Domingo, 26 de Fevereiro de 2012
por José Meireles Graça

Aos fins-de-semana o bruaá da blogosfera serena: a mesma paz, ou assim me parece, que reinou na terça-feira de Carnaval e que levou a que os Centros de Saúde, abertos por decisão governamental, ficassem desertos.


Não sou um desses bloggers preguiçosos - o fim-de-semana é apenas mais aborrecido que os dias úteis e, às horas do costume, vou aos sítios do costume. Hoje, tropecei por acaso nesta entrevista de há dias, e pasmei: Maria Filomena Mónica passa por ser uma intelectual iconoclasta, original no pensamento e nas obras, um tanto informal na linguagem e charmosa na imagem.


Dela li o "Bilhete de Identidade" in illo tempore e retive, por junto, a atmosfera, razoavelmente captada, de um certo meio lisboeta no ambiente sufocante da Velha Senhora, umas indiscrições, que se apresentavam como sendo vulgares na memorialística anglo-saxónica e raras no nosso acanhado meio, e um impressionante desprezo pelo Pai, uma sombra que perpassa no livro como um looser que deixou de cumprir a sua essencial função de propiciador de meios para a heroína da obra, tudo embrulhado num Português, digamos assim, esforçado.


Pois esta Senhora diz coisas espantosas, cada uma delas merecedora de um post autónomo que não vou fazer, todas à luz do "eu" recorrente com que começa muitas frases, e que se resumem no seguinte:


Devia ter nascido num país do Norte da Europa, onde as suas excelsas qualidades se casariam melhor com as culturas locais. Aqui entre nós está manifestamente deslocada, e, entre outras razões, concede-nos o benefício da sua presença por não desistir de nos melhorar e gostar do sol de Lisboa e da água das Pedras.


Exagero? Fazem favor de conferir:


"Mas a maneira de olhar o mundo, ou o pouco saber que eu adquiri, adquiri em Inglaterra."


"Em Portugal não há debate político. Eu não percebo nada do que eles estão a dizer. E eu não sou totalmente analfabeta...! Eles falam em códigos cifrados, para nós que estamos cá fora não percebermos."

 

"A BBC exigia que nós trabalhássemos sobre o nosso país, para bem e para mal, eu acho que para mal. Eu podia ter escrito uma História da Suécia, em vez de estar para ali a ler Portugal dos anos 30 e Salazar. Portanto Portugal não interessava a ninguém."


"A Alemanha é um país com uma capacidade de organização absolutamente espantosa."


"Eu estive em Berlim-Leste em 1980. Nunca fui comunista, mas tinha curiosidade, e fiquei estarrecida. Eu nem consegui ficar lá o dia inteiro. Eu até queria ir à ópera, e a ópera de Berlim-Leste provavelmente era óptima: mas pareceu-me tudo purpurina e uns bairros horrendos, e por isso vim-me logo embora."


"Que eles venham a dominar a Europa, eu não gostava. Se eu não gosto que mandem em mim, as autoridades do meu país, também não gosto que outro país, e é por isso que a Europa ainda não é Europa, determine o destino do meu país."


"A classe média vai viver pior, mas isso não me preocupa."


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