Domingo, 13 de Maio de 2012
por Luís Naves

A frase do primeiro-ministro sobre os desempregados é de extrema infelicidade. Não há volta a dar. Ver no desemprego uma oportunidade é, obviamente, disparate, embora essa situação possa ser oportunidade para uma minoria de pessoas, como foi para o autor destas linhas, já num passado remoto. O sentido da frase, julgo eu, é de que ninguém pode baixar os braços e cair no desespero. Fácil de dizer, claro.

Que Pedro Passos Coelho queira falar do estigma social que atinge os desempregados já me parece mais positivo, pois a sociedade portuguesa tem de se adaptar a níveis elevados de desemprego e as pessoas não podem continuar, lá num cantinho das suas mentalidades, a pensar que um desempregado é uma pessoa que não se esforçou. Estas ideias persistem, infelizmente, e começam no Estado.

A vida de um desempregado é um pouco como a de Sísifo. Condenado a carregar um peso até ao topo da montanha, há sempre um momento em que vem tudo por ali abaixo e é preciso recomeçar.

 

Dito isto, julgo que a grande comoção mediática em torno da declaração infeliz revela o que aqui já escrevi sobre a nossa preocupação constante com a espuma, como se fazer política fosse melgar o juízo ao povo. Sabem? Falo daquela situação da melga que conseguiu ficar dentro do quarto e que nos acorda ao longo da noite por diversas vezes com o seu zumbido irritante e monótono; segue-se a fase da caça, mas a melga é sempre mais esperta do que o sonolento desesperado. E no fim ninguém dorme.

A frase não revela mais do que um governo que repete constantes inépcias comunicacionais e que em cada novo episódio consegue ficar mal na fotografia. O anterior governo era bom na comunicação e mau a governar. Este, que está a cumprir um programa difícil, revela assustadora incapacidade para comunicar a urgência das suas decisões. E aqui acho que nos devemos comparar com a Grécia e juntar à reflexão as numerosas observações que têm sido feitas sobre o caso grego.

 

De um lado, temos um país que tem cumprido os compromissos que assinou. O memorando da troika foi negociado por um partido e está a ser cumprido por outros dois. O governo tomou todas as decisões difíceis, sabendo que eram impopulares e penosas. Apesar da hostilidade da imprensa e dos comentadores, o facto é que esta estratégia (que os irlandeses também seguiram) se revelou eficaz: em nenhuma reportagem internacional vejo associados os nomes de Portugal e da Irlanda ao da Grécia.

Temos desemprego, recessão, incríveis sacrifícios. A classe média está a ser esmifrada. E temos de resistir, tentando poupar, cortando em gastos. Desde o momento da assinatura do memorando, esta crise levará pelo menos quatro anos a superar. É preciso paciência, mas o governo comprometeu-se a aplicar reformas difíceis e, caso consiga cumprir, será o programa reformista mais ambicioso da nossa democracia.

 

Comparem com a Grécia. No momento em que escrevo, decorre uma última e desesperada tentativa para formar governo. Os partidos estão a comportar-se de maneira irresponsável, mas o eleitorado grego não esteve melhor. O abismo com que o país se confronta é fruto de uma sociedade que encarou de forma inconsciente o seu futuro, dando demasiados votos a partidos que querem escaqueirar o sistema. Os observadores falam nos méritos da democracia, que é preciso ouvir o povo e respeitar o voto soberano, os mesmos observadores que se comovem com as multidões dos chamados indignados, que contestam na rua um governo espanhol que teve maioria absoluta há meia dúzia de meses.

Nesta conjuntura, existe o direito à indignação, mas os gregos querem sol na eira e chuva no nabal. Querem o euro sem cumprirem os acordos com a troika que os sustenta. Venha o dinheiro sem obrigações, como se isso fosse possível. Ao contrário do que muitos afirmam, a Grécia não pode ser expulsa do euro, mas ameaça arrastar outros países para a tempestade financeira. E eles sabem usar esse poder de chantagem, ou julgam saber. Os que se comovem com a situação grega devem lembrar-se que Portugal teve um ligeiro agravamento do seu risco de financiamento por causa dos resultados eleitorais na Grécia. Agora, eles querem tranquilamente fazer novas eleições, para ainda ser pior, e os comentadores debitam aquelas teses do respeito pela democracia, o voto soberano, que a culpa é dos alemães (esses não votam).

 

Uma parte da elite portuguesa que domina o comentário político ainda não percebeu que a estratégia para a crise europeia está definida e não vai mudar no essencial. Se não formar governo ainda hoje, julgo que a Grécia terá de sair do euro, indo para incumprimento. Isso provocará uma crise, mas muito inferior à que alguns imaginam, pois a dívida grega já foi inteiramente transferida dos bancos europeus para os contribuintes europeus (leia-se alemães e franceses). Vai ter um custo adicional segurar o sistema financeiro grego, mas se o mundo sobreviveu à bancarrota argentina, também sobreviverá à da Grécia.

O caos e a tragédia serão sobretudo para os gregos, que acordam num mundo ainda mais cruel do que aquele que conhecem. Será também interessante ver o que François Hollande vai dizer sobre o assunto, no primeiro teste do algodão socialista. Temo que não seja muito favorável às teses dos soberanistas gregos.

 

A Europa, obviamente, vai sobreviver a tudo isto, o euro não acaba, e muito menos o eixo franco-alemão. Habituem-se à expressão Merkollande.

Portugal é pequenino, meteu-se numa situação difícil e não tem opção. Está a fazer sacrifícios extremos e poderia beneficiar de uma suavização das metas orçamentais. Mais um ano de programa de ajustamento seria excelente. Poderemos obter mais verbas europeias, mas era bom que fosse suspensa a comparticipação nacional, para não crescer a dívida.

O caminho pragmático é difícil, mas é preciso não levar muito a sério as melguices da política superficial, que só desvia para canto a discussão. Temos de evitar a todo o custo o caminho da Grécia, onde as elites políticas e a própria população não entenderam que a alternativa aos sacrifícios era um recuo de vinte anos, na direcção da irrelevância. No fundo, Portugal está também na situação de Sísifo, condenado a levar um peso insuportável colina acima. A tarefa é interminável e frustrante, punição pelo nosso orgulho. No caminho, teremos adversidades e até desaires, podemos fracassar e desistir, mas não é possível cumprirmos a tarefa sem um bocadinho de esperança, de que existe aqui uma centelha de oportunidade. Não temos de cumprir à letra o mito.          


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3 comentários:
De Tiro ao Alvo a 13 de Maio de 2012 às 14:42
Reparou que o nosso Primeiro Ministro(PM) estava a falar na tomada de posse do "Conselho para o Empreendedorismo e a Inovação"? Considera um despropósito falar para aquela gente no tom e na forma como o PM falou?
Não acha esquisita esta campanha contra o PM? Ouviu o que disse o ministro das Finanças, sobre o mesmo tema? Não estaremos, todos, a gastar energias com umas ideias tão evidentes e tão banais, que, quando ditas por outrem, não merecem contestação?


De Desconhecido Alfacinha a 13 de Maio de 2012 às 18:22
Excelente analise, optimo Post. Obrigado!


De Luís Naves a 13 de Maio de 2012 às 22:16
obrigado pelos comentários. Julgo que Tiro ao alvo tem razão em dizer que a afirmação que serve de mote a esta crónica está a ser muito empolada


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