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Forte Apache

À beira do fim *

Luís Naves, 30.05.12

Os leitores que seguem os meus posts sabem que discordo do comentário político dominante sobre questões europeias. Parece haver um desejo escondido de que tudo corra mal, à mistura com previsões catastrofistas que nunca se confirmam. Aliás, é nítida a forma como muitos comentadores em Portugal dispensam avaliação e, inclusivamente, são até libertados pelos seus leitores da necessidade de acertarem de vez em quando na interpretação da realidade. A blogosfera está cheia destes sucessos de audiência, cassandras que não acertam uma.
O clima em relação à actualidade revela tendência para pensamento único na ideia de que a estratégia alemã para salvar o euro é uma desgraça e de que a “senhora Merkel” (nunca é chanceler, mas mulher, loura, burra e de leste) tem cerca de três neurónios e só consegue usar dois de cada vez. Portugal, claro, está a afundar-se numa depressão sem saída: as boas notícias são sempre relegadas para um cantinho da página ou convenientemente esquecidas. Afirmar que já fizemos o mais difícil e há sinais de que a situação económica pode dar a volta no próximo ano é equiparado a propaganda. Quem tem razão é o PS, cuja estratégia política aposta em que tudo corra pelo pior dos mundos (como é que eles vão descalçar a bota se a conjuntura melhorar, esse é o mistério). A diabolização dos políticos é outro elemento da discussão, este a meu ver perigoso, pois vai ferir os partidos tradicionais e alimentar a emergência de correntes radicais, dos populismos que podem fazer parte da paisagem futura da nossa política. Podia aqui acrescentar ‘depois, não se queixem’, mas é inútil, os gurus vão dizer que tinham razão e que o aparecimento de franjas indigestas não tem nada a ver com a mantra demagógica que repetiram durante anos.

 

Amanhã, os irlandeses vão votar em referendo sobre o Tratado Orçamental Europeu (TOE) e, caso votem ‘sim’, vamos ouvir muitos comentários segundo os quais isso resulta da chantagem exercida pelos europeus sobre os pobres dos eleitores. Já decidiram que é um mau tratado e dispensam a explicação.
Na realidade o TOE reflecte a união política possível nesta fase do campeonato. O euro nasceu torto e sem instituições que o suportem e a prioridade da reparação que está a ser feita em pleno voo vai inteiramente para a questão na origem da crise: alguns países endividaram-se depressa por não haver um controlo conjunto dos orçamentos de cada Estado. No fundo, o TOE altera o actual Pacto de Estabilidade e Crescimento, que nunca funcionou, pois não tinha mecanismos de fiscalização orçamental, não permitia resgates e cujos objectivos eram fáceis de ignorar. O novo tratado introduz a regra de ouro (de preferência nas Constituições, mas não é obrigatório) que limita os défices estruturais a 0,5% do PIB (1% para os endividados), terá sanções para quem não cumprir e um mecanismo para financiar ajuda a países em dificuldades (portanto, dinheiro emprestado directamente aos Estados).


Os críticos do TOE dizem que as metas são difíceis (é verdade) ou que era necessário mais união política ou que esta é excessiva. O facto é que, com as regras anteriores, o euro não poderia sobreviver e os eleitores não estão dispostos a aceitar mais federalismo. Este último é o caso da mutualização da dívida ou dos empréstimos directos do BCE aos Estados (não incluídos neste pacto), duas soluções necessárias, mas que iriam dividir a Europa, pois os contribuintes dos países do norte não estão dispostos a pagar pelos erros dos países do sul. O caso grego é gritante: muitos eleitores gregos dizem sem pudor que não têm de cumprir o que assinaram, pois alguém pagará a conta. A directora-geral do FMI fez um comentário em Atenas  sobre a evasão fiscal e deu a entender que a sua instituição estava a ser desviada da prioridade de ajudar países mais pobres e quase caiu a Acrópole. As criancinhas do Níger, por amor de Deus, quem quer saber delas!

Se o referendo irlandês se pronunciar por um ‘não’, os comentadores vão dizer em coro que a Europa rejeitou a solução alemã e dirão também que os povos europeus não querem o que está sobre a mesa. Se os irlandeses votarem ‘sim’, terá sido a arrastar os pés e com extrema relutância, pois os povos europeus querem o fim imediato da austeridade. As sondagens indicam que o ‘sim’ deverá vencer, mas a opinião publicada prepara-se para uma operação de minimização. Ninguém estará disponível para explicar como funcionaria essa zona euro sem regras.
No dia 10, vota-se em França na primeira volta das legislativas. Aqui, o que estará em jogo será a estabilidade do novo poder socialista. Se a Frente Nacional superar a UMP, François Hollande terá um grave problema em mãos, assim como a Europa. Se os socialistas tiverem de ceder muitos lugares no parlamento a partidos da esquerda radical, a França entrará num período difícil. Para os líderes europeus, o melhor resultado é uma boa vitória socialista e os gaulistas a conseguirem resistir ao avanço da FN. Tudo indica que Hollande consegue uma maioria confortável, que não haverá coabitação e que, em poucos dias, a Europa terá a sua segunda vitória eleitoral. Os comentadores serão unânimes na ideia de que venceu o povo que deseja outra Europa e o fim da austeridade.

 

No dia 17, segunda volta em França e legislativas gregas, estaremos na terceira votação consecutiva com largo impacto europeu. Se os partidos anti-resgate vencerem e conseguirem formar governo, a Europa terá um grave problema para resolver, sendo forçada a uma negociação difícil com o novo governo de Atenas, presumivelmente de Alexis Tsipras. E uma negociação tem sempre a possibilidade de não ser bem sucedida. A Grécia terá alguma probabilidade de sair da zona euro, mas também pode renegociar o seu programa de ajustamento (seria um novidade vermos a esquerda radical a aplicar medidas de austeridade, embora mais suaves). No entanto, as sondagens indicam que a direita (Nova Democracia) tem boas hipóteses de vencer as eleições e de formar governo com o outro partido pró-resgate, PASOK (socialistas). Aí, os comentadores dirão que a chantagem europeia resultou, seguindo-se um governo que vai renegociar algumas partes do acordo com os credores. No fundo, foi uma rejeição nítida da austeridade.

 

Entretanto, a realidade prossegue o seu caminho. A terceira vitória da estratégia europeia permitirá uma cimeira de junho com franca possibilidade de um acordo global sobre a continuação das reformas estruturais, a ratificação do Tratado Orçamental, um estímulo à economia financiado com dinheiro do orçamento europeu e a futura taxa sobre transacções financeiras, além de uma solução para o problema bancário espanhol, nesta fase o maior problema que o euro enfrenta.
Se o tratado não fosse para a frente ou se as posições de Hollande não fossem acomodadas pela Alemanha, pelo menos de forma parcial, a Europa estaria em profundas dificuldades e a sobrevivência do euro seria uma mera questão de tempo. No mínimo, teria de ser concebido um plano alternativo passando pela desunião monetária; a Grécia seria a primeira vítima e Portugal ficaria na fila da guilhotina financeira. Mas crescem os sinais de que pode haver uma sequência de três vitórias nas urnas, seguidas de uma cimeira sem divisões importantes entre os Estados europeus. Que dirão os comentadores? Que estamos à beira do fim. Mas a realidade é outra: este pode ser o momento em que finalmente é visível o trabalho paciente de Angela Merkel, que em ano e meio de discussões difíceis conseguiu juntar apoio suficiente a uma solução de meio termo que todos podem aceitar.

Infelizmente, dizer isto é propaganda.

 

* A imagem é do filme À Beira do Fim, de 1973, que não tem a ver com a Europa

 

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