Sábado, 12 de Maio de 2012
por Luís Naves

Criou alguma sensação a descoberta, na cidade arqueológica de Xúltun, na Guatemala, de tabelas interpretadas como um calendário Maia 500 anos mais antigo do que os já conhecidos. O achado confirma que a previsão Maia do fim do mundo em Dezembro de 2012 não passa de uma interpretação errada dos complexos calendários deste povo. Os historiadores sabem que o calendário Maia é infinito e nesta cultura não existe conceito do fim do tempo, mas o que dizem não é ouvido.
Por muito que o repitam, as pessoas preferem acreditar em mitos, tal como no passado os próprio Maias acreditaram nas histórias contidas num livro que por milagre sobreviveu ao colapso desta civilização, o Popol Vuh, o “livro da comunidade”, onde se descreve em termos muito obscuros a criação do mundo, com um início curiosamente semelhante ao de outras narrativas que serviram de base a religiões: “Esta é a história de como tudo estava em suspenso, tudo calmo, em silêncio. Sem movimento, parado, e o imenso céu estava vazio”.
Num dos capítulos seguintes, contam-se as aventuras de duas personagens inocentes, Hunahpú e Xbalanqué, rapazes concebidos de forma miraculosa por uma caveira ligada à Terra e escondida na floresta, cujo cuspo impregna uma jovem. Pois, os dois heróis são levados para o submundo e conhecem vários espaços, como a casa da perdição, a do frio, a dos morcegos. É ali que os deuses de Xibalba, o lugar do medo, tentam matar os dois rapazes. A história prossegue com o regresso dos dois heróis e o seu triunfo sobre os deuses.

 

A civilização Maia terá sido vítima de alterações climáticas e o que resta encontra-se por vezes escondido na vegetação, não passando de ruínas esquecidas pelo tempo. Na península do Iucatán, no México, a vida continuou após a queda e os povos maias reconhecem-se hoje pela sua menor estatura e maior pobreza, em comparação com os restantes índios e mestiços da população mexicana.
A visita ao submundo é algo que não se recomenda a um turista impressionável. Em algumas pirâmides há caminhos no interior que reproduzem a viagem subterrânea dos dois heróis do Popol Vuh, a viagem mística pelas fronteiras da morte, começando pela escuridão, depois sentindo o frio, a sufocação e o calor extremo, o medo absurdo de pisar animais que ali se possam esconder, o desvario de querer sair, o quase pânico de não saber se a pirâmide colapsa naquele instante ou se nos devora com o seu peso esmagador. Depois, no fim do caminho, de repente e quando já morria a esperança, a luz tão brilhante da liberdade, o alívio do ar, a sensação de viver.

 

Na cidade de Izamal, perfeitamente mediana e construída em torno de duas pirâmides maias de grande porte, tive uma experiência estranha, não propriamente do tipo místico, mas facilitada por uma espécie de encantamento. Alimentada por uma disposição de credulidade, a imaginação do turista pode pregar partidas.
Havia passeios numa espécie de tipóia antiga puxada por um melancólico cavalo, mas já era de noite e restava apenas o luar. A certo ponto do percurso, não havia ali ninguém, nem se ouvia algum rumor. Tudo silencioso, tirando o trote do cavalo e as rodas do veículo a roçarem na estrada. As montanhas de pedra erguiam-se uma de cada lado, solenes, como se saudassem a lua, que parecia ter inchado. E a brisa parou, caindo um manto espesso sobre a respiração do mundo, e soava em silêncio o fim do tempo. Tudo suspenso, tudo calado, e não me teria surpreendido se os deuses do medo saíssem de cada pedra e me tivessem agarrado pelo braço, para me mostrarem o submundo, a casa dos morcegos, a casa do frio e tudo o resto, depois o início.


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