Quarta-feira, 4 de Abril de 2012
por Francisca Prieto

 

Quando era pequena a minha mãe andava sempre atarefada. E, como me calhava a mim o derradeiro lugar na fiada dos cinco filhos, sobravam escassos momentos de exclusividade materna. Só me recordo de conseguir aproximação especial em dois tipos de situações: ou através do processo de invasão (que partia de mim) ou através da abordagem cultural (que partia dela).

 

A primeira situação era facílima de operacionalizar porque bastava apanhar a minha mãe a dormir. Ora a senhora andava sempre estafada, pelo que encontrá-la abandonada aos braços de Morfeu era canja. Depois, era só deitar-me mesmo ao lado, de preferência debaixo da mantinha, e deixar-me ficar ali muito quieta.

 

Ser alvo de um convite é que era um acontecimento mais raro. Fora uma ida ao cinema para ver o Pinóquio em que, já que falamos nisso, a minha mãe adormeceu durante grande parte da sessão, mesmo nas partes mais trágicas, não me lembro de nenhuma outra deslocação que não tivesse por detrás um objectivo cultural.

O alvo preferido, dela e meu, era o Centro de Arte Moderna da Gulbenkian. Para além dos Galgos de Amadeo, que era uma das minhas obras de eleição, havia no acervo uma divertidíssima escultura chamada O Beijo, onde uma balzaquiana platinada e de formas generosas a rebentar de um vestido vermelho se encontrava sentada num banco de jardim a ser beijada por um senhor enfezado de fato.  Era o momento alto da exposição. Eu e a minha mãe trocávamos  um par de gargalhadinhas cúmplices enquanto rejubilávamos mediante o par insólito.

 

Depois de completar a volta, almoçávamos no self-service que, para mim, era a mesma coisa que me dizerem que íamos dar uma voltinha às cozinhas do Buckingham Palace.

(enquanto fui escrevendo estas linhas, lembrei-me que numa destas incursões fomos ver uma história de Maria Alberta Menéres, contada pela própria, com projecção de ilustrações de Amadeo de Souza Cardoso, e adormecemos as duas no auditório).

 

Vieram-me estas recordações à memória a propósito de, no outro dia, ter resolvido levar a Prieta mais caganita a ver a exposição da Beatriz Milhazes ao Centro de Arte Moderna da Gulbenkian.

A sodôna Rita é a mais pequena na fiada dos quatro filhos (déjà vu? déjà vu?) e é verdade que, por variadíssimos motivos, aos quais o facto de ela não se calar por um segundo não será alheio, acabo por ter menos paciência e por lhe dar menos atenção. De maneira que, encarando um sábado de chuva e havendo na capital uma mostra de uma artista plástica brasileira de renome que faz colagens com papeis de chocolate, resolvi aliviar a consciência e fazer um programa de mãe e filha.

Não contava era com a estranheza de passar pela porta do edifício, de Rita pela mão, de me aproximar do balcão da bilheteira e de ser invadida por um súbito ataque de esquizofrenia que me fez ter vontade de desatar aos berros com a senhora do museu. Que ela havia de estar enganada, que era eu a pequenina, que eu não podia ser a senhora, como é que eu podia ser a senhora se vinha ali de mão dada com a minha mãe?

 

Raio de coisa. Onde é que se enfiaram os trinta e cinco anos, meu Deus?


tiro de Francisca Prieto
tiro único | gosto pois!

Comentar:
De
  (moderado)
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Este Blog tem comentários moderados

(moderado)
Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres




Regimento
outras cavalarias
tiros recentes
tiros mais comentados
cofre
tags
Arregimentados
Subscrever feeds