Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2012
por José Adelino Maltez

 

A Europa é uma senhora da minha idade. Com muitos saltos em frente, para disfarçar os achaques e só conseguiu progredir quando sofreu a pressão de um inimigo comum, através de uma grande coligação negativa. Foi assim com o sovietismo. Mas quando lhe disseram que venceu, atingiu o presente estado de quase ficar vencida.

 

Se a Europa continuar a ser uma coisa de eurocratas e não de cidadania do homem comum, ela não será.

 

A Europa, para ser uma instituição, precisa de uma ideia de obra, de manifestações de comunhão entre os seus membros e de regras que se façam em conjunto e se cumpram efectivamente. É o que não havido: a ideia, a comunhão e a regra praticada com boa fé.

 

A Europa, para ser uma nação de nações e uma democracia de muitas democracias, não pode continuar presa aos directórios da hierarquia das potências. Seja dos eurocratas, da Comissão e do Parlamento, seja da locomotiva franco-alemã, seja das multinacionais partidocráticas e supranacionais, tendencialmente apátridas.

 

Não falta apenas institucionalismo à Europa sessentona. Faltam símbolos mobilizadores e política mundial. Não basta o euro, não chega a governação económica, impõe-se a politização do processo, para além do eixo.

 

O grave daquilo que disse Martin Schulz tem a ver com a cedência da esquerda social-democrata alemão ao populismo merkeliano, revelando uma certa mania do velho fardo civilizacional do extinto homem do Euromundo, que as guerras civis europeias de 1914-1918 e 1939-1945 transformaram em guerras mundiais. Nem sequer repara que os totalitarismos do século XX tiveram origem europeia, muitas vezes alemã. O pior da China foi a importação do marxismo-leninismo e o pior da África foi o colonialismo, por causa da partilha de Berlim, bem pior que o afro-estalinismo. Seria melhor termos um pouco mais de humildade, tanto à direita como à esquerda.

 

Dizia-me uma vez um desses velhos africanos: os europeus fabricam os relógios, mas o africanos inventaram o tempo. Acrescento: tal como os chineses demonstram civilizadamente que as ideologias passam, mas as culturas ficam. Por isso é que a memória do universalismo português e da nossa desimperialização, poderiam servir para alguma destribalização franco-germânica. Temos mais pensamento de meio-dia que de meia noite. Isto é, mais luz.

 

Portugal será diferente da Grécia? Como europeu e português, apenas quero declarar que, hoje, e amanhã, quero ser grego.

 

Não é apenas Passos Coelho que é o mais africanista dos chefes do governo portugueses. E ainda bem. Os portugueses para serem verdadeiramente europeus têm de ser os mais africanistas dos europeus e os únicos que foram para a China sem ser através da guerra. Se isto não é valor acrescentado, pobre Europa!

 

Se tivermos uma ideia, comungada, temos mais força.

 

 

Somos a mais antiga e estável nacionalidade da Europa. E nunca invadimos nenhum vizinho desde Toro. Salvo como reacção às invasões alheias.

 

Qual o europeu que pode dizer que a última invasão de um vizinho foi em 1801, quando Godoy era agente de Napoleão?

 

Que diz um francês a um alemão antes da construção do projecto europeu? O filho andou na Guerra de 1939-1945. O pai da Grande Guerra de 1914-1918. E o avô na guerra franco-prussiana. Nós, só guerras civis, impulsionadas do exterior, e guerrazinhas de homenzinhos...

 

É necessário que a Europa adira à visão atlântica de Portugal. A do Atlântico Norte, a do Atlântico crioulo e a que deu à Europa a viagem para o Oriente, a China e o Pacífico. Uma coisa mais universal do que as angústias renanas da pequena Europa.

 

(na imagem, o primeiro mapa de um Estado cartografado, sem ser por acaso, o nosso, 1565, para que os europeus não comecem a queimar bandeiras, uns dos outros; perdoem-me o exagero de patriotismo, mas senti-me ofendido na minha honra; e quem não se sente não é filho de boa gente)

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