Quinta-feira, 29 de Março de 2012
por José Meireles Graça

Comecei* por fazer umas coisas num escritório: usava óculos, lia muito, parecia esperto, precisava de trabalhar - a cunha funcionou. O patrão, um sacana paternalista que pagava mal, achava-me graça e deixou-me fazer uns estudos - cheguei a guarda-livros.

A contabilidade era uma coisa simples, a estabilidade legislativa muita, os fiscais uns ferrabrases que se compravam, em caso de necessidade, por um preço módico, os impostos moderados - a vida de guarda-livros era, para quem tivesse alma de manga-de-alpaca, uma boa vida, se a empresa fosse sólida - e era.

Depois veio a Revolução, que acolhi com alegria: estava farto dos bonzos engravatados e barrigudos do regime, da atmosfera opressiva, do palavreado gasto e oco do Estado Novo, dos jornais chatos, da corrupçãozinha modesta e institucionalizada, dos livros, pela maior parte merdeiros, que se liam às escondidas porque eram do contra e estavam proibidos, do medo de falar alto e bom som no café, da falta dos filmes e revistas com gajas nuas... - ide pentear monos pró Brasil, seu bando de fássistas.

Depois, a malta que andava até ali pelo exílio, as prisões e a clandestinidade, tomou conta do proscénio - e foi o que se viu.

Esse tempo passou. E ficou assente, e continua, que cada qual diz o que quer quando quer - este Vosso criado usa essa liberdade com liberalidade, tranquilo na certeza de que, quem não gostar - põe na beirinha do prato.

Pois sim. Mas sucede que os operários, naquele tempo, tinham emprego e uma motorizada, fumavam e bebiam; e a classe média começou nos anos sessenta a ter o seu carrito, a sua televisão, o seu frigorífico, o seu módico de assistência - o País crescia como nunca havia crescido antes nem voltou a crescer depois.

Também não se ignora o que veio a seguir: a motorizada foi substituída pelo carro novo, o utilitário pela gama média, a televisão pelo plasma, ou lá o que é, a quarta-classe pelo 19º ano, o 19º ano pelo curso superior e este pelo mestrado - os licenciados já não se limitam a dizer asneiras, fazem-no com mestria. E eu fui promovido a técnico de contas, por via semântica.

Uma parte deste progresso foi tecnológica - é tudo mais eficiente e mais barato; e outra foi do crédito, com o qual sucessivos governos compraram votos.

Estamos na fase de pagar - se conseguirmos - o calote.

 

Mas os filhos dos antigos operários não têm emprego, e por isso emigram. E esta emigração não é a mesma do antigamente, porque dantes se despovoavam as aldeias de cavadores miseráveis; e agora se despovoam as cidades de jovens com formação que, ainda que atamancada, está a anos-luz da dos Pais.

Em paralelo, sub-repticiamente, o Estado Novo, morto de morte matada, e o breve fogacho comunista, incorporado no regime como protestatário de serviço, foram sendo substituídos pelo Estado igualitário politicamente correcto. E o antigo operário, e já agora os filhos, e já agora os outros, já não fuma, porque o nanny state lhe tornou, via preço, o tabaco inacessível; não vai ao tasco porque a ASAE lhe transformou o estabelecimento numa loja sueca com consultor para saber de que cor devem ser exactamente os cabos das facas; não usa a motorizada porque tem o automóvel, que aliás não usa porque não tem dinheiro para pagar o combustível e as portagens; vive no terror de perder o emprego, porque, se o perder, perde também a casa, que lhe afiançaram ser dele; e pertence finalmente à classe média, porque esta desceu ao nível dele.

Têm todos, operários e colarinhos brancos, agora irmanados, conta no banco e ligação à internet. As contas servem para os bancos os induzirem a comprar a crédito o lixo de que não precisam e para os tornar objecto de todo o tipo de exacções, usuras e abusos. E, em conjunto com a administração electrónica, a via verde, os cartões de crédito, o desaparecimento do secretismo bancário, a legislação contra o enriquecimento ilícito (e, crescentemente, o enriquecimento, ponto) e o reforço demencial dos poderes da Administração Pública, em particular da Fiscal, para que o Estado saiba exactamente quem ganha o quê, como, onde, onde vai, o que consome, e a que horas.

Em troca, dizem-nos para levarmos guarda-chuva se chover, nos agasalharmos se estiver frio, informam-nos da cor do alerta em que está a nossa região e qualquer director-geral com risca ao meio e aspecto ridículo se julga autorizado a verberar-nos os vícios, tal como uma ministra com alma de enfermeira num lar de terceira idade não se acha grotesca a ensinar-nos a lavar as mãos.

 

Agora até o dinheirinho em papel vai ser ilegalizado: uma empresa gastar sem o Estado saber o quê, nem com quem? Era o que faltava - empresas são quadrilhas de ladrões, salvo prova em contrário.

E se o Estado vai dentro das empresas, que são pessoas colectivas, dizer o que os donos podem e não fazer, por que carga de água não há-de fazer o mesmo com as pessoas singulares? Dêem-lhes tempo - o software precisa de ser rodado.

É por isso que, à força de me tirarem liberdades, uso aquela que ainda está relativamente intocada para dizer que já estive mais longe de ter - o que diz o título.

 

* Não comecei nada, dá-me jeito dizer assim.

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11 comentários:
De Desconhecido Alfacinha a 29 de Março de 2012 às 20:56

Enfim, fássisto. ..

Excelente Post.

Melhores cumprimentos,


De José Meireles Graça a 29 de Março de 2012 às 22:59
Obrigado, Desconhecido.


De Paulo Sousa a 30 de Março de 2012 às 07:45
Bom post!!

Até ao fast-food querem pôr um imposto mais alto para nos condicionarem as escolhas...

A uma parte do que relata, eu chamo o 'asseio'.

http://valedoanzel.blogs.sapo.pt/tag/asseio


De k. a 30 de Março de 2012 às 10:19
Pergunta: Você esteve em que teatro de operações?
É que foi para alimentar o esforço de guerra que muito do crescimento economico foi.
E de facto, voltaram muitos exilados, como um tio meu que, grande cobarde, se exilou por não querer ir para a Guiné "matar terroristas"


Ah e outros que se exilaram porque realmente não gostavam de falar em voz baixa, mas esses seriam concerteza porcos intelectuais.


Saudades do fascismo? Que legou isso ao meu pais, senão vergonhas, e falhanço? O meu pai teve os primeiros sapatos aos 12 anos, e pouco estudou. Verdade, foram cometidos excessos que agora pagamos, mas é preciso ser-se excepcionalmente cego para não os ver, e para não os reconhecer.

Neste momento, até podemos ser considerados como o menos desenvolvido pais europeu (o que é falso) - no tempo do seu amado "fassismo", eramos o pais mais desenvolvido da áfrica subsariana (sim, esta é do dantas).

Mas pronto, como bom velho do restelo, viva no passado, se isso o satisfaz.
Eu tenho mais que fazer, ali no futuro.


PS:
A ASAE é das melhores ideias que este pais teve, finalmente podemos ter a garantia que enquanto consumidores temos comida não requentada 20 vezes (e isso pode literalmente, mata-lo silenciosamente, e apos uns dias), feita em condições e higiene.
Tambem é uma garantia concorrencial - agora os donos de estabelecimentos comerciais não podem fazer "dumping higienico"



De José Meireles Graça a 30 de Março de 2012 às 13:10
Não defendi, em lado algum, a guerra colonial. E se é verdade (e é, o esforço de guerra chegou a representar 40% do orçamento) que se deixaram de fazer investimentos públicos necessários, por causa da necessidade de alimentar as Forças Armadas, não o é menos que Portugal cresceu na década de 60 a uma taxa média de quase o dobro da dos países que hoje constituem a UE, e isto sem um significativo aumento do endividamento, quer público quer privado. Quanto ao resto, em particular as "saudades", sugiro que leia com atenção.


De Teresa b. Moniz a 30 de Março de 2012 às 16:12
Excelente texto. E ao comentário do K, que não percebeu nada da metáfora, e que acha a ASAE um must, digo-lhe: Vá-se catar!
TBM


De Pedro Silvq a 30 de Março de 2012 às 17:14
O K. não tem que se catar! A ASAE garante-lhe que ele não pode entrar em locais contaminados por piolhos!!! Pessoalmente, preferiria aturar uns quantos piolhos do que gajos como o K.


De Tiro ao Alvo a 30 de Março de 2012 às 18:40
Duas correcções ao seu post:
Quando escreveu que "a quarta-classe (foi substituída) pelo 19º ano", o 9º ano é que estaria certo. Depois escreveu que o operário de hoje "não usa a motorizada porque tem o automóvel, que aliás não usa porque não tem dinheiro para pagar o combustível e as portagens", deveria acrescentar: "ou se o usa constitui um perigo, pois anda sem seguro automóvel".
Tudo isto serviu de pretexto para lhe dizer que gostei do seu post, custando a aceitar, parece-me, que alguém que o leia com os olhos abetos possa pensar que o amigo tem, de facto, saudades do fascismo. Mas...


De José Meireles Graça a 1 de Abril de 2012 às 02:20
Baralhei essa coisa dos anos, de facto. Quanto ao resto, de cedência em cedência o espaço de liberdade vai-se nas nossas sociedades restringindo. Ainda é possível fazer um texto cheio de exageros retóricos. Mas cada vez menos (não o texto, os exageros).


De Tiro ao Alvo a 31 de Março de 2012 às 08:28
Duas correcções ao seu post:
Quando escreveu que "a quarta-classe (foi substituída) pelo 19º ano", deveria ter escrito 9º ano é o que estaria certo. Depois escreveu que o operário de hoje "não usa a motorizada porque tem o automóvel, que aliás não usa porque não tem dinheiro para pagar o combustível e as portagens". A isso, deveria acrescentar: "ou se o usa constitui um perigo, pois anda sem seguro automóvel".
Tudo isto serviu apenas de pretexto para lhe dizer que gostei do seu post, custando-me a aceitar que alguém que o leia com os olhos abertos possa pensar que o amigo tem, de facto, saudades do fascismo. Mas...


De André Miguel a 31 de Março de 2012 às 14:28
Grande post.
Eu que sou mais um emigrante da geração pós 25 de Abril só posso agradecer tão gratificante leitura.


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