Depois do fundador do MegaUpload ter sido uploadado para uma prisão e o seu download sob fiança ter sido recusado, eis que
milhares de ficheiros foram apagados pelos administradores de sites de partilha de ficheiros desde o encerramento do MegaUpload. FileSonic e Fileserve, por exemplo, permanecem online mas com serviços mínimos (no Expresso aqui).
Ficam assim demonstrados dois factos muito importantes. O primeiro é a hipocrisia dos empresários dos sites de "partilha", que lucram com a pirataria dos outros e que têm sempre pronta a desculpa de que "nós não sabemos o que é que os nossos utilizadores partilham e não podemos saber pois isso violaria a sua privacidade". Tanto sabem e, mais importante, se sentem responsáveis que tomaram aquela decisão.
O segundo é que é possível a todos os níveis (tecnicamente e não só) que aqueles que facilitam a pirataria a inibam. Tanto assim é que, desta vez, foram os próprios responsáveis por aqueles sítios a tomar a iniciativa de cortar de vez com a partilha, isto é, com a pirataria.
Internet gives partilha a bad nome.
De Joao a 27 de Janeiro de 2012 às 00:46
Assumindo que os ficheiros apagados foram todos verificados como sendo pirataria.
Ou o mais provável, que apagaram todos com base em pesquisas básicas, sendo que tudo que é filme ou som foi ao ar, sendo pirataria ou não.
O que aconteceu foi uma reacção normal a um acto policial.
Se fosse um ISP multado, encerrado e os administradores presos, ia haver uma reacção parecida... Mas nada tem a haver com saber ou sentirem-se responsáveis. O sentimento é mais de medo...
Quem não deve não teme. Qualquer pessoa DE FORA, o João e eu, podemos avaliar que conteúdos são pirataria e quais não são. Os técnicos e profissionais daqueles sites têm meios para fazer essa avaliação em massa.
Por outro lado, o que não é pirataria também não é partilhado em sites daqueles. Se eu escrever um livro que ainda não tem editora interessado em publicá-lo, que interesse tenho eu em "partilhá-lo"? Da mesma forma, ninguém vai uploadar para partilha os gigabytes de fotos tirados nas férias.
Quem filmes não piratas é que julga que foram uploadados para partilha???
"Quem não deve não teme." Duvido que valha a pena alongar-me sobre o disparate que é qualquer raciocínio assente nesta frase. Julguei que o Ricardo tivesse essa noção.
"Por outro lado, o que não é pirataria também não é partilhado em sites daqueles." É verdade que o Megaupload (e sites similares) servem para pirataria, e até lhe dou de barato que mais de metade dos utilizadores recorra a estes serviços para esse fim. No entanto, estes não servem só para isso. Já vi que o Ricardo está cheio de certezas, mas não devia. Sugestão de leitura: (http://arstechnica.com/gadgets/news/2012/01/megaupload-wasnt-just-for-pirates-angry-users-out-of-luck-for-now.ars)
"Se eu escrever um livro que ainda não tem editora interessado [sic] em publicá-lo, que interesse tenho eu em "partilhá-lo"?" Desde quando é que aquilo que interessa ao Ricardo define aquilo que interessa a centenas de milhões de internautas?
Já agora, acabamos também com o Dropbox e com outros serviços de armazenamento e partilha em cloud? E com o correio electrónico, com o MSN Messenger e com o mIRC? É que também permitem a partilha de ficheiros protegidos por direitos de autor.
Se o João já deu de barato que mais de metade dos utilizadores são piratas, o que é que resta a mim dizer? O João vê o problema mas recusa as consequências: parece-me uma posição insustentável. Felizmente, as autoridades neo-zelandesas não pensaram assim.
Não coloco em causa a questão da pirataria, que sei muito bem estar largamente disseminada na Internet (ainda que tenha dúvidas - e não sou só eu - de que seja um problema com a dimensão que querem fazer dele). Simplesmente acho um perfeito disparate tomar-se a parte por o todo - como o Ricardo está a fazer - e achar justo lixarem-se milhares de utilizadores que utilizam um serviço legal para fins legítimos apenas porque acha que - e cito - "o que não é pirataria também não é partilhado em sites daqueles". O Ricardo, naturalmente, é livre de partilhar (ou não) o que quiser, e recorrendo a que ferramentas bem entender; já me parece sensato julgar as opções de largos milhares de pessoas com base numa opinião fracamente sustentada.
De
jonasnuts a 27 de Janeiro de 2012 às 10:19
Ainda bem que vivemos em Portugal, onde existe a presunção de inocência, e onde, para se determinar se existe ou não um crime, se recorre às entidades competentes, as polícias, e os tribunais, e não aos Fornecedores do Serviço de Internet, ou aos serviços de alojamento de informação.
É bom sabermos que vivemos num país onde a liberdade, a justiça, e os direitos de TODOS os cidadão, são ainda valores respeitados.
Seria capaz de jurar que tanto os fornecedores do serviço de internet como os fornecedores de sites de "partilha" estão mais do que defendidos por cláusulas que dizem que podem a qualquer momento descontinuar a prestação do serviço no caso de um qualquer cliente concreto e sem que tenham de dar satisfações.
Não desejo que Portugal seja mais um país em que os fornecedores de armas de fogo podem vendê-las a qualquer um sem cuidar de saber minimamente quem é o cliente porque esses fornecedores, naturalmente, não são polícias nem tribunais nem entidades competentes. Sobretudo quando há meios técnicos para avaliar as ilegalidades praticadas pelos utilizadores, o que é o caso dos sites de "partilha" e outros fornecedores.
Quem presta serviços tem responsabilidades. Não, eu não vivo num país em que todos os prestadores de serviços são irresponsáveis e as "entidades competentes" é que se responsabilizam por todos nós.
Qualquer taberna tem de ter respeito pela sua responsabilidade mas um fornecedor de serviço de internet está acima dessas coisas da responsabilidade e da ética profissional? Mas desde quando e a que título??
De
jonasnuts a 27 de Janeiro de 2012 às 10:58
"cláusulas que dizem que podem a qualquer momento descontinuar a prestação do serviço no caso de um qualquer cliente concreto"
Quem define o que é crime e o que não é crime, são os tribunais, e apenas a essas entidades reconhecço tal competência.
Também não desejo que Portugal seja um país em que armas de fogo possam ser vendidas livremente (apesar da infelicidade da comparação, já que internet não tem o potencial de agressão física duma arma), mas também não quero que Portugal seja um país onde as pessoas que andam armadas sejam tratadas como se fossem criminosas, sem que tenham sido julgadas e declaradas culpadas. Não estou disponível para que, para penalizar uma minoria infractora, se ponham em causa as liberdades de todos os outros.
E, acima de tudo, não estou disponível para apoiar sistemas alternativos de justiça, deixando nas mãos sabe-se lá de quem, a decisão sobre a inocência ou culpabilidade seja de quem for.
Não é para isso que servem os tribunais?
Se eu vir uma mulher a ser violada na rua eu tomo uma iniciativa: não vou ficar à espera que os tribunais e as autoridades competentes decidam o que é crime e o que não é. Eu não defendo uma sociedade de hipócritas nem de parvinhos. Tanto eu como a Jonasnuts sabemos o que é e para que serve o MegaUpload. Se o que ali se passa é crime, contra-ordenação ou ilícito de direito civil é uma distinção que pouco interessa. O que interessa é que ninguém deve pactuar com actividades ilícitas e isto é válido tanto para quem consome como para quem presta um serviço.
Quem deseja ter a liberdade de exercer uma actividade profissional, prestar um serviço, ter uma empresa tem de aceitar responsabilidades e ética. Nenhum negócio está acima dessas coisas. Até os mais assanhados defensores do "neo-liberalismo" aceitam a necessidade de responsabilidade empresarial.
A comparação não é infeliz: é um excelente exemplo de um negócio em que se tem aplicado o argumento de que o prestador de serviço não tem responsabilidade nenhuma quando toda a gente reconhece o potencial de ilicitude na prestação desse mesmo serviço. Serviços que podem originar actividades ilícitas ou anti-sociais comportam responabilidades superiores para quem os presta.
Minoria infractora??? Minoria infractora??? A Jonasnuts tem estatísticas da percentagem de materiais pirateados nos arquivos do MegaUpload versus materiais cuja distribuição é lícita? A Jonasnuts conhece muita gente que coloca no MegaUpload os vídeos domésticos para partilha mundial e que não deixou uma cópia no seu disco fixo e que, agora, acabou por ficar sem cópia nenhuma depois do fecho do MegaUpload???
Isto só pode ser uma brincadeira.
Sistemas alternativos de justiça? Desde quando a polícia da Nova Zelândia ou o FBI são alternativos???
Claro: os tribunais tomaram a iniciativa de manter Kim Schmitz em prisão preventiva. Foram os tribunais. E olhe que o sistema judicial neo-zelandês e o dos E.U.A. não é o regabofe do sistema judical português.
Os tribunais NÃO ORDENARAM o fecho do Fileserve nem do Filesonic, foram fechados de livre e espontânea vontade. Porque será?
De
jonasnuts a 27 de Janeiro de 2012 às 11:38
Hum... primeiro as armas, depois a violação..... estamos a comparar o incomparável.
Vou ser muito franca, eu nunca tinha ouvido falar do MegaUpload até ter visto a notícia do seu encerramento. Fui informar-me, era um serviço de partilha de ficheiros, com uma vertente gratuita, e um modelo de negócio baseado na quantidade de downloads por dia, e na rapidez desses downloads.
A mim preocupa-me o aumento do "toda a gente sabe" para validar uma prática que será controlada por poucos (que não as entidades a quem reconheço competências para o efeito) abrangendo muitos, a maioria.
Criar um red button para a Internet é inviabilizá-la tal como a conhecemos. Acaba-se a liberdade de expressão, acabam-se as primaveras árabes, acabam-se as wikileaks, acaba-se com tudo o que seja ou possa vir a ser, incómodo. Porquê? Porque podem.
Eu não tenho estatísitcas de nada, como disse, nem sequer conhecia a empresa, mas a única forma de se terem estatísticas, era avaliar e analisar todos os ficheiros, e ter um juíz a determinar o que era legal ou ilegal. E só depois poderíamos ter estatísticas.
E se eu não tenho estatísitcas para defender o meu ponto de vista, a verdade é que o Ricardo também não tem estatísticas para defender o seu, o que nos coloca em igualdade de circunstâncias, vá, exceptuando o "toda a gente sabe".
:)
Não se trata de comparar o incomparável: o que faço é utilizar um exemplo que, de extremo, talvez consiga atingir mais fundo o bom senso, quando o bom senso parece querer esconder-se.
O MegaUpload é das coisas mais conhecidas e faladas que existem na internet. É como o Facebook ou o Youtube.
Ignorar o "toda a gente sabe" é o mesmo que querer fazer de toda a gente parva. É o ignorar o "toda a gente sabe" que permite tolerar crimes em Portugal durante vários anos, se não mesmo décadas. Agora não lhe dou exemplos para que não me volte a dizer que estou a comparar o incomparável.
Volto a insistir nos factos: até agora, quem tomou a iniciativa de controlar foram entidades competentes: tribunais de um país livre e democrático, a Nova Zelândia. E tanto o Filesonic como o Fileserv controlaram-se a si mesmos e têm toda a liberdade para fazê-lo - o estranho é não o terem feito há mais tempo... porque será?
Agora é que a Jonasnuts fez uma comparação incomparável: a liberdade de expressão não é a mesma coisa que liberdade para piratear. Já agora, a contribuição dos meios da internet para a Primavera Árabe foram o Twitter, Facebook e blogs. Nunca li ou ouvi falar em lado absolutamente nenhum que o MegaUpload contribuiu para tal. O quê? Eu faço um download ilegal e com isso contribuo para a democracia no Egipto???
Uma maneira de fazer estatísticas é obter uma amostra representativa. É ir a um desses sites de "partilha" e, aleatoriamente, dar uma vista de olhos pelo que eles lá têm. E diga-me depois se a sua amostra aleatória é maioriatariamente composta de materiais lícitos ou de pirataria.
A liberdade de expressão e os direitos de propriedade intelectual não deveriam estar em conflito. São ambos muito importantes. Mas o que está em causa no caso MegaUpload tem pouco a ver com liberdade de expressão. Nem os utilizadores piratas queixam-se de falta de liberdade de expressão nem o Kim Schmitz até agora o fez. Isso seria o cúmulo do desplante: acudam-me, acudam-me que já não me deixam downloadar o Avatar e, sem esse download, não me consigo exprimir!...
De
jonasnuts a 27 de Janeiro de 2012 às 12:26
Acho que a sua tentativa de me incutir bom senso vai sair gorada.
E vamos ter de concordar em discordar. Não no caso da MegaUpload, que se foi como refere, tudo direitinho e de acordo com os tribunais e com um julgamento, nada tenho contra.
O que eu estava a tentar explicar, é que, com a justificação da pirataria, e do terrorismo, e da pedofilia, estão a criar-se ferramentas que, não só não têm qualquer impacto nos temas acima referidos, como põem em causa os direitos e as liberdades de todos os outros.
É só.
Muito também. Se é verdade que em nome do terrorismo e da pedofilia pode haver um diminuição de certas liberdades e é preciso estarmos atentos a esses riscos, também é verdade e é preciso reconhecer que os direitos de autor estão a precisar de protecção. Se alguém acha que esses direitos não merecem qualquer protecção, então o debate é outro (se é que, nesse caso, o debate é possível). Agora, parece-me evidente que é preciso proteger os direitos de autor face aos novos métodos de pirataria, o que não significa extorquir toda a gente para oferecer uma renda à SPA, enquanto que se destrói o pequeno comércio de material informático...
De
jonasnuts a 27 de Janeiro de 2012 às 12:43
Oh! Enganei-me. Afinal parece que concordamos em concordar, vá, moderada e genericamente, sobre estas questões :)
Os direitos de autor, estão a precisar de quem os proteja, honestamente, de forma transparente e justa.
Eu sou sensível às questões do direito de autor há muitos anos, ainda não se ouvia falar de direito de autor em Portugal. A minha mãe é autora :)
Nada me move contra o direito de autor, antes pelo contrário :) Gostava apenas que os autores tivessem representantes à sua altura. Embora.... pela reacção (ou falta dela) à famosa lista....talvez tenham :)
Então concordamos! Bom! :)
Bom, eu posso falar tranquilamente, pois apesar de saber de pessoas que usam esses sites para partilha de ficheiros ilegais, eu uso-o quase semanalmente para partilha de ficheiros meus. Como tal, chateia-me que estes sites acabem, porque me dão muito jeito, pessoalmente e profissionalmente. Não sei de que forma se pode controlar os conteúdos de ficheiros zipados, mas o Ricardo terá com certeza uma teoria da conspiração para justificar isso. A mim, incomoda-me que haja pessoas a filtrar o que eu envio, quando dizem que não o fazem.
No entanto, a pirataria é um problema que não se resolve punindo quem a pratica. Acaba-se com ela, ou minimiza-se, dando condições para que não seja viável a sua prática. Na minha óptica, os preços dos conteúdos e as legislações que hoje em dia existem instigam a pirataria. Veja-se o preço de um filme em DVD ou de um álbum musical. Se algum dia alguém tiver a coragem e a audácia de conseguir mostrar os valores associados a cada uma das fases da vida destes produtos, será fácil perceber que se ganha dinheiro a mais e se chula demais o consumidor final. Não digo que seja o autor que recebe mais, isso é outra conversa, apesar de que nos blockbusters de Hollywood (que são os mais sujeitos à pirataria), as verbas pagas são quase pornográficas também, mas há muitos intermediários que enriquecem à custa destes negócios, e muitas vezes ne acrescentam valor ao produto, são meros intermediários especuladores que a única coisa que fazem é subir os preços.
Isto já para não falar de legislações brilhantes como a PL118, a Lei da Cópia Privada, que se prepara para ser aprovada no Parlamento, e que é uma incitação é pirataria, já que é obsceno o que os autores se preparam para começar a receber, à custa do consumidor que até pode nem usar o suporte para ter esses conteúdos (e eu falo por mim, que tenho discos externos de backups dos meu documentos e fotos sem qualquer outro tipo de material). Aliás, é ridículo eu ter de pagar direitos de autor só porque pretendo mudar o suporte onde está o conteúdo que comprei legalmente e pelo qual já paguei esses direitos.
Estes são os verdadeiros problemas ligados à pirataria. Acabe-se com estes entraves, elimine-se intermediários especuladores e autores gananciosos (os que o são, porque "toda a gente sabe" que os há), os preços baixam e a pirataria torna-se inócua... pois, mas isto deve ser difícil, é mexer com muito interesse que há metido por aí, como "toda a gente sabe".
O que as autoridades da Nova Zelândia e dos E.U.A. estão a tentar fazer é isso mesmo: tornar menos viável a consecução da pirataria.
Quanto aos preços dos conteúdos, se são caros demais não se compram. O preço elevado não é desculpa para o furto. O Ferrari é muito caro? Ah, então rouba-se.
Já agora, se houvesse menos pirataria os preços seriam porventura mais baratos. (Isto depende da importância relativa dos custos fixos na estrutura de custos; não conheço dados sobre este assunto).
Não quer ser chulado? Não compre. Mas isso não dá o direito a ninguém de furtar. O furto e o roubo não são direitos.
A PL118, como já escrevi, é uma incitação à pirataria. Mas é-o porque dá uma justificação ÉTICA para piratear. Devia ser evidente para todos, a começar pelos deputados, que a última coisa que a lei deveria fazer é incitar a comportamentos anti-éticos.
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