Domingo, 17 de Junho de 2012
por José Meireles Graça

Tem-se vindo a agravar em Portugal um generalizado sentimento de desprezo pela autoridade, que urge combater. O Inspector Amândio, da Divisão de Processos Fiscais, oportuno e sem papas na língua, não está pelos ajustes deste deslizar para uma sociedade anárquica e entende que os fiscais das finanças devem poder dar ordens de prisão, competência que não se compreende ainda não faça parte do limitado elenco de ferramentas que aqueles funcionários têm à sua disposição para cumprimento da sua importante missão. Os fiscais não podem dar ordens de prisão? Pois é um escândalo.


Acho muitíssimo bem o desassombro do Inspector Amândio. Creio mesmo que este assunto deveria ser visitado com interesse pelo Governo, alargando-se a competência para dar ordens de prisão também a outros agentes de autoridade que se deparam com dificuldades para o cabal desempenho das suas missões. As Polícias Municipais, por exemplo, são com frequência vítimas de entraves colocados por Munícipes que restauram os seus imóveis sem autorização, lançam à socapa chapadas de cimento em barracos não licenciados, inclusive em dias destinados a descanso, e que nem sempre usam de urbanidade quando são confrontados com as consequências dos seus actos. E os Inspectores do Trabalho são com frequência vítimas de atitudes arrogantes por parte de patrões grunhos (com perdão da redundância), que têm dificuldade em perceber a importância dos corrimões nos lanços de escadas, ousam discutir a interpretação das leis e dos contratos colectivos de trabalho por parte de quem tem obrigação de os fazer respeitar, e de modo geral não adoptam a atitude colaborante que lhes é exigível.


De resto, nem sequer se entende que, alargando-se desejavelmente o número de agentes do Estado com direito a prender cidadãos, se hesite em adoptar práticas mais restritivas do direito à inviolabilidade dos domicílios: é intolerável que aquele direito sirva de capa para a prática de crimes, que, sem o direito de visita por parte de quem tem por obrigação combatê-los, ficam impunes. Se a autoridade não pode prevenir a criminalidade por assim dizer no ovo, que muitas vezes é o recesso dos lares, como pode exigir-se-lhe depois que a combata nas ruas, quando ela já está entranhada nos costumes e os transgressores atolados no vício da ilegalidade?


Os governantes têm vindo a dar alguns sinais de não serem alheios a estas preocupações, tímidos embora. Já se admite que a ASAE se inteire da forma como as crianças menores de quatro anos são criadas, através de inspecções, por haver pais que, com incompreensível descaso, ignoram as normas da UE sobre segurança eléctrica, altura do armário dos medicamentos e outras relevantes matérias; e dão-se os primeiros passos na repressão dos hábitos tabágicos também ao volante, não obstante o movimento de cidadãos refractários que, invocando erroneamente um suposto direito de propriedade, consideram ser o interior dos automóveis o espaço privado que evidentemente não é.


Vamos portanto, aparentemente, na boa direcção, e seria injusto não referir aqui o trabalho pioneiro do Senhor Secretário da Saúde, Dr. Leal, em cuja determinação o seu colega da Fazenda bem se poderia inspirar. Pode acontecer, como efeito perverso, um aumento da população prisional, circunstância difícil de casar com a actual superlotação das cadeias.


Nada porém que não se resolva com alguma flexibilidade e imaginação, lançando mão, por exemplo, de um aumento das saídas em liberdade condicional. Seria uma generosa benesse para os bem comportados e de nenhum impacto negativo na sociedade: não estamos todos a ficar, progressivamente, em - liberdade condicional?

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5 comentários:
De Marco a 17 de Junho de 2012 às 02:50
Só a meio do segundo parágrafo me apercebi da ironia; por momentos, fiquei a pensar se o autor teria batido com o toutiço nalgum lado...


De Eleitor a 17 de Junho de 2012 às 13:31
Está bem visto. A choça pode ser uma oportunidade para quem está desempregado: cama, comida, roupa lavada, tudo de borla, de segunda a sexta, com saída ao fim de semana. Durante a permanência na instituição, alguns dos cidadãos poderão, ainda, obter "competências" que lhes permitam inovar, tornando-se empreendedores. Podem, por exemplo, aprender técnicas de arrombamento de MB, carjacking, etc.


De José Meireles Graça a 17 de Junho de 2012 às 15:35
Excelente sugestão, Eleitor. E se algumas pessoas proeminentes que conhecemos por lá estiverem, a formação poderá alargar-se a técnicas de negociação de PPPs, contratos de fornecimento de serviços e bens ao Estado, concursos públicos, etc.


De da Maia a 17 de Junho de 2012 às 15:15
Não percebi ainda se é ou não notícia uma norma para a "inspecção das casas para a segurança das crianças com menos de 4 anos"...
Se é notícia e só passou pela cabeça de alguma besta da governança, é grave, e se passar a lei não é gravíssimo, é simplesmente o fim da liberdade.
Passar por entre os pingos da chuva da indignação dos comentadeiros e opinadores, é sintoma do grau vegetal a que chegaram os paineleiros dos muitos painéis.

Talvez a URSS tivesse essa ligeireza de entrar na casa de cada um... e essa era a diferença com os EUA, e com o seu direito a porte de arma, para poder receber condignamente os invasores de propriedade individual.

Se a lei for aplicada pelo governo dito liberal, do PSD e CDS, então o que será o socialismo? Ter uma camâra em casa para vigiar os pais das criancinhas?

Entramos no pior de dois mundos, em que se ameaçam as liberdades, como no comunismo, mas onde não há um estado social protector, como no capitalismo.

E se a esquerda ainda vai protestando pelo fim do estado social, o liberalismo da direita parece abafado pela governança, disposto a perder as mais elementares liberdades individuais.
Uma tristeza sem precedentes...


De José Meireles Graça a 17 de Junho de 2012 às 15:38
Nem mais, da Maia.


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