Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012
por José Meireles Graça

Dois políticos eleitos têm ou não têm direito a manterem conversas privadas, mesmo que sobre assuntos de interesse público?


Eu acho que têm, salvo havendo indícios da prática de crimes; e entendo que o wikileaks desbragado em que se está progressivamente a transformar o espaço público vai levar a que os políticos e diplomatas tenham que ter formação de agentes secretos para poderem desempenhar o seu papel.


Fosse eu mais coerente e recusar-me-ia a comentar uma conversa cuja gravação foi, a meu ver, ilegítima.

Mas já percebi que dizer isto é cuspir contra o vento: espreitar pela fechadura cabe, parece, no direito a informar; e tempos virão em que estaremos ao corrente da marca e feitio da roupa interior dos nossos representantes, se é que não seremos inteirados da possível influência do hemorroidal nesta ou naquela decisão política.


A conversa vai ser glosada - já está a ser - da forma previsível consoante o alinhamento pró ou anti-governo de cada um.


Por mim, por ora, sinto apenas compreensão solidária e vergonha: compreensão por quem, no nosso interesse, se sujeita a um papel que não pode ser descrito de outra maneira senão como humilhante; e vergonha pelo negócio abjecto que foi praticado em tantas eleições e que nos trouxe até aqui - comprar votos com dívida. 


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