Quinta-feira, 7 de Junho de 2012
por Francisca Prieto

 

 

Aqui há uns tempos, uma amiga das lides profissionais que se dedicou a matérias alternativas, foi tirar um curso de numerologia. Já se dedicava a leitura de auras, meditações e afins e resolveu complementar a sua formação de “maga” com o mistério dos números. Depois precisou de uma cobaia para ensaiar as primeiras leituras e, como o resto do grupo desse tempo tem uma paradoxal relação de atracção/pânico por estas coisas, mandou-me à frente para desbastar caminho.

 

Ora cá do meu lado, sou uma rapariga terra-a-terra, de maneira que, achando absurdo que o destino se possa encerrar nos números, nas auras, nos astros, ou no que quer que seja, fui destemidamente enfrentar as profecias matemáticas.

 

Levei logo, para início de conversa, com a certeza de que vivia esta jornada com uma dívida karmica, o que me deixou ligeiramente crente na ciência numerológica. Estupefacta, a minha amiga confessava-me que eu era a última pessoa em quem esperava encontrar tal défice cosmológico, já que me conhece com uma aura de trevo de quatro folhas.

A dívida, sei eu muito bem como foi aniquilada, mas não é assunto sobre o qual vá dissertar agora.

O que interessa desta lengalenga é que passei a olhar para a vida como sendo merecedora de tudo e de mais um par de botas a que possa ter direito. Assim que me aparece uma qualquer oportunidade pela frente, lembro-me da tal da dívida karmica e apresso-me a aproveitar enquanto é tempo, não vá o cosmos lembrar-se subitamente de encarnar o cobrador do fraque.

 

Foi então assim que, na semana passada, à primeira deixa, me atirei para dentro de um avião, rumo a São Paulo, onde vive uma grande amiga que disponibiliza estadias grátis em troca de boa converseta. A par comigo, seguiu um terceiro elemento que completou o trio das amigas do coração, encerradoras de segredos milenares, jamais divulgáveis para lá dos limites da confraria.

 

Marido e filhos na vida quotidiana de cá e eu, por lá, a gozar à tripa forra o privilégio de me terem sido concedidos seis dias provenientes directamente do céu.

 

Quando regressei foi-me perguntado se tinha feito muita coisa, se tinha visitado muitos lugares, se tinha visto muita gente. Fui forçada a confessar que, não obstante ter ido um par de vezes ao teatro e a uma ou outra exposição, a jornada, na sua essência, tinha consistido numa longa “pijama party”, tal e qual como quando era adolescente e convidava amigas para dormir em minha casa.

 

Há pessoas com as quais temos uma dinâmica tão peculiar que é irrelevante o lugar do mundo onde nos encontramos. Seja em São Paulo, seja em Lisboa ou até em Calcutá, é certo e sabido que este trio rebenta em gargalhadas guturais pelos motivos menos previsíveis, que se entende sem ser preciso dizer grande coisa e que se respeita nas suas diferenças.

 

De maneira que o que fiz, na prática, foi optar claramente por gozar aquilo que São Paulo de melhor me tinha para oferecer naquela semana, querendo lá saber se alguma personalidade interessantíssima palestrava num auditório da metrópole.

Escusado será dizer que não tive qualquer prurido em sugar a folga até ao tutano, que depois das notícias numerológicas, não me resta qualquer dúvida de que, em qualquer relação com o karma, pelo sim, pelo não, o melhor é garantir créditos. 


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