Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2012
por Luís Naves

Luís Menezes Leitão, em Delito de Opinião, coloca duas declarações no mesmo saco. Martin Schulz e Angela Merkel seriam exemplo de "arrogância teutónica".

Julgo que a única coincidência entre os dois casos é temporal. Sobre a declaração de Merkel já escrevi em baixo. É puro bom senso e não tem a ver com escolhas de política económica de cada país, mas com a utilização dos fundos comunitários. Nesta matéria, os Estados membros têm uma palavra a dizer, devem reconhecer os erros de utilização das verbas e modificar as políticas. Para mais, a declaração vem da líder da Alemanha, que não apenas pode, mas deve pensar em voz alta sobre como gastar o dinheiro dos seus contribuintes. Devemos presumir que a chanceler vai defender as suas ideias na negociação das próximas perspectivas financeiras, por isso a afirmação tem relevância política.

 

A declaração de Schulz é totalmente diferente. Trata-se de uma mera opinião do presidente do Parlamento Europeu, que não tem funções executivas e, como tal, aquilo que afirma não vincula nenhum país ou bancada parlamentar. Devia receber uma resposta polida, conforme a sua razão ou falta dela e tendo em conta a instituição a que preside.

Martin Schulz é um caso curioso de político alemão de terceira linha que chegou a presidente do Parlamento Europeu através de um entendimento entre os dois maiores partidos, sendo que o acordo prévio implica a rotatividade no cargo, entre um representante dos democratas-cristãos e outro dos socialistas. Este pacto de cavalheiros é uma palhaçada democrática que menoriza a instituição. Hoje, na rádio, ouvi Paulo Rangel a criticar Schulz pelas declarações sobre Angola, o mesmo Paulo Rangel que há três semanas elogiou rasgadamente a eleição de Schulz numa votação cozinhada nos bastidores.

 

Em 1999, Mário Soares tentou quebrar esta tradição aberrante e foi derrotado na eleição para presidente do parlamento. Lembram-se? Venceu uma senhora chamada Nicole Fontaine, que tinha passado sem glória por uns governos franceses e que, à conta de um entendimento entre democratas-cristãos e liberais, venceu um dos políticos mais prestigiados da época.

A actual crise não é alheia a estas cegueiras. A União Europeia está demasiado habituada a ignorar os seus cidadãos. Schulz é apenas o protótipo de um grupo de iluminados cujas palavras, enfim, o vento se encarrega de varrer depressa.

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3 comentários:
De jfd a 9 de Fevereiro de 2012 às 16:30
Interessante.


De sacristia a 9 de Fevereiro de 2012 às 20:42
E mais, fazer comentários sobre a Madeira (sejam eles quais forem) é aceitável, eles merecem, agora sobre Portugal, alto e pára o baile. Chama-se a isto indignação selectiva.


De João André a 9 de Fevereiro de 2012 às 23:58
Eu explico a indignação de forma muito simples: Portugal anda há anos a receber dinheiro da Alemanha. Portugal anda há anos a dar dinheiro à Madeira (e Açores, já agora) para fazerem o que têm feito. A Alemanha há anos que pode, segundo a argumentação de Luís Naves, dizer o que disse Angela Merkel. Curiosamente, Angela Merkel escolhe este momento para falar no caso. Coincidência?

O mesmo se pode dizer do Sr. Schulz.

Queremos então ver Merkel a queixar-se do investimento chinês na Europa que ela lhes foi pedir. Queremos então Merkel a dizer a Sarkozy que devolva o dinheiro das PACs que a França recebeu.

Não está em causa o comentário, está em causa o timing. Não há coincidências em Merkel. Tudo está planeado ao pormenor. Nem no comentário de Schulz. Nem em qualquer comentário de Gaspar ou Coelho. Merkel não deixa estes assuntos por mãos alheias. Não o ver é ser ingénuo.


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