Segunda-feira, 28 de Maio de 2012
por Pedro Correia

 

Aos 89 anos, recém-festejados, aquele que é o maior pensador português contemporâneo continua a proporcionar-nos as mais estimulantes reflexões sobre o destino lusitano e a nossa relação sempre dilemática com o mundo que nos rodeia. Talvez porque se trate do ponto de vista de um "estrangeirado": Eduardo Lourenço observa há seis décadas Portugal a partir do exterior, que é sempre de onde melhor se analisa esta velha nação que durante séculos condenou alguns dos seus melhores filhos ao exílio.

Uma entrevista resulta quando consegue surpreender o leitor e levá-lo a reflectir no meio do ruído informativo que a todo o momento nos devolve o eco de ecos anteriores. É o caso desta, publicada no diário i e conduzida por Maria Ramos Silva, que revela um mérito raro: a jornalista sabe dialogar com o entrevistado, sabendo de antemão que a notícia ali é o que ele diz, não o que ela possa pensar.

«Temos uma identidade logo ao nascer que nos é dada pelo facto de nascermos de uma mãe. Depois há que reencontrar a mãe. De alguma forma perdemo-nos da mãe e a mãe se perde de nós. O homem tem que reinventar uma coisa que lhe dê uma ideia que existe. Mas uma pessoa não tem uma identidade como quem tem uma estatuazinha dentro de si. Temos a impressão que não somos nós que vemos o sol mas é o sol que nos vê, antes de mais. Quando se perde isso ficamos numa solidão absoluta. Pessoa deu conta disso como ninguém e teve que inventar de uma maneira virtual esse outro tu, sem o qual era um Ulisses à procura de uma Penélope, que para ele nunca existiu. Toda a gente se reconhece nessa solidão, a solidão de que estamos num mundo em que não conhecemos o sentido do começo, nem do meio nem do fim.»

Palavras lapidares de mestre Lourenço, que nas suas frequentes viagens ao país natal traz sempre na bagagem um exemplar d' Os Lusíadas. Palavras que continuamos a ter o privilégio de escutar através da escrita.


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