Miguel Cadilhe sempre teve má imprensa. Na aldeia que é a comunicação social portuguesa imagino que o homem terá ofendido alguns bonzos; denunciou em tempos alguns erros graves do consulado cavaquista, ferindo a mitologia do PSD, que encara aquela década como dourada; escreveu um livrinho em que defendia a utilização do ouro do Banco de Portugal para uma gigantesca reforma da Função Pública, incluindo um ambicioso plano de despedimentos; e é do Porto e arrogante.
Só defeitos, portanto. Pois sim: mas imaginemos que as leis processuais e penais não são um cuidadoso campo de equívocos e minas; que o Ministério Público não deixa passar a imagem de um aglomerado de tribos com opiniões e simpatias e antipatias políticas; que o PGR tem efectivamente autoridade e responde perante a opinião pública e a Assembleia da Republica pelas acusações que dão em nada, os processos que se arrastam até à prescrição e a impunidade de que gozam quantos encheram os bolsos ou, no mínimo, deram provas de indesculpável estupidez na gestão da coisa pública.
Então, esta denúncia teria resposta. E é por não a ter, e quase não haver esperanças de que a venha a ter, que o eleitor comum acha que os políticos são uma casta de ladrões, as instituições um coio de patifes e a vida pública um espectáculo degradante.
É deste caldo que saem os salvadores da Pátria, as ditaduras iluminadas e as revoluções. Estamos ao abrigo disso? Aparentemente, sim - como as pontes cujos pilares vão sendo insensivelmente sapados pela corrosão, até um dia.