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Forte Apache

Os dias da definição

Luís Naves, 17.05.12

A Grécia está a sofrer intensa pressão para votar da forma correcta nas próximas eleições legislativas, mas pode ser demasiado tarde, pois analistas conhecedores já esperam que Atenas saia do euro mesmo antes de votar.

Dá pena ver este espectáculo de chantagem política e, sobretudo, financeira, sendo esta a mais dura. Um país cheio de políticos que diziam com orgulho o equivalente a "estou-me a marimbar para os bancos" vive agora com corridas descontroladas às poupanças, a transferência da riqueza para o estrangeiro, o pior pesadelo.

Portugal está ainda longe desta irresponsabilidade, mas para lá caminha. Há crescente ilusão de que é possível mudar a estratégia para corrigir a zona euro e repetem-se os comentários que culpam os alemães, que tratam Angela Merkel como se fosse louca ou exigindo que a factura seja integralmente paga por Berlim. Estes analistas omitem a nossa posição de extrema fragilidade. Quem se põe de mão estendida, não dá ordens aos seus raros amigos.

O aparecimento de François Hollande na equação também mudou o discurso a políticos ou comentadores. De repente, fez-se a luz: a solução está nas "políticas de crescimento", expressão que significa investimento público que não se sabe de onde vem e quem pagará. Angela Merkel concorda, David Cameron repetiu-o há minutos, mas geralmente não se acrescenta que ambos dizem algo de muito diferente de Hollande. A chanceler alemã quer reformas estruturais, o primeiro-ministro britânico menos regulação.

 

O Financial Times escrevia hoje que as eleições gregas serão um referendo sobre a permanência da Grécia no euro, o mesmo referendo que os europeus não quiseram em Outubro. Mas o problema estava na pergunta. Se fosse sim ou não ao euro, quase toda a gente teria dito sim, mas desta vez a pergunta é outra, a meu ver a correcta: vamos ou não cumprir os compromissos que assinámos.

Em Portugal, muitos ainda não compreenderam que é impossível interromper o processo a meio sem irmos pelo caminho grego. As "políticas de crescimento" baseadas em mais despesa pública são quimeras e não vão acontecer.

A Europa tem a obrigação de ajudar Portugal, mas apenas se o nosso país cumprir aquilo a que se comprometeu e que sustenta o resgate. Ou no caso, por exemplo, de não se confirmarem as teorias de que o equilíbrio das contas públicas só produz crescimento, ideia na base do plano de ajuda externa.

 

As análises que dão os alemães como os culpados da crise são outra fantasia. É confundir culpa com responsabilidade. E Angela Merkel tem condições para ganhar as eleições do próximo ano, apesar das derrotas que o seu partido sofreu a nível estadual. A questão europeia não foi o tema das campanhas regionais e a estratégia da chanceler é popular no país. Os alemães querem uma coligação CDU-SPD e ainda podem mudar de ideias, favorecendo a actual coligação.

Por outro lado, se a UE não conseguir ratificar o Pacto Orçamental, o euro corre sérios riscos de acabar, pois isso significa que os ciclos eleitorais impedem reformas no sentido da união política e orçamental exigida para resolver a crise. Sem mecanismos de fiscalização e sanção, os países que entraram em loucuras voltariam a prevaricar. Os alemães não querem participar num sistema onde pagam muito sem terem qualquer controlo sobre a dimensão da factura. As notícias que mostravam as manchetes dos jornais gregos com Merkel vestida de nazi também ajudaram a alienar a opinião pública alemã, que hoje tem uma ideia da sociedade grega incompatível com grandes gestos de solidariedade. Viveram muito acima das posses, mentiram todo o tempo, foram à falência, estamos a sustentá-los e ainda nos insultam. 

 

Em resumo, a situação na Europa está a acelerar e acabou a boleia dos gregos. Entrámos na fase da definição.

As eleições de 17 de Junho, provavelmente, vão ditar uma solução radical e a Grécia poderá sair do euro logo a seguir. Ou a chantagem europeia funciona e um calafrio de bom senso toma conta dos eleitores.

Os mercados já esperam a saída dos gregos e, entretanto, outros países sofrem os efeitos da instabilidade. A Espanha, por exemplo; Portugal, também. Os gregos prejudicaram-nos com a sua cegueira, mas convém não esquecer que a Grécia é um pequeno país e certamente haverá um plano europeu para ajudar Atenas a sair do euro de forma controlada, protegendo todos aqueles que querem permanecer. Para os gregos será um recuo de 20 anos, mas é a sua escolha.

Os americanos estão naturalmente preocupados com a situação na Europa. O colapso do euro, embora seja um acontecimento improvável, provocará uma crise internacional de grande dimensão, com impacto na economia americana e efeitos colaterais nas eleições de Novembro. Obama poderia perder a reeleição, o que paradoxalmente agravaria a crise, pois baixariam as probabilidades do sistema financeiro mundial ser reformado. Sem essas reformas, a próxima crise será bem pior do que esta.

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