Quinta-feira, 24 de Maio de 2012
por Luís Naves

Ao ser anunciado o Prémio Camões deste ano, pensei que desconhecia totalmente o vencedor, o contista brasileiro Dalton Trevisan. Afinal, tinha dois dos seus contos numa antologia na minha biblioteca e lera um dos textos, O Vampiro de Curitiba, prosa cheia de humor e com linguagem atrevida, brilhante.
A antologia tem por título Os Cem Melhores Contos Brasileiros e li a maioria dos textos, mas aparentemente passei ao lado do segundo conto de Trevisan que consta da colecção, Uma Vela por Dario (ou se li quando comprei o livro, não apanhei bem a ideia, esquecendo o essencial).
O conto é ainda superior ao outro, de uma crueldade que nos tira a respiração. Um homem de aspecto rico e bem vestido chamado Dario, que caminha pela rua, tem uma síncope e fica prostrado, perante o interesse crescente dos transeuntes. Em frases curtas, incisivas, o escritor conta como a multidão se alimenta do moribundo e, depois, do cadáver, numa mistura de indiferença e curiosidade mórbida. O homem é literalmente despido, roubado, abandonado à sua morte, perde a identidade e classe social. Termina como simples corpo anónimo e abandonado, quase indigno de pena. O conto é brutal e bastavam estas quatro ou cinco páginas para mostrar as enormes qualidades deste escritor.

A literatura portuguesa, infelizmente, não tem a tradição do conto. Os leitores não gostam de comprar livros com histórias curtas e os novos escritores têm de se afirmar imediatamente no romance. Não há publicações especializadas, como acontece em outros países, e mesmo os autores mais experientes evitam o formato curto, concentrando a sua arte em obras de maior fôlego.
A escrita de contos é difícil, a começar pela necessidade de ter uma ideia forte, criar atmosfera em poucas linhas, definir personagens em pinceladas quase invisíveis, inventar diálogos económicos e ainda um remate eficaz. Não há espaço para digressões inúteis, para figuras secundárias ou reflexões complicadas. Mais difícil ainda é conseguir a originalidade, um estilo pessoal, a linguagem certa.
Uma Vela por Dario tem tudo isto e ainda aquele elemento de golpe de asa sem o qual o conto era apenas interessante. No caso, é a vela que um miúdo descalço coloca ao lado do corpo de Dario, e que o vento apaga. Sem a vela do título, o texto perderia a força. O truque dos mestres é mais fácil de ver na pintura: com um dedo tapamos a pequenina mancha de cor ou o detalhe na composição e a obra de génio afunda-se na banalidade. Tiramos o dedo, vemos de novo o conjunto, e brilha um esplendor tremendo.

 

Encontrei aqui o conto de Trevisan, já depois de escrever o post, que também podem ler neste lugar.

 


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