Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Forte Apache

Ostera , Peschad e a Ressurreição

Maurício Barra, 06.04.12

(*)

 

OSTERA , PESCHAD e a RESSURREIÇÃO

 

Muito antes de ser considerada a festa da ressurreição de Cristo, a Páscoa anunciava o fim do Inverno e a chegada da Primavera.

A Páscoa sempre representou a passagem de um tempo de trevas para outro de luz, isto muito antes de ser considerada uma das principais festas da cristandade. A palavra "páscoa" – do hebreu "pesach", antes "peschad", em grego "paskha" e latim "pache" – significa "passagem", uma transição anunciada pelo equinócio de primavera (ou vernal), que no hemisfério norte ocorre a 20 ou 21 de Março e, no sul, em 22 ou 23 de Setembro.

 

Ostera (ou Ostara) é a Deusa da Primavera, que segura um ovo em sua mão e observa um coelho, símbolo da fertilidade, pulando alegremente em redor de seus pés nus. A deusa e o ovo que carrega são símbolos da chegada de uma nova vida. Ostera equivale, na mitologia grega, a Persephone. Na mitologia romana, é Ceres.

A celebração de Ostera, comemora a fertilidade, um tradicional e antigo festival pagão que celebra o evento sazonal equivalente ao Equinócio da primavera. Algumas das tradições e rituais que envolve Ostera, incluía fogos de artifícios, ovos, flores e coelho.

Ostera representa o renascimento da terra, muitos de seus rituais e símbolos estão relacionados à fertilidade. Ela é o equilíbrio quando a fertilidade chega novamente depois do inverno. É o período que a luz do dia e da noite têm a mesma duração. Ostera é o espelho da beleza da natureza, a renovação do espírito e da mente.

 

Para os judeus, que comemoram a sua Páscoa desde mil e trezentos anos antes do nascimento de Cristo, a sua origem é diferente. A Páscoa judaica chama-se Pesach, palavra hebraica que significa "passagem", e lembra a passagem de um anjo que teria poupado os judeus da morte pelas pragas que caíram sobre o Egipto.

A Páscoa judaica comemora a passagem do povo de Israel da escravidão do Egipto para a liberdade na terra prometida, atravessando o deserto do Sinai. Assim, a Páscoa, é a comemoração do voltar a ser feliz, é a festa da alegria, da fraternidade de quem ultrapassou provações em comunidade.

O ritual da Páscoa judaica é apresentado no livro do Êxodo (Ex 12.1-28). Por essa festa, a mais importante do calendário judaico, o povo celebra o facto histórico da sua libertação da escravidão do Egipto acontecido há 3.275 anos, com  Moisés no comando a atravessar com o seu povo o Mar Vermelho e o Deserto do Sinai.

O Êxodo compreende a libertação do Egipto, a caminhada pelo deserto e a aliança no Monte Sinai (sintetizado nos dez mandamentos dado a Moisés). Com o tempo, esta realidade histórica transformou-se num acto de fé.

Todos os anos, na noite da primeira lua cheia da Primavera, os hebreus celebravam a Páscoa, com o sacrifício de cordeiro e o uso dos pães ázimos (sem fermentos), conforme a ordem recebida por Moisés (Ex 12.21.26-27; Dt 12.42). Era uma vigília para lembrar a saída do Egipto (forma pela qual tal facto era passado de geração em geração – Ex 12.42; 13.2-8).

Esta celebração, com o passar do tempo e das cruéis vicissitudes que o povo judeu sofreu, ganhou adicionalmente uma dimensão de resistência. Quando sofriam  subjugações por estrangeiros, êxodos e pogroms, celebravam a Páscoa lembrando o passado, mas pensando no futuro, com esperança de uma nova libertação, última e definitiva, quando toda escravidão seria vencida, e haveria o começo de um mundo novo há muito tempo prometido.

 

Para os Cristãos, a Páscoa adapta a simbologia de Ostera dos antigos deuses pagãos e da Pesach dos judeus.

Os símbolos tradicionais da Páscoa vêm de Ostera. Os ovos, símbolo da fertilidade, eram pintados com símbolos mágicos ou de ouro, eram enterrados ou lançados ao fogo como oferta aos deuses. Era o Ovo Cósmico da vida, a fertilidade da Mãe Terra.

A comemoração de Ostera era determinado pelo antigo sistema de calendário lunar, que coloca o colocava  após a primeira lua cheia a seguir ao equinócio da Primavera.

O nome  Páscoa ( Easter ) vem do deus saxão da fertilidade Eostre, que acompanha as festas de Ostara como um coelho, o que deu origem ao símbolo do coelho de páscoa na tradição cristã. ( o coelho é também um símbolo de fertilidade e da fortuna ).

Assim, a Páscoa cristã justapôs-se cronologicamente às festas pagãs de Ostara, reorientando  a tradição dos símbolos do Ovo e do Coelho. Isso sucedeu na Idade Média, adoptando  dos antigos povos pagãos europeus as celebrações que, nesta época do ano, homenageavam Ostera, ou Esther  ( em inglês, Easter quer dizer Páscoa ).

O Domingo de Páscoa continuou a ser determinado pelo antigo sistema de calendário lunar, sendo a data do feriado cristão fixada durante o Concílio de Nicéa, em 325 d.C.,  "o primeiro Domingo após a primeira Lua Cheia que ocorre após ou no equinócio da primavera boreal ".

Simbólicamente, a Páscoa passou a ser uma celebração da última Ceia de Jesus com os apóstolos. Nesta ceia ou refeição, os primitivos cristãos tomavam a refeição simbólica da Ceia do Senhor para comemorar a Última Ceia, na qual Jesus e seus discípulos mantinham o hábito de observaram a tradicional festa judaica da Peschad. Os temas das duas refeições eram os mesmos. Na Peschad os judeus regozijavam-se porque Deus os havia libertado dos seus inimigos e aguardavam com expectativa o futuro como filhos de Deus. Na Ceia cristã, os cristãos celebravam o modo como Jesus os havia libertado do pecado e expressavam sua esperança pelo dia quando Cristo voltaria (1Co 11.26). A princípio, a Ceia do Senhor era uma refeição completa que os cristãos partilhavam em suas casas. Cada convidado trazia um prato para a mesa comum. A refeição começava com oração e por comer pedaços de um único pão, que representava o corpo partido de Cristo. Encerrava-se a refeição com outra oração e a seguir bebiam de uma taça de vinho, que representava o sangue vertido de Cristo.

Para os cristãos, o centro da fé é o Jesus que morreu e que acreditam que ressuscitou para mostrar que a utopia de um mundo justo e de paz é possível. A vida, a morte e a ressurreição de Jesus são a concretização dessa utopia.

Se bem que a imagem da Páscoa Cristã seja o cruxifixo representando a morte de Jesus, é a sua ressurreição que verdadeiramente simboliza a cristianização de Ostera e do Pesach, a celebração da renovação da vida depois da morte, a remissão da culpa depois do arrependimento, a alegria depois do sofrimento, a passagem de um tempo de trevas para outro de luz.

(*) Capela de S. Tiago (desenho de Carlos Van Zeller, 1835), Praça de S. Tiago, Guimarães. A primitiva capela da Praça de S. Tiago seria, segundo a tradição, um templo pagão, dedicado à deusa Ceres. in Memórias de Araduca.

 

(**) Texto elaborado a partir de diversas pesquisas sobre História da Religião.

4 comentários

Comentar post