Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012
por Mr. Brown

Gerou-se alguma celeuma no twitter por causa das declarações de Passos Coelho em que este garante que vai cumprir o acordado com a troika «custe o que custar». Para começar não é nada de novo em relação ao que foi o discurso de campanha que o levou ao poder: existem promessas não cumpridas, mas neste caso a honestidade foi total e ninguém votou ao engano. E depois vamos lá ver se nos entendemos: o que esperam que o primeiro-ministro diga, que não quer cumprir o que foi acordado? A partir do momento em que assinamos o memorando, assumindo que estávamos de boa fé - não sei se todos os que o assinaram estavam -, temos de demonstrar vontade de o cumprir. E o primeiro-ministro em público deve bater sempre nessa tecla: é nossa firme intenção cumprir o acordado. Mas será possível cumpri-lo, é realista, ainda para mais sabendo que as circunstâncias terão mudado? Talvez não. De igual forma, parece-me totalmente irrealista que Portugal tenha «o objectivo de voltar aos mercados em 2013» e ainda assim Passos Coelho não pode ter outro discurso. É que repito: devemos deixar evidente e absolutamente claro lá para fora que se por algum motivo o que estiver acordado falhar, nunca será por falta de vontade e empenho nosso.

Também por isso, se alguma correcção de rota for necessária, ela deve ser discutida à porta fechada, nas reuniões privadas com a troika, nunca na praça pública. Ou não foi possível chegar a entendimento com a troika sobre a questão da TSU? Foi, provando que nem o Governo, nem a troika, ignoram que alguns ajustamentos podem e devem ser necessários. Mas é bom recordar que quando se trata de renegociar as metas para o défice e os prazos estamos sempre a falar em ir pedir mais dinheiro. E o quê que tem acontecido aos gregos sempre que têm necessitado de mais dinheiro? Novas e mais pesadas condições, isto para não falar na ameaça de uma limitação, ainda maior, da sua soberania. Logo, nós até podemos acabar como os gregos, a precisar de novo empréstimo e de um "perdão" da dívida, mas não devemos passar lá para fora a ideia de que, tal como eles, nunca tivemos grande vontade em cumprir o acordado.

E chamo a atenção para isto, que tem passado algo despercebido: «se, por razões externas que não tenham que ver com o cumprimento do programa, Portugal ou a Irlanda, não estiverem em condições de regressar ao mercado na data que está fixada, o Fundo Monetário Internacional e a União Europeia manterão a ajuda a estes dois países». Por isso, interessa lá que Passos diga que tem como objectivo voltar aos mercados em 2013 ou não. Se é isso que os alemães querem ouvir, é isso que Passos deve dizer. Entretanto, óptimo mesmo seria chegar a 2013 com a garantia de que lá fora dariam como certo que tínhamos cumprido o que acordamos. Até porque, repetindo uma ideia minha, o sucesso deste Governo não se medirá pela existência ou não de um segundo resgate, mas sim pelas condições que nos forem impostas aquando desse mesmo resgate. É bom que se perceba isso.


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18 comentários:
De Mr. Brown a 2 de Fevereiro de 2012 às 02:13
"diz agora que quer ver cumprido o que foi negociado, mas no post diz que talvez seja um risco, que talvez não seja realista"
Lendo todos os meus comentário, como terá lido, a minha posição é óbvia. Fazer todos os possíveis por cumpri-lo e nunca demonstrar falta de vontade para tal. O objectivo é nunca, mas mesmo nunca, deixar de cumprir o acordado por motivos internos. A única coisa que está aqui em questão é se a alteração da conjuntura externa não torna impossível o cumprimento do programa tal como desenhado no início, mas isso fica por descobrir e para lidar com as consequências que daí advenham em momento futuro (e a troika já demonstrou estar igualmente atenta e ter uma posição compreensível para com tal situação).

"Isso é ser estadista, estatura que o Passos Coelho não tem."
É a sua opinião. Não a minha. E mantenho que Monti (que não foi a eleições e ocupou a cadeira depois de pressões alemãs, e não só, para derrubar Berlusconi - o que não deixa de ser curioso, visto que agora parece ser, na sua opinião, o paladino da defesa da soberania) está numa posição que não é comparável à do nosso primeiro-ministro. Só há outros dois paises em situação semelhante à nossa na UE: Grécia e Irlanda. Como é que actuam os primeiro-ministros desses países? Que resultados têm obtido?

"Acho bizarro, como tantos outros,incluindo o Finantial Times, Economist, etc, etc. que empobrecer um país seja uma solução."
No essencial, nós estamos muito mais a "empobrecer" do que a empobrecer. Explico a diferença aqui: http://thecomedians.blogs.sapo.pt/382325.html

E não sei a que posição do Financial Times ou da Economist se refere. Isso é outra mistificação: a de que Portugal pode libertar-se do seu problema sem austeridade. Portugal não se libertará da situação difícil em que se encontra sem passar por um processo de ajustamento duro. Outra questão diferente é como é que a Europa enquanto um todo deve reagir à crise (nem todos na Europa estão sujeitos às mesmas limitações que Portugal, nomeadamente ao nível do endividamento público e externo): mas isso é outra história.
E há uma coisa que eu sei: já cansam as desculpas que nós inventamos sempre para não fazer aquilo que se impõe fazer. Os três principais partidos portugueses assinaram o memorando, não assinaram? Então agora tratem de fazer todos os esforços possiveis para o cumprir.


De Renato a 2 de Fevereiro de 2012 às 10:28
Mr. Brown, a sua posição no post era concordar em público e discordar em segredo. Você portanto, aceita nem sequer saber se as medidas são certas ou erradas. Portanto, não faz ideia, apenas aventa que pode ser um “risco”. Cito-a: “Mas será possível cumpri-lo, é realista, ainda para mais sabendo que as circunstâncias terão mudado? Talvez não.”. Não se refere a circunstâncias futuras, mas sim a circunstâncias presentes que terão mudado, que não esclarece sequer quais sejam.
A questão da austeridade é de simples bom senso. Ninguém nega que se têm de fazer reformas, cortar nas despesas do Estado. Isso não está em causa, é pacífico para toda a gente. A questão é como. Só isso. Anda já gente suficiente a exigir clásulas penais para os países incumpridores e a chamar-lhes nomes. Ora, o mercado não tem esses frioleiras moralistas. A S&P corta para lixo, sem se comover muito com as profissões de fé do Passos Coelho e com o seu dedinho espetado aos outros países como a Grécia. O Mercado (com M grande) entra onde exista dinheiro para consumo. E para mão de obra barata e obediente já têm outros países. Nunca seremos capazes de competir com países com mão de obra qualificada e não qualificada a ganhar muito pouco e sem nenhuns direitos.
Portanto, estando o Passos Coelho, pelos vistos, impedido de falar em público, podemos pelo menos nós aqui, se quiser, discutir o assunto. Os eurobonds, perdão ou não de dívidas, maior financiamento pelo BCE, maior intervenção do banco central na economia, não se limitando à politica de controlo da inflação, etc.


De Mr. Brown a 2 de Fevereiro de 2012 às 11:42
1. Querer cumpri-lo e mostrar sempre vontade de o cumprir: isto não é concordar em público e discordar em segredo. O que eu não acho aceitável é que se venha mostrar em público falta de vontade para o cumprir.
2. As medidas, na minha opinião, são certas. Ou, pelo menos, vão no sentido certo. Foram sufragadas pelos eleitores portugueses nas últimas eleições, pelo que também estes as validaram. O PM diz que concorda com elas. O PS concordou com elas quando assinou o memorando. Que mais quer que lhe diga?
3. Riscos todos os programas deste género têm. Tinha-os desde o primeiro dia em que foi assinado. Reconhecer o óbvio agora é motivo de debate?
4. Circunstâncias externas: arrefecimento da economia europeia, da qual, entre outras coisas, as nossas exportações dependem.
5. Eu apresento a dúvida - talvez - não dou como certo que não é possível. Enquanto existir essa possibilidade é tentar cumprir o acordado custe o que custar. Custa assim tanto a perceber? É difícil entender que o primeiro-ministro só pode ter esse discurso?
6. «A questão é como. Só isso.» A questão é que estamos a viver de dinheiro emprestado por outros estados-membros europeus. A questão é como é que lhes convence que nos têm de dar mais dinheiro para aplicar uma receita diferente da actual. Essa é que é a questão para quem quer que discorde do cumprimento do que ficou acordado com a troika.
7. «Nunca seremos capazes de competir com países com mão de obra qualificada e não qualificada a ganhar muito pouco e sem nenhuns direitos». Nós só temos de olhar para aqueles com quem actualmente competimos (e para aqueles com quem partilhamos a moeda) e notar que há uma discrepância entre aquilo que produzimos e o que ganhamos face ao que se passa nesses outros países. A necessidade de um ajustamento salarial até o Krugman reconhece, bolas!
8. «estando o Passos Coelho, pelos vistos, impedido de falar em público». Mais uma vez voltamos ao óbvio: um PM não pode discutir tudo na praça pública como se não tivesse responsabilidades. Seria engraçado, por exemplo, ter Passos Coelho a abordar constantemente a possibilidade de sairmos do Euro.
9. Daquilo que quer discutir, suspeito - e é isso que a maior parte dos que operam no mercado acreditam - que o "perdão" da dívida ou qualquer coisa do género deverá colocar-se no futuro (agradeçamos a quem nos andou a endividar como se não houvesse amanhã). Mas recordo que qualquer resposta europeia muito diferente da actual à crise acabará sempre por ter implicações ao nível da soberania e do aprofundamento da integração europeia.
10. Não há soluções simples, nem sem custos. E é por ter a opinião que alguma coisa nova terá de ser pensada no futuro que volto a frisar a conclusão do meu post : «o sucesso deste Governo não se medirá pela existência ou não de um segundo resgate, mas sim pelas condições que nos forem impostas aquando desse mesmo resgate». Repito: as condições que nos forem impostas, porque estamos num processo de toma lá, dá cá. E ao primeiro-ministro pede-se inteligência para lidar com a realidade tal como ela é e não como gostaríamos que ela fosse.


De Renato a 2 de Fevereiro de 2012 às 12:21
O essencial resume-se a isto: O PM diz que vai cumprir o acordo “custe o que custar”. Ora, não me parece que os mercados queiram que o PM cumpra o acordo custe o que custar. Muitos já o avisaram, incluindo o Krugman, referindo-se à política europeia, e isso é tangível, não estou a especular. Portanto, ainda não percebi qual a utilidade desse discurso, que na Europa mais ninguém tem. É só isto. Sabia que já há fricções entre o FMI e o BCE sobre isto, porque o FMI defende precisamente que se está a exagerar nas medidas da austeridade e que esse não é o caminho?


De Mr. Brown a 2 de Fevereiro de 2012 às 12:47
«Ora, não me parece que os mercados queiram que o PM cumpra o acordo custe o que custar.»

Não parece? Não é o que tenho lido e ouvido: parece-me mais correcto apresentar a opinião dos mercados como dando o cumprimento do acordado com a troika como necessário, mas não suficiente. E volto a fazer notar: há uma diferença entre contestar a política europeia enquanto um todo e contestar o programa de ajustamento específico a Portugal.

«Portanto, ainda não percebi qual a utilidade desse discurso, que na Europa mais ninguém tem.»

Repito: só há 3 países em situação comparável à nossa. Qual é, por exemplo, o discurso do actual PM irlandês sobre o cumprimento do défice acordado com a troika? Já veio afirmar que não o pretendia/conseguiria cumprir?

«Sabia que já há fricções entre o FMI e o BCE sobre isto, porque o FMI defende precisamente que se está a exagerar nas medidas da austeridade e que esse não é o caminho?»

Fricções há muitas. Mas repito: há uma diferença entre contestar a política europeia enquanto um todo e contestar o programa de ajustamento específico a Portugal. Embora, numa coisa deixo já aqui a minha opinião, dos membros da troika o que gosto mais é do FMI. Não por acaso foi o que mais insistiu na baixa da TSU (salários, portanto) como o tal «game changer».


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