"Os saudosistas da escola salazarista são muito especiais: tecem loas ao método tradicional daquele tempo, à memorização matraqueante de datas, nomes de rios..."
Li isto com satisfação, julguei que era comigo. Mas não, o inimigo era o Ministro Crato - é sempre a mesma coisa, às pessoas insignificantes como eu ninguém insulta.
Realmente acho que o sistema salazarista de educação primária e secundária, se se lhe descontar o nacionalismo estreme, a doutrinação católica forçada, a glorificação do regime e alguma violência e autoritarismo; e se se lhe fizer a necessária actualização científica e alguma correcção curricular (por exemplo, o Francês deixou de ter a importância que tinha ainda há poucas décadas) compara bem com o descalabro abrilista.
Não é que as gerações rascas tenham maiores quantidades de calinos ou sequer de ignorantes; pelo contrário, a massificação do ensino levou a que o número absoluto de alunos com conhecimentos e até brilhantes tivesse crescido - a pool de gente a quem foi ministrado algum conhecimento é muito maior.
Mas isto foi feito, como aconteceu com outros sectores que registaram algum sucesso, sem perguntar se a comunidade podia sustentar indefinidamente despesas crescentes; à boleia da ideia fantasiosa de que o investimento na educação é sempre reprodutivo; e destruindo selvaticamente tudo o que o regime defunto pôs de pé, na crença de que atirar fora a água suja do banho, e o menino com ela, se justificava porque estava tudo infecto.
O Sérgio Lavos, o Professor Santana, inúmeros outros, devem achar que isto é assunto para especialistas, brandindo estatísticas e estudos - certas estatísticas e certos estudos, consoante se está à direita ou à esquerda e se pertence ou não à burocracia pública e a grupos de interesses.
A mim basta-me meia dúzia de princípios sãos, e os olhos e ouvidos abertos, para: ver e ouvir professores de história com boas classificações mas incapazes de se localizarem no tempo histórico; professores de Português que escrevem e falam num dialecto tosco da Língua que supostamente ensinam; e guardar um militante cepticismo em relação às teorias pedagógicas do Clube dos Poetas Mortos e modernidades sortidas.
Crato fez e vai fazer muitas asneiras, como outros antes dele. Detalhes, que está no caminho certo - como os outros não estiveram.
De k. a 28 de Março de 2012 às 17:21
Qual descalabro Abrilista qual quê
O sistema salazarento era uma treta
A mim ninguem me obrigou a memorizar todas as estações da linha do Tua, mas ensinaram-me a pensar, a valorizar o conhecimento pelo seu valor intrinseco - É verdade, não sei escrever bem portugues. Dou bué erros ortogáficos, tá a verrr! Mas ensinaram-me a gostar de ler, e isso é mais importante (chatice, não me lembro da ultima vez que li um livro em portugues, só leio em ingles)
Pois é pah, nao nos ensinaram frances, não tem interesse para mim, de facto. Sabe qual é a linguagem que para mim tem interesse? VB. E essa mais ou menos vou aprendendo sozinho.
Porque mais do que me forçar a aprender linguas, o importante é ensinar a aprender. Não somos operários fabris, para andar a chegar á fabrica (escola) a horas, para fazer os mesmo produtos (repetir o conhecimento do professor)
A escola salazarista é mais que um curriculo, ou mesmo a exigencia desse curriculo.
É uma atitude de obediencia, de menorização do conhecimento.
Ah e já agora, eu nasci em 1982.
Realmente, não me parece que a geração que aprendeu no antigo regime, mesmo os que estudaram "mais", seja assim tão bem educada.
Sabe como eu comparo? Porque tipos da idade do meu pai, mas estrangeiros, são bastante mais dinamicos que muito gestor portugues de igual idade que eu vejo por ai.
Os tipos estrangeiros da minha idade, no entanto..eh, já não fico tão impressionado.
Ainda bem que não fica impressionado com os tipos estrangeiros da sua idade, k - não há razões para isso, os males do sistema de ensino não são um exclusivo português. Gostava, francamente gostava, que tivesse razão quanto ao dinamismo que agora porventura haverá e não havia antes. Quanto ao seu gosto de leitura, felicito-o: vale provavelmente mais do que tudo o que aprendeu, porque é a garantia de que continuará a aprender. Só não acredito que esse gosto lhe fosse outorgado pelo actual sistema de ensino.
De Renato a 29 de Março de 2012 às 22:38
É que não sabe mesmo o que diz. Antigamente apenas meia dúzia lia livros e a maior parte do que se vendia e lia era mediocre. Sei pelos meus pais, pelos meus avõs pela minha gente. O Meireles Graça, não sei a que meio pertence, mas não tome a parte pelo todo. A grande maioria dos que ficaram pela quarta classe nos anos 50 e 60, que era a maioria, e mesmo a maior parte dos que avançaram escreve mal e, pior, raciocina mal,e poucas vezes pegou num livro ao longo da vida. Gostava de ver uma criança dos anos 50 ou 60 a competir com uma criança da mesma idade agora. Aliás, gostava de as ver a fazer os testes que fazem agora os miúdos. Os nossos jovens estão mais bem preparados do que alguma vez estiveram. Em tudo. Leitura, escrita, criatividade, ciência, matemática, conhecimento do mundo que os rodeia. Não os estou a comparar com os dinamarqueses, estou a dizer que estão a uma distância enorme dos seus pais e avõs.
De José Meireles Graça a 30 de Março de 2012 às 13:33
Essa comparação já foi feita, em França (lamento não saber onde pára o estudo): dar textos de exame antigos de história, geografia e matemática a miúdos contemporâneos da mesma idade e comparar. Os resultados naquele estudo (que vale o que vale, não tenho fé cega em "estudos", porque costuma haver para todos os gostos) infirmaram o seu ponto de vista.
Tenha juízo meu caro!
Eu nasci em 1979 e discordo de tudo o que escreve, aliás o seu comentário só dá ainda mais razão ao autor do post.
E se é assim tão culto devia saber que a nossa geração foi "apanhada" no período de transição, (eu tive professores da velha guarda, você não?), pelo que não há comparação com a geração posterior à nossa e é dessa que o post fala.
De
jpt a 29 de Março de 2012 às 22:22
V. meteu-me a ler o Arrastão (não sei o que deu origem a este postal, fui ver) Aprendi ali, para minha surpresa, que há milhões de crianças em Portugal ...
De José Meireles Graça a 30 de Março de 2012 às 00:39
Sou leitor fiel e antigo do Arrastão, do 5Dias e de numerosos blogues de esquerda (como, aliás, de direita). Além da curiosidade, é a garantia de não ter falta de assunto. Esse pormenor que refere, por acaso, escapou-me...
Não é o ideal, mas se olharmos para esta pirâmide etária (http://geoescola.org/index.php?option=com_rsgallery2&page=inline&id=134&Itemid=159) e calcularmos (a olho, OK) a quantidade de portugueses até aos 19 anos de idade (18 seria mais correcto, mas não diferencia), vemos que há cerca de 2 milhões. Isso é, de facto, "milhões".
Claro que haverá muita gente que discordará de chamar "criança" a quem tenha 18 anos. Com 12 já se tem bom corpo para as obras ou fábrica, não é?
De Tiro ao Alvo a 30 de Março de 2012 às 21:11
Gostei do seu post, mas não esperava que ele provocasse tanto azedume n a geração mais nova, aqui representada por alguns comentadores, convencidos que tudo agora é melhor e que os seus pais foram educados/ensinados por métodos estúpidos. Então, aquele que se gaba de saber ler e pensar em inglês, é o máximo.
Que a geração actual tem mais conhecimentos do que tinham os seus pais e avós, é uma realidade. Mas não é isso mesmo que diz o post? Porquê acusar, como faz o Renato, “a grande maioria dos que ficaram pela quarta classe nos anos 50 e 60, que era a maioria, e mesmo a maior parte dos que avançaram de escrever mal e, pior, raciocinar mal”?
Presunção e água benta, cada um toma a que quer, diz o povo, mas não o diz para abonar quem quer que seja. E o Renato e os outros deviam enfiar a carapuça…
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