no século e meio seguinte -- de Theodore Roosevelt a Barack Obama. Pela força inspiradora do seu exemplo. Pela eloquência dos seus vibrantes apelos em defesa da dignidade humana. Pela tenacidade e pela coragem de que deu provas no cumprimento de um ideal: nenhum ser humano merece ser condenado à escravatura. Um ideal que lhe custou a vida: Lincoln viria a ser assassinado em 1865. Mas o seu apelo de Gettysburg ainda hoje ecoa -- nos Estados Unidos e no mundo.

Publicado também aqui

Imagem: Martin Luther King no Memorial de Lincoln, em Washington (1963)


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1 comentário:
De Alexandre P a 15 de Janeiro de 2012 às 22:23
Lincoln, ao contrário do que muitos pensam, não era assim tão "santinho". Caso não tivesse sido assassinado, ele planeava "exportar" todos os afro-americanos para a Libéria. Não são alguns, mas TODOS. É que o presidente Lincoln achava que os afro-americanos eram como crianças: de certo modo inocentes, mas totalmente incapazes de viver em igualdade com os "adultos" (os chamados WASPS). Lincoln não foi um santo (embora tenha sido um bom estadista), e o Sul também não era o papão. De resto a maioria dos sulistas (75%) nem tinha escravos, e os escravos negros eram melhor tratados que os irlandeses "livres" a quem era dada a opção de morrer de exaustão numa fábrica nortista, ou morrer em combate por um país que nem era o deles. O Norte não tinha escravos porque nunca precisou de os ter: tinha irlandeses, que caso morressem nem davam prejuízo. Pelo mesmo motivo, a Grã-Bretanha foi pioneira na abolição da escravatura africana, que a afectava relativamente pouco (uma vez que tinha irlandeses e carradas de "indentured servants" a fazer trabalho escravo nas colónias, e o melhor é nem falar dos indianos). Dava para uma longa conversa.


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