Segunda-feira, 30 de Abril de 2012
por Luís Naves

Muitos comentadores esperam mudanças radicais na Europa, no caso de François Hollande vencer as eleições em França. Talvez tenham razão, mas aproveito para tentar explicar o que julgo serem as limitações desta tese.

 

Em dois artigos da mesma página do Financial Times de hoje, Lawrence Summers (ex-secretário do Tesouro americano) critica as políticas de austeridade lideradas pela Alemanha. O caso espanhol é nítido: segundo os economistas, cortar brutalmente na despesa pública numa economia que não está muito endividada e onde o desemprego ronda os 25% é pura loucura.
Em outro texto, Wolfgang Munchau prevê uma "insurreição progressista" e atribui a provável derrota de Nicolas Sarkozy à "hiperactividade" do presidente, característica pessoal que impediu que ele fizesse as reformas que a França exigia em 2007. "A austeridade atrai os países a uma armadilha de crescimento lento", escreve Munchau pela enésima vez.
O prestigiado colunista do FT tem esperança de que Hollande introduza "uma mudança na narrativa tóxica sobre a crise da zona euro e a sua resolução. Segundo essa narrativa, a crise foi causada pela irresponsabilidade orçamental. A prescrição é de austeridade e reformas económicas. A ferramenta para atingir a primeira é o pacto orçamental, que Hollande já disse que não vai assinar, excepto se for complementado por políticas que aumentem o crescimento económico".

Munchau termina o seu artigo a explicar a razão pela qual Hollande não poderá esticar a corda na futura negociação. Tudo aponta para uma mudança dos eleitorados europeus na direcção das franjas. A primeira volta em França e as legislativas de Junho, as sondagens na Grécia e a disposição do eleitorado holandês parecem apontar para uma alteração de grande dimensão. Começa a ser difícil esconder o fenómeno debaixo do tapete.


 

Em França, na primeira volta, a soma da extrema-esquerda e da extrema-direita foi superior ao resultado do candidato mais votado. Na Grécia, as sondagens sobre as eleições de dia 6 são contraditórias e dão maioria ao conjunto de rivais históricos Nova Democracia-PASOK, o que permitirá um absurdo bloco central pró-resgate. Mas a esquerda anti-resgate (comunistas, Syriza e esquerda democrática) soma na pior das hipóteses 23%, com o intervalo do somatório ir até aos 33%, um em cada três eleitores.  A formação neo-nazi de extrema-direita (XA) ameaça ter 5% dos votos nas legislativas de domingo.
As formações radicais mostram a sua força no referendo irlandês, onde o voto "não", apenas apoiado por grupos de franja, tem mesmo assim 35% de intenções de voto. O fenómeno pode também revelar-se nas legislativas holandesas de Setembro. Não é a "insurreição progressista" aquilo que se anuncia, mas a "revolta radical". Governos recém-eleitos (Espanha, Portugal) são contestados abertamente com menos de um ano em funções.

 

Num programa de TV onde participaram os dois candidatos da segunda volta das presidenciais francesas, um dos jornalistas insistiu a certo ponto na ideia de que os futuros parceiros de Hollande e o candidato socialista falam de coisas diferentes quando mencionam as políticas de crescimento. Na Alemanha, isto significa fazer reformas estruturais; em França quer dizer mais despesa pública. Foi o único momento em que Hollande se engasgou.
Voltando um pouco atrás, ao artigo de Summers, é interessante notar que o autor exclui apenas a Grécia da sua crítica. Atenas terá de continuar a austeridade. Sem referir Portugal expressamente, o ex-secretário do Tesouro e professor em Harvard parece colocar o nosso país no grupo dos países onde a austeridade é um erro.
Os economistas são quase unânimes em considerar que Portugal precisa de mais tempo para colocar as contas em ordem e fazer as reformas estruturais de que necessita. O programa da troika é demasiado curto, dizem, numa afirmação incontestada. Mas os peritos já se dividem na questão do crescimento, tal como referiu o jornalista francês: para uns, estas políticas exigem aumentos da despesa pública; para outros, são as reformas estruturais que daqui a alguns anos vão dar fruto, e não se deita gasolina para a fogueira, ou seja, nem pensar em aumentar a despesa sobre as dívidas.
Uma alteração dramática da política europeia exigiria o triunfo da tese de Hollande (e dos socialistas em geral) de que o crescimento exige grandes aumentos de despesa pública. Portugal tentou fazer isso durante a década anterior e só conseguiu taxas medíocres. Os países do norte são contra a ideia, o que não significa que não façam um compromisso que permita ao novo presidente francês (caso seja eleito, como tudo indica) cumprir as suas promessas eleitorais.

 

A chanceler Angela Merkel já foi clara, ao dizer que o Tratado Orçamental não será renegociado. Nem isso fazia sentido, pois o documento foi assinado pelos chefes de governo de 25 países. Se fracassar o processo de ratificação, não há tratado e estamos na estaca zero, com pânico dos mercados; se for ratificado, entra em vigor. Claro que a França, pela sua dimensão, tem uma espécie de direito de veto, mas isso implicava a criação de uma crise europeia de consequências imprevisíveis, com a França a ser a primeira vítima. Se Hollande ganhar as eleições não vai cometer um erro tão colossal, arriscando o colapso da notação da França ou, pior, a destruição do eixo Paris-Berlim.
A posição de Hollande pode ser facilmente acomodada através de concessões alemãs que já são discutidas, tais como um imposto sobre transacções financeiras que reverta para os cofres de Bruxelas, libertando dinheiro dos Estados-membros. Resolvia-se um dos problemas do financiamento europeu e fechava-se o pacote em negociação para as verbas até 2020. O dinheiro nacional libertado poderia servir para políticas expansionistas de crescimento ou para aquilo que os países quisessem.
A Alemanha pode também permitir eurobonds, mas primeiro terá de ter a regra de ouro ratificada, o que significa limites de défice e dívida bastante restritivos em toda a zona euro, com direito de vigilância e sanções. O fim da liberdade orçamental terá de ser uma realidade para que Berlim aceite a mutualização das dívidas soberanas e bancárias.
Alguma esquerda tem demonizado este tratado, mas quando ele for também uma realidade da França de François Hollande vai ser difícil explicar porque razão o presidente socialista que ia mudar a lógica da Europa aceitou a regra de ouro. Mas é evidente que todas estas especulações dependem da vitória de Hollande no domingo, um cenário provável, mas até ao lavar dos cestos é vindima.

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6 comentários:
De l.rodrigues a 30 de Abril de 2012 às 16:40
Esta da "regra de ouro" lembra o padrão-ouro, de triste memória. Para quem a tem.


De da Maia a 1 de Maio de 2012 às 16:22
O problema é que a confiança passou a fé, e neste momento estamos em procissões de fé para fazer aparecer dinheiro que não existia... justamente pela falta de indexação ao ouro-padrão.
Ao que consta, está declarado o triplo de dívida face ao total do PIB dos países... o que é revelador do desajustamento especulativo internacional.
Ou seja, ninguém tinha o dinheiro que foi emprestado!


De k. a 30 de Abril de 2012 às 17:35
O que Hollande quer é forçar que no fundo, o BCE tenha um papel mais importante na Economia, colocando o emprego e o crescimento na sua agenda (além da estabilidade de preços) - Para isso, o BCE terá de poder passar a financiar directamente os Estados (está a tentar fazer isto através dos bancos, mas não está a funcionar, os bancos estão com exigencias de capital muito grandes - e sem capital deles.. apanham o dinheiro do BCE, e em vez de o emprestar, espetam-nos nos balanços).

É com este financiamento (mais moeda) que Hollande quer financiar estratégias de crescimento.

E não me venham com fearmongering de inflação:
a) a M2 da Zona Euro continua estupidamente baixa
b) Quando de facto, começar a haver inflação, então o BCE começa a subir as taxas de juro, cumprindo o seu papel - e dando incentivo à poupança.

Note-se que isto não é incompativel sequer com orçamentos equilibrados (podem ter défice zero - algo que Hollande nunca rejeitou, diga-se de passagem)


Neste momento há desempregados, que querem trabalhar - há empresas com capacidade não utilizada. Há consumidores sem dinheiro para consumir.

A economia está emperrada, porque por causa de um cataclismo financeiro mundial (causado pelo Socrates), desapareceu a confiança dos agentes economicos, entre si. Terá de vir uma autoridade central a substituir-se temporariamente, até o mercado ganhar confiança, e a autoridade central poder ir "para os bastidores" regular (o que deixou de fazer, e nunca deveria ter feito)


De Nelson Mendes a 30 de Abril de 2012 às 18:20
Caríssimo, linkei-no no cousas. Sinceramente parece-me que Hollande tem a sorte das pessoas estarem a fazer o voto-útil anti-Sarkozy. Quanto ao seu programa económico tenho dúvidas que com a degradação diária que a situação da divida francesa tem tido e pior a começar a ter um décitit entre as exportações e importações que a França nunca teve, terá muitas dificuldades em sequer tentar implementá-la.
Neste momento o capital já foge da Bolsa Francesa em antecipação da vitória de Hollande.
É assim que começa e é só uma redução de rating e a espiral começa como para os paises mais fragilizados.
Abraço


De Luís Naves a 30 de Abril de 2012 às 19:20
agradeço estes comentários e o link do nelson


De lucklucky a 6 de Maio de 2012 às 18:26
"O caso espanhol é nítido: segundo os economistas, cortar brutalmente na despesa pública numa economia que não está muito endividada e onde o desemprego ronda os 25% é pura loucura."

Quais economistas? Não está muito endividada!? Se não está muito endividada então porque é que os juros são o que são mesmo com o BCE a imprimir moeda virtual e mascarar as coisas?

"Portugal tentou fazer isso durante a década anterior e só conseguiu taxas medíocres."

?! desculpe mas défices de 4 a 11% para crescimento de 0-2% não é crescimento é recessão diferida.

Se o Estado pede 5% do PIB emprestado e o "crescimento" é 1% como é que se paga os 4% que faltam?

Até agora a solução tem sido deixar aumentar a Dívida Pública e aumentar Impostos.

As 3 décadas anteriores de "free ride" deste Regime e dos seus políticos ao poderem passar a dívida publica de 15% para 80% quase sem custos impossíveis acabou. Agora estamos com uns 110% de Dívida Publica.

Este texto mostra mais uma vez a falar de impostos e eurobonds como estão loucos. Continuam obcecados pelo dinheiro - como se a sua mera impressão ou taxação criasse riqueza - e querem dar ainda mais dinheiro aos políticos.
A palhaçada das reformas estruturais é a mesma coisa. É impossível fazer reformas estruturais em regimes sociais democratas. A corrupção social é a razão de ser do regime.


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