Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012
por Mr. Brown

Era suposto sair um post sobre o Livro Negro do Paul Verhoeven e o Sedução, Conspiração do Ang Lee, mas são tantos os artigos que uma pesquisa rápida pelo google disponibiliza onde os dois filmes são comparados que decidi aproveitar a porta que tinha aberto para ir ao começo da carreira de ambos os realizadores. Paul Verhoeven é conhecido sobretudo pelo seu trabalho em Hollywood, mas na minha opinião os seus melhores filmes foram feitos em terras holandesas. Um é o recente e já referenciado Livro Negro, para encontrar o outro é preciso ir até 1977 e dar com O Soldado da Rainha, um retrato baseado em factos reais da resistência holandesa durante a segunda guerra mundial. Já Ang Lee terá entrado no circuito mainstream com a sua adaptação da obra de Jane Austen, Senso e Sensibilidade, mas antes disso realizou uma trilogia, sob a temática «father knows best», que deixava evidente boa parte dos atributos que fazem do realizador taiwanês um dos melhores na sua arte. Dessa trilogia gosto particularmente dos dois últimos, ambos nomeados na categoria de melhor filme estrangeiro nos Óscares: O Banquete de Casamento e Comer Beber Homem Mulher. Para efeito deste post, vou concentrar-me no último.

Mas comecemos por Verhoeven, para isso recuemos até 1973, ano em que o seu Delícias Turcas consegue a nomeação para melhor filme estrangeiro nos Óscares. Estava lançada a base para uma carreira de sucesso, a sua e a de Rutger Hauer. Quatro anos depois diz-se que Verhoeven teve dúvidas na utilização de Hauer para o papel principal em O Soldado da Rainha, por sorte em boa hora lembrou-se de testá-lo o que evitou um erro gritante. O actor holandês estava talhado para aquele papel da mesma forma que o veterano Lung Sihung estava talhado para protagonizar o papel de pai sábio nos primeiros três filmes de Lee. Como é costume dizer-se, não se faz omeletes sem ovos: não há bons filmes sem bons actores. A receita para o filme de Verhoven foi dada pela autobiografia de Erik Hazelhoff Roelfzema, aviador da RAF e espião holandês que serviu a rainha Wilhelmina quando esta se encontrava no exílio na luta contra a ocupação Nazi. Ang Lee, por seu lado, contou com a preciosa ajuda do amigo e argumentista James Schamus: uma dupla de sucesso, basta notar que mais tarde este também viria a escrever o argumento do premiado O Tigre e o Dragão ou do já referido Sedução, Conspiração.

 

 

A cena de abertura de Comer Beber Homem Mulher é deliciosa e abre-nos o apetite, quer do ponto de vista figurado, no sentido em que nos deixa ansiosos por saber que outras surpresas nos reserva o filme, quer do ponto de vista literal, originando uma vontade bem real de colocar o filme em pausa e dirigirmo-nos imediatamente ao restaurante chinês mais próximo a fim de petiscar qualquer coisa. Do ponto de vista do casamento entre cinema e comida, confesso que não conheço melhor. Com uma pitada de boa disposição mais do que suficiente para uma tarde de cinema bem passada - os filmes têm horas a que devem ser vistos? depende, mas neste caso atirava-o definitivamente para o período entre o lanche e o jantar - e uns twists inesperados, o filme roda em torno da ideia de que a comida e o amor entre homem e mulher enquanto desejos humanos básicos estão permanentemente presentes ao longo da nossa vida e é possível estabelecer uma relação entre ambos. Acrescente-se que a história foca a relação entre pai viúvo e três filhas em idade de casar e a busca pela harmonia nas suas vidas, no meio de uma conjugação nem sempre fácil de fazer entre tradição e modernidade (e como eu gosto sempre que Lee pega no tema!). Importa dizer que pelo menos a interpretação de uma das irmãs, por sinal a mais relevante para a história, ficou muito bem entregue a uma lindíssima, e para mim de outra forma desconhecida, Chien-lien Wu. Uma última palavra para a cena presente no cartaz que acompanha este post: é um dos meus finais favoritos (abre bem e fecha melhor, que mais poderíamos pedir?).

O amor entre homem e mulher, como a foto acima documenta, também está presente n'O Soldado da Rainha. A história central é a do herói que o é mais por força das circunstâncias do que por uma vontade expressa de o ser, isto misturado com as habituais traições, paixões e amizades que fazem parte das relações humanas, enfim, o que se pede num filme do género. Mas não é tudo, assistir a'O Soldado da Rainha é a oportunidade de ver um período importante da história do século XX mundial do ponto de vista dos holandeses; é a hipótese de assistir a um Verhoeven fulgurante, imaginativo e inovador, mas mais subtil - e, até por isso, mais interessante - em relação ao que lhe é habitualmente conhecido em obras posteriores - ainda assim, não passa sem uma cena de tortura que chocará as almas mais sensíveis -; e ainda, com esta termino, poderão visionar alguns momentos que ficarão cravados na vossa memória, de onde destaco um: não tem a voz da Lila Downs, nem vos garanto o mesmo efeito que a Salma Hayek e a Ashley Judd provocam quando dançam o tango no filme Frida, mas o Derek de Lint na pele de um soldado nazi a dançar o tango com o personagem do Rutger Hauer é puro momento de magia cinematográfica (nota: junta-se o Jeroen Krabbé, o primeiro na foto acima, e é caso para exclamar: que fantástica geração de actores holandeses esta!).

Quem não viu qualquer um dos filmes, acredite, não perde nada em experimentar e sempre tem o nome dos realizadores como certificado de garantia. Pela minha parte, tenho encontrado as mais variadas pérolas na minha busca pelos primeiros filmes de alguns realizadores não americanos agora mundialmente reconhecidos. Neste post falei do Verhoeven e do Lee, num outro poderia falar de um Peter Weir ou de um Wong Kar Wai. Quem sabe se não fica para o próximo.


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1 comentário:
De Pedro Correia a 30 de Janeiro de 2012 às 14:46
Excelente ensaio, Mr. Brown. De acordo contigo sobre o filme de Ang Lee 'Comer Beber Homem Mulher': tal como tu, também "do ponto de vista do casamento entre cinema e comida confesso que não conheço melhor".


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