Quarta-feira, 13 de Junho de 2012
por José Meireles Graça

Daniel Oliveira faz aqui uma extensa objurgatória contra as parcerias público-privadas, dizendo a certo passo, com fina ironia: "O esquema é hoje sobejamente conhecido e toda a gente era contra estas parcerias desde pequenino."


Daniel confunde tudo: Se toda a gente soubesse que as parcerias foram negociadas e renegociadas como foram, toda a gente teria sido contra, e não apenas o PCP e o BE. Mas aquelas pessoas que, como eu, partem do princípio que a gestão privada é mais eficiente do que a pública, pela comezinha e humana razão de que não pomos o mesmo empenho a gerir o que é nosso do que o que pertence a outrem, nada têm a objectar às parcerias enquanto princípio - ainda hoje, mesmo depois do desastre que muitas foram e são.


Um exemplo, unzinho, basta: Se o Estado não tivesse garantido em certas concessões de estradas um certo volume de tráfego, provavelmente não encontraria concessionários porque estes não estariam dispostos a correr o risco - e as estradas não se fariam, não nos queixando hoje de estarem desertas e termos que as pagar. Ou far-se-iam, mas assumindo o Estado o serviço da dívida mais a manutenção. E não é difícil perceber que o BE e o PCP, cuja receita para a crise de 2008 era, como ainda hoje é, mais despesa pública para "criar" empregos e "dinamizar" a economia, patrocinariam a obra que o privado não queria, se houvesse quem emprestasse.


Entendamo-nos: não faltam exemplos de empreendimentos privados ruinosos, tanto pequenos como grandes. Mas a sanção natural para investimentos com o risco mal calculado, ou bem calculado mas com alteração imprevisível de circunstâncias, é a falência. E terem os contratos das PPPs eliminado com engenharias jurídicas o risco para o privado, transferindo-o para a esfera pública, é justamente no que consiste o seu pecado original.


Neste processo houve, é claro, bastante calculismo e alguma corrupção de um lado, e bastante ingenuidade e alguma corrupção do outro. Porém, a referência expressa que Daniel faz a Paulo Campos, tornando extensivo a todos os governantes o mesmo anátema de que Paulo Campos é merecedor, é um salto lógico aventureiro com o propósito transparente de tirar a seguinte conclusão: o pessoal do centrão é, todo ele, desonesto. Nas imorredoiras palavras do próprio: "A ver se nos entendemos: não há, nesta matéria, entre o PS e o PSD, qualquer diferença. Fizeram o mesmo, da mesma maneira, pelas mesmas razões, com as mesmas desvantagens para nós e as mesmas vantagens para eles."


Não está mal como raciocínio. Se os eleitores comprarem a tese, temos comunistas, bloquistas e compagnons de route a enxundiarem o Governo e o aparelho de Estado; nos conselhos de ministros os governantes sentam-se na beirinha das cadeiras, para caberem as asas; e os investimentos serão lucidíssimos, porque não há nada que chegue a um cidadão que nunca investiu um cêntimo para decidir com competência o que fazer com o dinheiro dos outros mais o que em nome deles pede emprestado.


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3 comentários:
De jo a 14 de Junho de 2012 às 01:11
Os administradores das empresas privadas que negociaram as PPP não estavam a negociar com o dinheiro deles. Em caso de falência das empresas privadas eles tinham os seus para quedas dourados. Não vejo grande diferença de um gestor público.
Os ministros que passaram para as empresas que benificiaram de contratos de PPPs se calhar eram honestos. Foram enganados e por isso tiveram de sair do Estado.
Não sei se outros seriam mais honestos mas dizer que estes o eram e foram enganados parece-me um pouco forçado.
Quanto à gestão por privados ela é sempre melhor e mais honesta na teoria, mas as PPPs os BPP e os BPN dizem que a teoria falha mais vezes que acerta.
As acções do BCP valem menos de 1 cêntimo por isso os seus administradores estão na miséria e os contribuintes não vão lá pôr um tostão.


De José Meireles Graça a 14 de Junho de 2012 às 16:55
Vamos por partes, jo:
Os administradores das empresas privadas estavam a negociar com o dinheiro ou o crédito deles sim, por isso afirmo que se não lhes fossem oferecidos ou não tivessem conseguido contratos desequilibrados não os teriam feito; em princípio, ninguém escolhe uma pára-quedas dourado em alternativa a um bom negócio (o gestor Teixeira, do BCP, que recebeu uma indemnização e recebe uma pensão obscenas do BCP, ainda lá estaria, se pudesse); a gestão privada falha, como se diz no texto, e é sancionada por isso - a pública não. Que existam numerosos exemplos de gestões privadas desastrosas salvas com dinheiro público, em particular nos bancos, sem que os responsáveis pelo desastre sejam beliscados, só se explica pela debilidade do poder político face ao poder financeiro, resultante por sua vez da promiscuidade entre um e outro. Sobre isto, talvez queira ver este texto e consultar a Lei 2105 que lá refiro: http://senatus.blogs.sapo.pt/500081.html


De Tiro ao Alvo a 14 de Junho de 2012 às 17:20
Inteiramente de acordo consigo quando diz que "não há nada que chegue a um cidadão, que nunca investiu um cêntimo, para (saber) decidir com competência o que fazer com o dinheiro dos outros, mais o que em nome deles pede emprestado". Até ele acabar, digo eu.


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