Quarta-feira, 4 de Abril de 2012
por José Meireles Graça

"O Toural já foi campo aberto, já foi jardim fechado com um lago e um coreto, já foi jardim aberto, tempos houve em que não teve árvores, noutros tempos as teve, já teve no centro o monumento a Afonso Henriques, depois substituída pela fonte monumental. E, muito antes e por muito mais tempo (300 anos), teve uma notável fonte-chafariz, actualmente implantada no Jardim do Carmo."


 

Os meus conterrâneos andam indignados com esta grade dourada, de 60 metros de comprimento, colocada no Toural, centro da cidade. Está em processo de assinatura pelos Vimaranenses uma exposição, dirigida à Câmara, a protestar.

Não vejo qualquer utilidade no arrebique gratuito e vejo-lhe inconvenientes - é um obstáculo desnecessário, separando nada de coisa nenhuma.

Porém, este é um retoque final numa praça que foi remodelada de alto a baixo, à boleia da cornucópia dos milhões da Capital Europeia da Cultura, e em obediência a um projecto aprovado pelas autoridades competentes.

A evidente munificência do novo arranjo implicou a substituição do piso da placa central da praça, agora com uns traços enigmáticos que, no conjunto, explicaram-me, representam a planta do Centro Histórico (coisa da maior utilidade, suponho, para um turista que visite a cidade de helicóptero), além da remoção da fonte monumental por troca com a fonte-chafariz, das quais se fala em epígrafe.

Não vou assinar a petição, é inútil - a grade, de toda a maneira, pode bem ser que desapareça levada por ladrões (que, se não fosse politicamente incorrecto e xenófobo, diria que serão provavelmente Romenos). E, se não for roubada por causa do policiamento para o impedir, é apenas uma questão de tempo até que uma nova Câmara, com um novo pretexto, e com novos arquitectos e artistas, troque a mobília urbana toda, porque sim.

Assinaria com gosto uma petição para se deixar em paz o que está, guardando o investimento para restauro, conservação e obras utilitárias, ainda que pouco visíveis, se tiver que ser; e reservar a criatividade, a inovação e a modernidade para o espaço novo, o degradado quando não mereça restauro, e ainda o velho, se lhe acrescentar adequação ao uso.

Mas esta petição, receio, não teria muitos subscritores. E assim será sempre, enquanto o cidadão julgar que são os outros a pagar.


tiro de José Meireles Graça
tiro único | comentar | gosto pois!

5 comentários:
De manuel.m a 5 de Abril de 2012 às 00:14
Está a ignorar o profundo significado esotérico da grade :
Lembra a quem hoje está de um lado que facilmente um dia se poderá ver no outro . A Praça representa o próprio Universo e grade simboliza que tudo é finito neste mundo .
É portanto proposto a quem lá passeia que esses momentos sejam sobretudo uma viagem espiritual de transcendente importancia.
Apreciem e agradeçam ! .


De José Meireles Graça a 5 de Abril de 2012 às 01:59
Não tinha visto a coisa por esse ângulo, mas realmente...


De LIN CH PIN a 5 de Abril de 2012 às 15:48
Estar tudo partido é o oposto de estar tudo ligado.

LI LI CAI NESSAS


De Tiago Laranjeiro a 5 de Abril de 2012 às 13:26
O problema com o gradeamento é que vai contra aquele que era o discurso dos arquitectos que promoveram a reabilitação do Largo: a sua reconfiguração como espaço amplo e aberto, para circular livremente por ele, o que era impossível com o traçado anterior (uma criação com 50 anos e desadequado ao tempo actual, quer pelas dificuldades de mobilidade rodoviária, quer pela própria configuração do espaço, que não permitia o seu pleno usufruto). Para além disso, é suposto o novo Toural permitir concentrações populares e manifestações culturais a uma escala até então impossível na cidade (veja-se o que por lá se fez no dia 21/1/2012).
As cidades são mutáveis e reinventam-se, e ainda bem que assim é. Acho que as obras feitas à boleia da CEC 2012, a custos comportáveis para a autarquia, são louváveis, e nenhuma simpatia me prende a quem as decidiu, apenas o gosto pela minha cidade.


De José Meireles Graça a 5 de Abril de 2012 às 18:56
Não me parece que, salvo no que toca à criação de parques de estacionamento, no centro de uma cidade velha se deva reconfigurar seja o que for para melhorar a circulação rodoviária; nem se me afigura que o objectivo tenha sido conseguido, se era um deles. As concentrações e manifestações ou se fazem em espaços novos de raiz ou têm que caber nos velhos. Uma praça esmagada pelo Sol pode convidar a uns usufrutos mas prejudica outros. O meu gosto pela cidade não ficou reforçado pelas obras, que, no caso do Toural, me parecem pretensiosas. Mas o meu ponto não é de carácter estético, sobre isso nunca se chega a conclusão alguma. As obras custaram uma fortuna e foram decididas por burocratas. Ninguém se preocupa com o que custa, sob pretexto que são outros a pagar a maior parte. É um péssimo princípio, é também por isso que estamos esmagados por impostos. Cordiais cumps.


comentar tiro

Regimento
outras cavalarias
tiros recentes
tiros mais comentados
cofre
tags
Arregimentados
Subscrever feeds