Terça-feira, 20 de Março de 2012
por José Meireles Graça

Há mais tempo do que o que gosto de recordar, a empresa em que trabalhava foi assaltada e os ladrões levaram o cofre, deixando umas manchas de sangue no lugar dele. O trambolho era pesado e gosto de pensar que o acidente que terá tido lugar foi a forma como a Providência me sinalizou que se ocupava do castigo, dado que a Polícia descobriria nada, como veio a suceder.

Além de papeladas que para os ladrões não teriam utilidade, o principal prejuízo resultou de uns cheques pré-datados, passados à firma, cujos emissores foram atacados naquela maré de uma amnésia aguda, que, não lhes permitindo lembrarem-se da emissão, os inibia de os substituírem por outros.

O novo cofre levou o mesmo caminho cerca de um ano depois, razão por que passei a transportar os valores numa pochette ou num saco de plástico, quando, como era o caso no fim do mês, os valores tinham importância. Isto não obstante a opinião do Revisor de Contas, que encarou com reservas o expediente - teria porventura acções numa fábrica de cofres, não apurei.

À época, pagava-se ao pessoal em dinheiro - uma coisa extraordinariamente primitiva: o trabalhador pagava as suas contas, guardava o pouco que sobrasse para os seus hábitos e no próximo vencimento o ciclo recomeçava.

Às tantas vieram os cartões de crédito e veio a pressão dos bancos para acabar com os pagamentos em dinheiro: era muito perigoso, era mais cómodo pagar por transferência, era necessário um pré-aviso, os trabalhadores já tinham, pela maior parte, conta bancária, não havia custos nem para a empresa nem para os trabalhadores...

Resisti quanto pude - já então pensava sobre os bancos o que penso sobre abutres e ofídios: são absolutamente necessários a uma ecologia equilibrada, mas não é obrigatório apreciá-los e, se possível, deve guardar-se uma prudente distância.

Bons e inocentes tempos, aqueles: que onde iria parar o desaparecimento da moeda em papel, e para o que viriam a servir os bancos, e o que em nome da sobrevivência de muitos deles teríamos que sofrer, e o papel que o Estado viria a desempenhar em tudo isto - só talvez George Orwell poderia imaginar.

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1 comentário:
De Cobarde a 20 de Março de 2012 às 23:27
trabalhei, há muitos anos, numa empresa que pagava as ajudas de custo à semana.
E então, todas as semanas, à sexta-feira, fazia umas centenas de kms de obra em obra, a fazer pagamentos, em dinheiro.
Cheguei a sair do armazém, de madrugada, sozinho, com 4 mil contos em envelopes, já quase sempre bem separados para entregar a cada chefe de obra.
Outros tempos, não se ouvia falar de assaltos, nem multibancos, não havia telemóveis, nem se sabia sequer o que era internet.
A velocidade mais rápida que havia na altura, era a das carrinhas que não tinham sossego para dar vazão ao trabalho...
Depois.... bem, depois, já sabemos como foi....


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