Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Forte Apache

O barroco português

Luís Naves, 02.05.12

 

Os portugueses têm esta interessante característica de conseguirem discutir assuntos acessórios durante eternidades, para não haver mais tempo para abordarem os temas verdadeiramente importantes. Isto evita discussões difíceis mas também dificulta que o país enfrente muitos dos seus problemas. Os eternos debates sobre as ínfimas bolhas de espuma ajudam a distrair os incautos e torna-se mais fácil esconder a sujidade debaixo dos tapetes.

É um sistema confortável, esta nossa forma de lidar com as crises, seja no casamento ou no local de trabalho, na escola ou nas relações com os vizinhos. Acho mesmo que se trata de um fenómeno ausente em outros países que conheço, onde a franqueza é a atitude que se espera dos concidadãos. Nós preferimos sempre as aparências, a pose convicta e sem conteúdo, em vez da sempre incómoda busca da verdade.

 

As discussões mediáticas das últimas semanas têm sido férteis neste nosso sistema de chutar para canto. Por causa de um jogo de futebol onde o campo estava inclinado, soube-se que 80% dos clubes têm salários em atraso, mas ninguém discutiu isso. Nas comemorações do 25 de Abril, gastaram-se rios de tinta a discutir a quem pertencia o regime, como se este país não fosse uma banal democracia parlamentar, mas uma espécie de teocracia. Falaram as vacas sagradas e os bonzos, os pais disto e daquilo, dizendo que a revolução não era para todos, mas era de alguns.

O Dia do Trabalhador continuou na mesma lógica de marca registada. Um episódio de saldos cujo exagero gerou uma corrida desenfreada dos consumidores produziu a maior indignação entre os donos do 1º de Maio, que preferem a solenidade de sacristia dos discursos balofos sobre o trabalho; mas também indignou as classes ditas superiores, convencidas de que o povo não tem o direito de fazer figuras tristes para conseguir um desconto de 50%.

 

Este é de facto um país de indignações inúteis, que durante muitos dias não conseguiu dedicar uns minutos a reflectir sobre a crise em que vive. Ela exige muito da maioria de nós, da classe média com a corda na garganta, dos desempregados sem esperança, dos idosos sem futuro, mas não merece uma discussão séria.

A crise não é apenas financeira, mas de valores, manifestando-se através da imbecilização das massas alimentada pelos media contemporâneos, cada vez mais superficiais e efémeros. A civilização do espectáculo (tudo hoje é fogo de artifício) não nos deixa pensar seriamente naquilo que nos rodeia e, talvez por isso, preferimos as banalidades, sobretudo na cultura que consumimos. Em Portugal, triunfou uma visão barroca da vida, convencional e cheia de regras formais, que evita a sinceridade. Em profunda contradição com o mundo lá fora, que é da Era do explícito, não fazendo grande sentido alegorias, esquivas e ornamentos. 

 

Sendo assim, no dia dos trabalhadores não se discutiu a realidade actual do trabalho ou as transformações que se adivinham, com o desemprego em massa que a automatização está a provocar lentamente. Os sindicatos parecem gado a caminho do matadouro, com o seu discurso de século XIX a reflectir um mundo do trabalho que já não existe e não voltará.

Dias antes, perdera-se a oportunidade para discutirmos os problemas que os sistemas democráticos exibem nos dias que correm, com a ascensão dos populismos de esquerda e de direita, uma rebelião dos eleitorados que em vão os dirigentes se esforçam por esconder. E esses movimentos também vão chegar um dia a Portugal e já se adivinham em certos discursos, mesmo na elite, contra os banqueiros gananciosos e os políticos todos iguais na sua alegada corrupção. A sociedade mediática, que continua cega, vai alimentando o monstro.

Enfim, preferimos aqueles temas que não abanam o barco do consenso politicamente correcto. É talvez uma velha sabedoria que nos dá alguma paciência, mas o certo é que a franqueza não cabe nestas paragens. E isso tem um custo elevado onde não há descontos de 50%.

 

3 comentários

Comentar post