Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2012
por Fernando Moreira de Sá

Existe uma direita, por vezes acompanhada de certa esquerda envergonhada, que gosta de encher a boca com os funcionários públicos e apelidá-los a todos de “meliantes”. Um discurso gasto e repetitivo que esconde uma outra realidade.

 

Nunca fui funcionário público, como nunca fui funcionário por conta de outrem. Já perdi a conta aos anos que levo a trabalhar e sempre lidei com uns e outros. No funcionalismo público encontrei dos melhores e no sector privado idem. Não sei se foi por acaso ou mera sorte mas nunca notei que no sector público existissem mais incompetentes que no privado. Da minha experiência direi que é “ela por ela”, ou seja, o número de incompetentes com que me cruzei no público, uma minoria, é idêntica à mesma minoria que encontrei no privado.

 

Nos últimos anos, por força da minha profissão, tenho lidado com diferentes sectores do serviço público. Não preciso de fazer um grande esforço de memória para afirmar que em mais de 70% dos casos encontrei funcionários públicos competentes e dedicados. A exemplo do que vi e vejo no sector privado. Bons profissionais e maus profissionais encontro em todo lado. Por isso mesmo, esta conversa negativa recorrente contra o funcionalismo público já cheira mal.

 

Quem ouve certas almas fica com a ideia que a culpa do estado a que chegou o país é dos funcionários públicos. Ninguém se lembra ou faz um ligeiro esforço de memória para recordar (ou não interessa) que boa parte dos cargos de chefia no Estado, aqueles cargos que realmente decidem em matérias fundamentais para o presente e futuro do país, foram escolhidos e nomeados pelos diferentes actores políticos. Seja na Administração local, seja na administração regional ou central. É na Estradas de Portugal, nas principais empresas de transporte público, nas diferentes Comissões de Coordenação Regional, nas Direcções Regionais disto e daquilo. Tudo nomeações políticas. Desses, ninguém fala nem da responsabilidade dos mesmos em matérias de gestão irresponsável. Um verdadeiro manto de silêncio.

 

Os funcionários públicos, nos últimos anos, sofreram cortes atrás de cortes nos seus vencimentos, nas suas regalias e nem por isso os serviços pararam. Nem a qualidade piorou. Por isso mesmo, estes constantes ataques são uma estupidez. O país precisa, igualmente, dos seus funcionários públicos nesta missão de recuperar Portugal. Estes constantes ataques de certa classe política só servem para desmotivar e, pior, criar um clima de revolta desnecessário e contraproducente. Não perceber isto é trágico. Continuar a bater na mesma tecla é coisa de meninos, de garotada. Não é assim que se faz a mudança. Todos somos poucos para mudar o rumo do país. 

 

Tenho em casa uma funcionária pública. Raro é o dia que não trabalhe mais de 12 horas. Raro é o fim-de-semana que não trabalhe. Sem qualquer ganho financeiro suplementar. Conheço, nos vários locais por onde passei e ainda passo, centenas e centenas de exemplos idênticos. Quando ouvem estes dislates ficam sem palavras. Sobretudo, por saberem que é essa gente que, quando no poder, costuma premiar os incompetentes e ignorar os competentes...


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11 comentários:
De weber a 16 de Fevereiro de 2012 às 01:20
E muito bem.
Quem escreve assim não é gago, sabe do que se trata e é pessoa de bem.
Eu já trabalhei no serviço público, mas 80% da minha actividade profissional desenrolou-se em múltiplos países e no sector privado.
No terreno dos recursos humanos não há dicotomia serviço público/sector privado.
O que há são outros cinco mil réis: politicas boas e más, decisores bons e maus, inovadores e conservadores...
Diabolizar os funcionários públicos por que sim, porque estão mais à mão, são fáceis de chatear, baratos e dão milhões quando se lhes corta no vencimento é o caminho mais curto para o descalabro. Isso sim.
Parabéns pelo texto.
É um primor, sem facilitar.


De Fernando Moreira de Sá a 16 de Fevereiro de 2012 às 17:07
Muito obrigado.


De Luís Naves a 16 de Fevereiro de 2012 às 10:16
Grande post. Totalmente de acordo. Como se justifica aparecer aquele deputado do CDS, sem currículo e sem experiência, a fazer as afirmações irresponsáveis que fez?


De Fernando Moreira de Sá a 16 de Fevereiro de 2012 às 17:07
Obrigado Luís!


De MCosta a 16 de Fevereiro de 2012 às 15:41
Clap Clap Clap Clap... Nunca na minha vida estava á espera de encontrar por estas bandas um post desta natureza. Não concordo com muitas das coisas que escreve e penso que nunca comentei nada do escreve, contudo tenho que lhe dar os parabéns por não embarcar na diabolização dos FP. Como diz e muito bem na FP existem pessoas dedicadas e outras nem por isso, como em todos os lados.

Cumprimentos


De Fernando Moreira de Sá a 16 de Fevereiro de 2012 às 17:06
Obrigado e volte sempre, olhe que este é um blog plural!

Abraço.


De anónimo a 16 de Fevereiro de 2012 às 16:02
Nunca foi funcionario publico? a camara da maia que o diga.....


De Fernando Moreira de Sá a 16 de Fevereiro de 2012 às 17:06
Não, caro Anónimo (com o rabiosque de fora), nunca fui funcionário público. Na Maia? Na Maia a minha empresa prestou serviços à CMM entre 2008 e Dez 2011. Como prestou e presta a outras câmaras e entidades públicas e privadas. Quer que lhe faça um desenho?

Cumprimentos.


De Anonimo a 17 de Fevereiro de 2012 às 02:39
Não precisa fazer um desenho, basta-me consultar o site http :/ www.base.gov.pt / para chegar lá sozinho. É no que dá deixar o rabiosque de fora... Digamos que foi um funcionario do dinheiro publico. Esta melhor assim?


De Pedro a 17 de Fevereiro de 2012 às 12:19
É burro. O base.gov.pt, é o portal dos contratos públicos (prestações de serviços, fornecimentos, empreitadas, etc), não tem nada a ver com este assunto.


De Fernando Moreira de Sá a 17 de Fevereiro de 2012 às 13:22
É ignorância, já percebi que nem com um desenho.


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