Domingo, 1 de Abril de 2012
por Luís Naves

Estive um dia internada no hospital veterinário e quando regressei a casa a minha irmã Trikas bufou-me. Como explica esse comportamento e que devo fazer?
Bikinhas, Lisboa

 

O comportamento da sua irmã é normal. Como sabe, somos de direita, ao contrário dos cães, que são tipicamente de esquerda. Nós, os gatos, somos individualistas, elogiamos a ordem mas sonhamos secretamente com a anarquia. O nosso modelo é o mercado, onde cada um vale por si e no fim ganha o mais forte. O mercado alimenta-se do caos e da crise, nós também. Já os cães são animais que apreciam a ordem, embora se entusiasmem com mudanças e revoluções, desde que estas deixem tudo na mesma. No fundo, eles querem ser iguais aos donos. Já os gatos são diferentes, querem dominar os donos, suplantá-los: descansamos, mas não tomamos como garantida a comida subsidiada; dormimos, mas sempre com um olho bem aberto, atento e desconfiado; ronronamos, mas só se recebermos festinhas. E nunca pedimos, só sabemos receber. Nem sequer gostamos da solidariedade: temos horror aos débeis, aos hospitalizados e aos intrusos. Somos, portanto, territoriais, proprietários e pequeno-burgueses no bom sentido da palavra. A sua irmã bufou-lhe? Pois fez muito bem, dada a sua condição de enferma. Existe uma solução? Claro, deixe as pieguices para o Sérgio Lavos e reponha a ordem social. Dê uma patada à sua irmã e restabeleça o antigo domínio.

 

Pelo andar da carroça, ainda teremos de sair do país. Que destinos recomenda?
Gatão, Cascais

Se for caso de exílio, recomendo Paris, onde poderá retomar os estudos, ou iniciá-los se nunca os fez anteriormente. Há também o excelente destino de Frankfurt, de onde poderá continuar a fazer afirmações financeiras que prejudiquem o país. Mas, claro, o melhor será mesmo ficar perto da conta bancária, na Suíça. Se for para trabalhar, a emigração tem fama de complicada. Escrevo isto teoricamente, pois nunca trabalhei na vida, embora digam que é coisa difícil e trabalhosa. Se for para gozar a vida ou ter um tacho compatível, mudar de país compensa; sem garantias, tem risco. Será difícil encontrar um macaco disponível para lhe encher o prato e o clima também não favorece, sobretudo na Europa do Norte, onde ser sem abrigo fia mais fino. Os do norte são mais ariscos do que nós, às vezes ajudam, mas só até certo ponto; no fundo, fazem pela vida deles, que é uma ideia simples para um gato. Resumindo: melhor é ficar por cá e aguentar-se à bronca; enquanto o pau vai e vem, folgam as costas, e um gato tem sete vidas e consegue sempre passar entre as gotas da chuva.

 

Já tenho dois anos e ainda sou virgem. Sou normal?
Lulu, Lisboa

Não, minha querida, o seu caso merece denúncia na Sociedade Protectora dos Animais. Os nossos donos transferem para as vidas dos gatos todos os pruridos, puritanismos, inquietações e cautelas das suas tristes vidas sexuais. Acho que eles pensam demasiado em sexo, a ponto de ficarem paralisados com tanto pensamento. Este é um tema em que não se deve pensar muito, mas deixar que o instinto funcione. Liberte-se dessa opressão. Já lhe disse que dou consultas ao domicílio? Se me deixar o telemóvel…

 

legenda da imagem: gata lisboeta à espera da consulta ao domicílio 

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