Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012
por Luís Naves

Permitam-me um pequeno comentário ao post anterior de José Meireles Graça.

É legítima a difusão das imagens da conversa informal entre Vítor Gaspar e Wolfgang Schauble. Julgo não haver qualquer dúvida sobre isso. Se queriam garantir segredo, os dois protagonistas podiam conversar num local fechado. Sabiam da existência das câmaras à sua volta. Estas podiam estar ligadas.

A conversa ocorreu numa reunião onde estavam a ser discutidos assuntos que têm a ver com uma crise que diz respeito a todos os países da zona euro. Não estamos  falar de uma conversa de cavalheiros num café de Bruxelas ou do microfone introduzido de forma irresponsável em conversa privada. Estes são os momentos antes do início da discussão, antes da porta se fechar para a comunicação social. Todos os ministros sabem que estão a ser observados, até possivelmente filmados e gravados. Se um deles não cumprimentar outro, isso tem leitura política.

 

Esta conversa pode nem ter sido ocasional, mas talvez servisse para reduzir a pressão dos mercados sobre Portugal ou para tranquilizar o governo português. Um facto é indesmentível: todos os cidadãos têm o direito de saber o que se passa ao certo num conselho europeu ou num conselho de ministros da UE ou no eurogrupo.

Quanto às interpretações, os políticos portugueses, sobretudo da área socialista, continuam a fazer um péssimo serviço ao país, alimentando a lenda da "arrogância alemã" e "da estupidez da estratégia" que está a ser seguida nesta crise. Lentamente, os factos vão desmentindo esta visão e os comentadores têm mais dificuldade em sustentar a ideia inicial, mas continuam a martelar, a ponto de terem convencido a generalidade dos portugueses.

O ministro alemão, que é provavelmente o cérebro da actual estratégia política para o euro, sublinhou na conversa informal a questão do eleitorado alemão e do seu parlamento. Este é o ponto crucial: Berlim está disposta a pagar a factura, mas primeiro tem de convencer a sua opinião pública.

 

E não há qualquer volta a dar, aquela conversa era altamente positiva para Portugal. Temos de esperar pelos gregos antes de se começar a falar em reavaliar o programa de ajustamento português. O nosso caso está separado do grego e os termos do memorando (prazos, taxas de juro) poderão ser suavizados por iniciativa dos nossos parceiros.

Só vejo um lado negativo na difusão desta informação: a disposição alemã de ajudar Portugal pode ser interpretada por alguns como motivo para não continuarmos a mostrar que a resolução da crise depende sobretudo da determinação dos próprios portugueses.

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3 comentários:
De jfd a 10 de Fevereiro de 2012 às 13:13
Completamente de acordo.


De Desconhecido Alfacinha a 10 de Fevereiro de 2012 às 17:35
O ultimo parágrafo diz tudo...Bom fds!


De Pedro Correia a 10 de Fevereiro de 2012 às 22:41
É curioso: alguns 'papas' da deontologia jornalística, que tão escandalizados ficaram noutras situações, ficam desta vez em silêncio ou até aplaudem o registo aparentemente não consentido da troca de palavras entre Vítor Gaspar e o homólogo alemão.
Feito este preâmbulo, estou inteiramente de acordo quanto à validade jornalística da peça transmitida pela TVI. É do interesse público - pelo menos das opiniões públicas alemã e portuguesa, tantas vezes perplexas perante as opacas paredes das instituições europeias - divulgar o que foi dito. Não adianta dizer que se tratava de uma conversa privada: os ministros encontravam-se num local público, rodeados de jornalistas, rodeados de microfones.
Lembro, a propósito, que outros responsáveis políticos foram apanhados num passado recente por indiscretos microfones direccionais. Basta evocar o célebre "porreiro, pá" dito por Sócrates a Durão Barroso no final da cimeira de Lisboa. Ou a expressão "murro no estômago", proferida na residência oficial de São Bento por Passos Coelho. Ou os comentários quase libidinosos do ex-ministro Rui Pereira sobre Carla Bruni. Ou até (aqui não num registo sonoro mas da simples captação de imagens) aquele braço estendido de Luís Amado à espera do aperto de mão de Sócrates que nunca chegou, difundido para todo o mundo via Euronews e que ainda hoje pode ser apreciado no You Tube.
É a vida, como diria outro conhecido político português.


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