Quinta-feira, 22 de Setembro de 2011
por Pedro Correia

Levanto dinheiro de um multibanco. Junto às teclas, dois talões deixados por anteriores utentes. Reparo neles quase por instinto: um indica uma conta corrente de 5.748 euros, outro é de apenas 150 euros. Ponho-me a pensar nas disparidades existentes, neste tempo de grave crise económica em Portugal, entre pessoas com quem nos cruzamos a toda a hora no acaso das ruas. Há quem viva com algum desafogo quotidiano, apesar de tudo, e há também quem chegue ao fim do mês com saldo negativo – e sabe-se lá com que angústia para conseguir pagar as contas. Pouco antes de mim, duas pessoas certamente com espírito muito diferente passaram por aquela máquina. Uma deve ter olhado para o talão com ar de alívio, a outra mirou-o provavelmente com um nó na garganta.

E logo depois ambas se dissolveram na multidão. Como distingui-las nesta infindável torrente de rostos anónimos?


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12 comentários:
De Blondewithaphd a 22 de Setembro de 2011 às 17:16
Fogo... este texto "impactou-me"... À séria.


De Pedro Correia a 22 de Setembro de 2011 às 18:01
Foi o que me aconteceu ao ver aqueles dois talões deixados ali, no multibanco. Tão idênticos e reflectindo duas realidades tão diferentes.


De Joao a 22 de Setembro de 2011 às 17:18
O primeiro pode ter pedido há pouco tempo um crédito de 5700€ para comprar um opel corsa usado com 100.000km, enquanto o segundo pode ter acabado de comprar um A5 e por isso estar um pouco em baixo de fundo maneio...


De Pedro Correia a 22 de Setembro de 2011 às 18:01
Podemos imaginar qualquer coisa. Mas os números eram estes.


De Nuno Oliveira a 22 de Setembro de 2011 às 18:11
Excelente post.
Também uma vez espreitei um talão abandonado numa caixa multibanco. Como era só um, comparei-o com a minha realidade... Era diferente, sem dúvida.
No entanto a experiência que o Pedro passou e partilha connosco foi indubitavelmente mais rica.

A crise irá custar a todos.
A uns bem mais do que outros.
Alguns não terão dinheiro suficiente para a pagar.

É triste.


De Pedro Correia a 22 de Setembro de 2011 às 18:50
Triste, de facto. Obrigado pelas suas sentidas palavras, Nuno.


De CNS a 22 de Setembro de 2011 às 18:49
Fiquei a pensar especialmente frase com que termina este texto. Como distingui-las? Daria sem dúvida uma boa estória. Mas boa apenas no sentido plástico da palavra...


De Pedro Correia a 22 de Setembro de 2011 às 19:04
Sem dúvida, Cristina. E há tantas histórias destas por aí...


De Ricardo Vicente a 25 de Setembro de 2011 às 16:41
Quando um estrangeiro me diz que Portugal "is a very catholic and poor country" respondo-lhe sempre que Portugal é sobretudo muito desigual e muito esquerdista.

A desigualdade na redistribuição do rendimento é uma coisa pouco falada em Portugal, apesar de isso ser mais distintivo nas comparações com outros países europeus do que a pobreza.


De Pedro Correia a 25 de Setembro de 2011 às 16:48
É verdade, Ricardo. Fala-se muito pouco disso.


De João Severino a 26 de Setembro de 2011 às 17:55
É fácil distingui-las... as que ainda riem e as que já nem falam.


De Pedro Correia a 26 de Setembro de 2011 às 23:36
É isso, João. E não dá vontade nenhuma de rir, infelizmente.


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