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Forte Apache

Desmentir Jimmy Stewart

Luís Naves, 11.06.12

Tenho dificuldade em perceber a lógica da esquerda na crítica à situação política. Parece que apostou definitivamente no 'quanto pior, melhor', interpretando todas as informações no ângulo catastrofista. No filme de Capra 'Do Céu Caiu uma Estrela' um desesperado Jimmy Stewart vê como seria o mundo após o seu suicídio. Na vida real não há anjos para mostrarem como seria o mundo sem nós, mas neste caso existe uma aproximação: se não cumprirmos as nossas obrigações, estaremos como a Grécia e, incrivelmente, há quem sonhe com essa hipótese.
O resgate espanhol, que é objectivamente uma boa notícia para Portugal, serve aos olhos da esquerda para demonstrar que a Europa se afunda numa crise que culminará no fim do euro, numa guerra mundial e no encerramento do País para obras. No meio, aparecem apelos à insurreição, como se assinala em post mais abaixo.

Há ano e meio que se ouve a mantra de que a Europa não tem soluções para a crise na zona euro. Muitos observadores e políticos têm dado a táctica segura para resolver o problema em três dias, mas poucos admitem a dificuldade do empreendimento. A questão é sobretudo política e tem a ver com o facto da opinião pública dos países do norte não aceitar a ideia de pagar as dívidas contraídas nos países do sul. Aqui entra sempre o discurso de que a Europa devia ser solidária, mas a Europa é o que é e não o que as pessoas gostariam que fosse. Cada líder responde perante o seu eleitorado, não perante um idealismo teórico que não se encontra em nenhum tratado.


 

A solução da crise da zona euro será altamente negociada e muito complexa. Já se desenha um embrião de instituições: poderes de fiscalização orçamental para Bruxelas e de supervisão bancária para Frankfurt. Uma espécie de 'Plano Marshall' de investimento público e compromissos de reformas estruturais que aumentem a competitividade. Todos os países vão cumprir as metas de défice e dívida, adoptando o Tratado Orçamental. Tudo isto foi negociado em tempo recorde.
Pode argumentar-se que a estratégia alemã subestimou o poder dos mercados e sobrestimou a velocidade a que surgiriam os benefícios das reformas estruturais. Pode argumentar-se que a dose de austeridade está a ser excessiva em alguns países (certamente em Espanha). Mas Portugal fez bem em apostar no cumprimento do memorando da troika. Dizer o contrário não resiste a 30 segundos de contraditório. Portugal concluiu a parte difícil do programa em 2012 e parece lógico o argumento do governo de não prolongar o ajustamento. Quanto mais depressa vier algum alívio, melhor para o país. Ou seja, cumprir o calendário.


Por tudo isto, não percebo a esquerda. Ela só terá razão se as coisas correrem mal e isso é um incentivo para fazer com que tudo corra mal. Mas se a situação melhora gradualmente, como vai conseguir o PS continuar a dizer que está chocado, como disse após a opinião positiva da troika, que era objectivamente uma óptima notícia?
A economia alemã vai abrandar no segundo semestre, o mesmo é provável em França e Espanha, mesmo com resgate. Portugal está a aproximar-se da linha de água, mas ainda em queda económica, e só deverá recomeçar a crescer no primeiro trimestre do próximo ano. Em resumo, há uma estreita janela de seis meses para fazer com que as coisas corram pior e para demonstrar que Jimmy Stewart tem razão em atirar-se ao rio gelado. Em 2013, os apelos do desespero parecerão idiotas: a água está fria.

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