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Forte Apache

Duas moedas para os países endividados? *

Pedro M Froufe, 25.03.12

Este é o título de um artigo de um jovem “politólogo” estónio –  Viljar Veebel de seu nome. Na realidade, esse título poderia bem ser “Duas moedas, várias Europas” ou até mesmo, no fundo, “Porquê uma só Europa … quer dizer, uma União Europeia?”

Importa dizer, desde já, que esse artigo, publicado originariamente num jornal de Talin e divulgado pelo diário digital Press Europ (29.02.12) é um texto especialmente ilustrativo daquilo que é o resultado de uma sucessão de erros e precipitações político-estratégicos da União, com particular realce para o “grande alargamento” a Leste, concretizado em 1 de Maio de 2004. Esse último alargamento, dotando a União, pela primeira vez na sua História, de uma dimensão quase continental, também desencadeou (desencadearia sempre) uma mudança de quadros mentais, de interesses e de relacionamento político no seio da Europa integrada.

Em rigor, o erro passou por não terem sido consideradas (ou ter-se fingido desconsiderar) certas consequências de tal “grande alargamento”. Foi ficcionar-se, displicente e irrealisticamente, que a União continuaria a seguir o mesmo rumo essencial, determinado pelos mesmos impulsos e cosmovisões genéticos, integrando, porém, realidades políticas e sociológicas (e respetivos interesses) não só diferentes, como antagónicos, comparativamente com aqueles que formaram, na sua origem, um “cimento” agregador e motivacional entre todos os Estados-membros. Foi, talvez e sobretudo, uma questão de tempo (que não se engana!) ou de falta dele, para se solidificarem os respetivos processos de adesão, dos novos Estados-membros. A questão é que com tais mudanças, decorrentes da heterogeneidade que um grande alargamento para fora da esfera de influência política e cultural da Europa dos Aliados ocidentais da 2ª Grande Guerra, corria-se (como se está, presentemente e de forma intensa, a correr) o risco de se adulterar a própria natureza, fisionomia e razão de ser do processo de integração. A tese defendida pelo referido “politólogo” resume-se ao seguinte: a solução para o Euro e, sobretudo, para os países endividados, como Portugal e a Grécia – melhor dito, para o problema que esses países ditos “periféricos” representam para o resto da Europa, a começar, pressente-se, pela nuclear e incontornável Estónia – seria não a saída da zona Euro, mas sim a adoção simultaneamente com a moeda única, de uma moeda nacional, para consumo interno. Inspira-se esta ideia no modelo que foi seguido nos países da ex-União Soviética, na época das respetivas independências. E fundamenta-se esta tese, na ótica do seu autor, no seguinte: com a solução proposta garantir-se-ia a estabilidade interna, “uma vez que os salários dos professores, dos bombeiros ou dos médicos seriam pagos na moeda nacional, que é possível emitir em caso de necessidade. A taxa de câmbio entre o euro e a moeda nacional seria flutuante, o que muito provavelmente induziria uma descida anual de cerca de 20% do poder de compra e dos salários reais”. E eis, então, que aquele autor estónio, nos revela o seu argumento definitivo: “Uma tal situação não deixaria satisfeitos os gregos e os portugueses mas, hoje, não é isso que se pretende. Precisamos, sim, de europeus do Sul que, apesar de descontentes e com fome, decidam ir trabalhar, recebendo um salário que até agora consideraram insuficiente. Para nós (presume-se, o resto da Europa e, sobretudo, para essa referência da integração que é a Estónia!), a verdadeira mais valia seria poder evitar a entrega dos nossos euros ao fundo de ajuda e evitar a sua desvalorização, por estarmos sempre a emiti-lo”.

Aqui está, então, o que uma boa parte da opinião pública e política de muitos Estados-membros pensa sobre a crise do Euro e o problema que os países como a Grécia e Portugal (sim, ambos são metidos no mesmo saco, no referido texto) representam para a União. Claro está que não adianta contrapor-se o facto de a opção por uma moeda única ter sido, antes de tudo o mais, uma opção política. Será estranho, para jovens “politólogos” sem conhecimentos histórico-políticos sobre o que representa a integração europeia, falar-se de solidariedade interestadual, de “blocos políticos” ou de interdependências económicas recíprocas, decorrentes da garantia e da institucionalização de um Mercado Único, consagrando um espaço de liberdades económicas fundamentais. Talvez nem tenham ouvido falar de Jean Monnet…

Claro que o projeto de integração europeia e a defesa do Euro não servem para desresponsabilizar erros de governação nacionais. Mas sempre foram – por estranho que pareça a quem não teve sequer tempo de perceber o que significa a integração, antes de nela ter sido metido – um caminho para evitar, também, que uns europeus, “apesar de descontentes e com fome, decidam ir trabalhar”, apenas em benefício de outros!

 

* PÚBLICO, 23.03.2012.

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