Segunda-feira, 18 de Junho de 2012
por Pedro Correia

Os gregos falaram. Da única forma aceitável em democracia: através do voto. Na hora da decisão crucial, prevaleceu a resposta à pergunta que ontem aqui resumi desta forma: "Votar para quê? Para produzir novo impasse destinado a tornar ainda mais profundo o atoleiro ou procurar que o voto se torne parte da solução e não parte do problema?"

Após as legislativas de 6 de Maio, as forças políticas gregas, confundindo cálculo partidário com interesse nacional, foram incapazes de formar um governo de coligação. Julgo que agora não sucederá assim. Por um motivo muito simples: a Grécia precisa de 2 mil milhões de dólares para evitar a bancarrota, que tem já data marcada: 20 de Julho.

Não há nada como o inevitável para inspirar os políticos. A Grécia europeísta é hoje mais frágil do que ontem, mas continua europeísta. Também neste aspecto os gregos foram claros: esta eleição funcionou como referendo ao euro num país que tem registado por estes dias uma corrida dramática aos depósitos bancários.

Permanecer no euro é um direito da Grécia, que precisa como nunca da solidariedade europeia. Ora não há direitos sem deveres. O primeiro dever dos gregos é saberem ajudar-se a si próprios. O povo já cumpriu a sua parte. Falta agora os políticos cumprirem a sua.

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14 comentários:
De alexandre.poco@hotmail.com a 18 de Junho de 2012 às 01:57
Na hora decisiva, os gregos afirmaram muito bem o que queriam. O que para muita gente, em Portugal, deve ter sido um grande dissabor. Aqueles que querem Lisboa a arder como Atenas e que querem bagunça e contestação apenas para provar as suas teorias foram igualmente derrotados hoje. Agora cabe aos partidos pró-euro, Nova Democracia e PASOK, mostrarem responsabilidade e capacidade de compreender o que é que lhes foi transmitido nestas eleições. Um abraço


De Pedro Correia a 18 de Junho de 2012 às 12:33
Veremos se as forças políticas gregas se entendem para a formação de um governo, Alexandre. Esse é o primeiro dos deveres para com um eleitorado que lhes exige isso. Um abraço.


De hcl a 18 de Junho de 2012 às 10:17
"Permanecer no euro é um direito da Grécia".
WOW.
Liste aí os meus direitos, pode ser que eu não precise de trabalhar e não saiba.

Óbvio que não é um direito. É uma opção, dependente de um conjunto de responsabilidades que têm que ser cumpridas.

"Solidariedade europeia" – Enviar dinheiro. Porque é que têm tanto medo das palavras?

Foi só adiado o inevitável. A Grécia não vai sair da crise. Precisava de mudar e não quer. A opção é continuar indefinidamente a enviar dinheiro.

O mesmo aplica-se a Portugal.


De Pedro Correia a 18 de Junho de 2012 às 13:02
Como refiro, não há direitos sem deveres. A Grécia, a curto e médio prazo, não sairá da crise. Mas sem euro a crise grega agravar-se-á. De resto apenas o Partido Comunista grego, que sofreu uma fortíssima quebra eleitoral neste escrutínio, defendia a saída da Grécia da eurozona (e também da União Europeia, sem o pagamento de qualquer dívida). Essa tese mirabolante foi amplamente derrotada em todas as eleições e os estalinistas gregos acabam de ser duramente castigados pelo seu sectarismo, que os isola de todas as outras forças políticas de esquerda.
Por outro lado a Europa, no seu conjunto, não tem qualquer interesse em ser amputada de um dos seus membros. E não me refiro aos custos políticos directos da possível saída da Grécia da eurozona, avaliados em cerca de 400 mil milhões de euros. Refiro-me a algo mais importante: isso
seria a confissão assumida e declarada da falência da união económica e monetária - o mais ousado projecto político europeu de que há memória em várias gerações.


De hcl a 18 de Junho de 2012 às 13:59
Se não há valor para quanto custa a Grécia ficar, o valor de quanto custa sair é irrelevante (além de que, à medida que o tempo fôr passando o valor vai aumentando).

Os gregos através dos seus representantes eleitos, vigarizaram os orçamentos e geriram de uma forma irresponsavelmente criminosa o país.
Em Portugal também (basta ver as Estradas de Portugal).

"seria a confissão assumida e declarada". É mau, mas, mais vale assumir um erro em tempo mais ou menos útil que insistir no erro. Se calhar tem que haver 2 Euros, ou 3.


De l.rodrigues a 18 de Junho de 2012 às 10:24
Qual é então o dever da Alemanha para permanecer no Euro? É que esses parecem só ter direitos...


De Pedro Correia a 18 de Junho de 2012 às 12:43
Para já, e uma vez que a eleição decorreu na Grécia, falemos dos deveres gregos. E o primeiro dever grego é ter um governo em funções. Assim o exige o eleitorado, que se deslocou às urnas duas vezes em seis semanas para se pronunciar de forma irrepreensível. Como escreve Rui Tavares na edição de hoje do 'Público', "quando a democracia fala, os políticos devem ouvir".
Julgo que haverá condições para o novo Governo ser constituído a curto prazo. O contrário seria de uma irresponsabilidade sem limites, atendendo até ao elementar facto de a partir de 20 de Julho não haver dinheiro para o pagamento de salários e pensões. Há um parlamento eleito, há a imperiosa necessidade de não deixar soçobrar o Estado: as forças políticas gregas, ou pelo menos parte delas, estão condenadas a entender-se. A menos que, adoptando a táctica do quanto pior melhor, alguns prefiram o regresso dos militares à política. Para poderem dizer como certos antifascistas espanhóis quando foi restabelecida a democracia: "Contra Franco vivíamos melhor."


De Rodrigo Saraiva a 18 de Junho de 2012 às 10:55
o syrisa não ganhou?! mas tantos tinham decretado isso que nem imaginei outra possibilidade ;)


De Pedro Correia a 18 de Junho de 2012 às 12:35
A coligação de esquerda radical ganhou, Rodrigo. Nas colunas de jornal e nas previsões dos "especialistas" em política grega. Só aí.


De hcl a 18 de Junho de 2012 às 11:58
A Alemanha tem os mesmos deveres dos outros.
Dentro dos deveres de pertencer ao Euro não consta pagar as dívidas dos outros (felizmente).
O mesmo aplica-se a todos os países. Ninguém tem direitos especiais nem deveres especiais.

O dever fundamental, sem o qual o Euro colapsa inevitavelmente, é responsabilidade orçamental, coisa que afuguenta qualquer socialista.


De Pedro Correia a 18 de Junho de 2012 às 12:52
A propósito de "responsabilidade orçamental que afugenta qualquer socialista", recordo-lhe que a Nova Democracia tem gravíssimas responsabilidades no colapso das finanças públicas gregas. Não é matéria de opinião, é matéria de facto.


De hcl a 18 de Junho de 2012 às 13:48
O sistema político grego (tal como o português) baseia-se (no caso grego baseava-se) na existência de um centrão alternante.

Uma das características deste sistema é ser tendencialmente socialista e/ou corporativista e acima de tudo essencialmente estatista(e eu a isto chamo socialismo)

Espero da ND no governo exactamente o mesmo que esperaria do PS. Algumas nuances certamente, uma privatização aqui e ali a mais ou a menos, alguma alteração de retórica, mas, no essencial a manutenção do sistema tal como está.

Penso exactamente o mesmo da alternância PS/PSD, aliás a prática corrente do governo confirma-o. O sistema é o mesmo e não há intenção de o modificar e a reforma autárquica demonstra-o claramente.

O PSD/CDS com a possibilidade de deficit livre(sem troika) seria mais ou menos idêntico ao PS (talvez não de Sócrates porque acho que isso é um caso de polícia) de Guterres. O facto de não haver dinheiro para gastar à tripa-forra (vulgo “políticas de crescimento”) está a fazer muito PSD/CDS achar Holande a 2ª vinda.

A responsabilidade orçamental em Portugal não é só um problema do PS.


De l.rodrigues a 18 de Junho de 2012 às 14:25
Isto é um exemplo da tristeza que passa por pensamento económico.

"Políticas de crescimento" = "gastar dinheiro à tripa forra".

Não há espaço para subtilezas como "investimento", "políticas contracíclicas", etc etc. Há que reduzir um país ao nivel do seu mais básico merceeiro, em vez de o elevar ao nível do seu mais sagaz visionário.

Imagine-se este diálogo em 1480:
— "Vamos dar novos mundos ao mundo".
— "Vamos o quê? Tá mas é quietinho que não há dinheiro para aventuras".


De hcl a 18 de Junho de 2012 às 15:09
É livre de investir como quiser.

É livre de se juntar a 100.000.000 de visionários e investirem como quiserem (até há modelos económicos para isso: ações, capital de risco).

Mas não, não é isso que quer.
Quer sacar o dinheiro a toda a gente e "investir" nos "visionários" contracíclicos, tal como se fez nos últimos anos resultando na falência do país.

Os contracíclicos são assim tão bons e ninguém quer investir nessas minas?
Aliás, tanto visionário porque é que não está toda a gente rica? Porque é que está toda a gente mais pobre? Problemas de vista?

Nota: Para chamar a alguma coisa investimento não basta gastar dinheiro.




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