Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2012
por Luís Naves

Em Portugal, existe o hábito de discutir o acessório. Perdem-se horas a debater pequenas frases tiradas do contexto, malha-se nas questões já frias, em infindáveis repetições de argumentos circulares. Um dia pode ser a ortografia ou a emigração, a circunstância do dinheiro não chegar para as despesas, no outro dia já é o carnaval, a frase inócua sobre pieguices ou ainda uma observação alemã exactamente igual à que todos nós já tínhamos feito sobre as autoestradas na Madeira. O método é o seguinte: anula-se o contexto, acrescenta-se uma opinião que altera o que foi dito e adiciona-se muita indignação.

A mais recente excitação colectiva foi em torno de uma frase do primeiro-ministro, "devemos persistir, ser exigentes, não sermos piegas", que depois seguia para estudantes e a ideia da exigência. O que tem isto de tenebroso? Como explicar este post demagógico, ou ainda este exemplo de ódio? 

 

Querelas tontas não passam de espuma. Veja-se, por exemplo, como são aqui comentadas as declarações de Angela Merkel sobre a Madeira (uma variação em lá menor também disponível aqui). A chanceler alemã estava a falar de fundos comunitários e do que considera ser a má utilização destas verbas (se existe exemplo de como não gastar dinheiro europeu, é certamente a Madeira). Sendo a Alemanha o maior contribuinte para os chamados subsídios comunitários, seria natural a chanceler ter opinião sobre o tema e dar ilustrações simples para sustentar essa opinião. Mas nos dois textos citados, a conversa vai imediatamente para nazis e insultos do pior.

Do que vi da declaração, há um ponto que escapou aos comentadores. Merkel fala da mudança da lógica nestes gastos, das infra-estruturas para o investimento em empresas e na melhoria da competitividade (não o disse, mas presumo que estivesse a falar de inovação).

Esta discussão não tem nada a ver com soberania mas com subsídios e devia estar no centro do actual debate sobre a distribuição dos fundos comunitários entre 2014 e 2020, algo de grande importância para o país. Os ingleses já defendiam critérios de inovação na negociação do anterior pacote (perderam) e a Alemanha terá entretanto mudado de opinião. Mas algo parece profundamente errado na nossa percepção da realidade quando nos indigna o facto da líder alemã achar que está a desperdiçar o dinheiro dos seus contribuintes. Nós também devíamos achar, pois estes investimentos inúteis tiveram comparticipação nacional e foi assim que acumulámos parte significativa da nossa dívida.

 

A Europa em mudança vive horas importantes, que muito comentadores virão depressa garantir que foram mais um fracasso da tal Europa que imaginam. Os partidos gregos estão muito perto de aceitar um acordo que vai permitir um segundo empréstimo de 130 mil milhões de euros. O país compromete-se a cumprir um programa ainda mais doloroso de austeridade e reformas, em cima de medidas que levaram a Grécia à beira do colapso. A dívida é reestruturada, mas a queda de 6% no PIB e o desemprego de 18% deviam ser mais do que suficientes para calar aqueles que estão a menosprezar os sacrifícios dos gregos, nomeadamente a comissária holandesa Neelie Kroes, que já foi desautorizada pelo seu chefe, Durão Barroso, e pela chanceler alemã. As afirmações de Kroes foram graves e teriam merecido justa indignação.

 

Outra questão. As dificuldades da Grécia e a dureza do novo pacote de ajuda deviam fazer pensar os que defenderam publicamente a ideia de que Portugal tem de enfrentar os credores num mano-a-mano. Afinal, o problema da dívida é sobretudo deles, dos banqueiros.

A negociação que decorre em Atenas andou demasiado perto da humilhação e desmentiu estes mais afoitos. Os políticos gregos tiveram de se atar aos mastros, como Ulisses, para não se deixarem encantar pelas sereias que defendem a saída do euro (a opção argentina seria uma loucura). Não se livraram dos partidos em pânico, o PASOK estilhaçado, e a democracia suspensa durante meses, vamos ver o que sai das eleições. A classe média ainda tem muito que penar no Hades e os ricos já levaram o seu dinheiro para Londres; os pobres, esses, vão perder a pequena rede social que ainda existia. A Grécia não se livra de tempos duros, mas tornou-se claro que a estratégia alemã que estamos a seguir inclui a manutenção de todos os membros da zona euro.

A situação dos trabalhadores gregos é demasiado injusta e triste, mas será também a nossa se tivermos a veleidade de pensar que o problema é dos credores e que até lhes tremem as pernas se dissermos "não pagamos". Seria um erro trágico acreditarmos na retórica fantasista de uma qualquer "solidariedade europeia" ou "espírito comunitário". A Europa não mudou assim tanto, o jogo ainda é sobre a glória das nações. Eles são nossos aliados, é tudo, ajudam mas também nos torcem o braço, se precisarem.

 

Aqui, o grande Ferreira Fernandes faz um resumo genial daquilo que eu gostaria de ter acrescentado a este texto, mas não escrevi por falta de talento. 

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1 comentário:
De Desconhecido Alfacinha a 9 de Fevereiro de 2012 às 09:25
Excelente Post!

Melhores cumprimentos,


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