Gap Geracional
Estou a ver num 60 minutes uma entrevista a Adele, a mais recente revelação do mundo musical, vencedora de 450 Grammies e batedora de todos os records nos tops britânicos.
O entrevistador é Anderson Cooper, um rapaz pouco mais velho do que eu e, provavelmente, com o dobro da idade dela.
Chegamos à parte da peça em que Adele abre as portas da mansão desproporcionada que, numa tentativa de fugir à mira dos paparazzis, comprou recentemente num lugar recôndito. Ao percorrer os quilométricos corredores desertos, Cooper resolve armar-se em espirituoso e indaga, com um sorriso, “assumo que tenha visto o Shining”. Adele, sem pestanejar, responde-lhe que o trabalho não lhe deixa tempo para nada.
É quando me apercebo de que Adele não faz a mais pálida ideia do seja o Shining. E que, mesmo que se reforme aos vinte e cinco anos, é altamente improvável que alguma vez chegue a assistir à aterrorizante imagem de Jack Nicholson todo esgadelhado, de machado em punho, a perseguir a sua própria família na tentativa de a esventrar.
Shining estará para Adele como o Casablanca está para os meus filhos. E a mim resta-me consolar Anderson Cooper com um “never mind, she hasn’t found many people like us”.

