Terça-feira, 19 de Junho de 2012
por José Meireles Graça

Declaração: NÃO sou um entusiasta do SNS Português, não acho que um arranjo de médicos/funcionários públicos de um lado e cidadãos/contribuintes do outro possa funcionar bem, não creio que o sistema seja sustentável tal como está, não acho que seja reformável sem começarem a aparecer efeitos negativos para os utilizadores e não acho possível pôr a máquina da saúde a funcionar com uma adequada relação custo/benefício sem que nela intervenha predominantemente o mercado, quer dizer a relação cliente/fornecedor e a liberdade de escolha do estabelecimento e/ou do médico.

 

Em compensação, SOU um entusiasta do modelo ADSE: cada qual vai onde entende quando entende, paga o que lhe pedem, recebe o que o Estado entende poder suportar consoante a natureza do acto médico, e deduz ao rendimento colectável, com limites, a diferença que despendeu.

 

Os estabelecimentos pertencentes ao SNS deveriam ser subsidiários, destinados a quem os queira quando os serviços sejam competitivos (não é impossível ser competitivo num estabelecimento público determinado, é apenas relativamente raro), e a quem não pode pagar preços de mercado.

 

Um sistema desigual? Não necessariamente mais desigual do que o actual, se nos lembrarmos que a ADSE e outros sistemas semelhantes existem e recomendam-se, não obstante a tendencial gratuitidade do que é público.

 

Poderíamos querer a igualdade e poderíamos consegui-la, mas seria a igualdade na mediocridade - a saúde grátis para todos de que fala a Constituição é coerente com o que diz o preâmbulo mas não casa com o socialismo que não se está a construir.

 

É por causa deste acervo de preconceitos (são preconceitos sim; cada qual tem os seus) que, a respeito desta carta e por causa do nome do organismo, a primeira pergunta que me ocorreu foi esta: este Observatório vive de quê? Fui ver: "Financiamento misto: actualmente o financiamento é feito através das universidades – tempo de docência/investigação. Ocasionalmente outras contribuições por projectos específicos (POSI, Montepio, Ministério da Saúde)." Ah.

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5 comentários:
De Maurício Barra a 19 de Junho de 2012 às 07:52
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De José Meireles Graça a 19 de Junho de 2012 às 12:46
Ainda bem, Maurício, obrigado por te dares ao trabalho de o dizer.


De da Maia a 19 de Junho de 2012 às 14:42
A liberdade desregulada gera libertinagem...
Os serviços que o Estado foi largando, na moda de que subcontratava ao privado, ao estilo PPP, têm sido um maná para a vampiragem nacional.
O sistema da comparticipação fixa não resulta, porque simplesmente o valor comparticipado ficará sempre aquém, pois sem regulação os preços disparam.

Basta ir a França e ver que uma consulta num bom médico privado custou-me 25€, e depois aqui custou 80€.
Para ver a diferença de profissionalismo e ética, o médico francês achou que eu não deveria pagar nada, pois temia que eu não fosse reembolsado pelo SNS...

A vampiragem nacional não é um defeito, é já feitio... impregnou-se na mentalidade de que quem não se faz pagar caro é um merdas! Impregnou-se na mentalidade de que quem não chular ao máximo é um parvo.

Ora como o sistema de vampiragem não vive sem gado que dê sangue, e como os vampiros multiplicaram-se que nem ratos, a transfusão da troika só vai chegar às criptas mais antigas... não vai resolver nada, pois isto virou uma Transilvânia com muitos vampiros e o que resta do gado, sem pastagens, está esquelético - que é como quem diz, em antónio-borgês, "está pouco produtivo".


De José Meireles Graça a 19 de Junho de 2012 às 22:56
Claro que o valor comparticipado fica aquém - é mesmo essa a ideia, a saúde grátis para todos não é possível. Quanto às diferenças culturais, que existem, não é nada que doses maciças de concorrência não corrijam, ao menos em parte.


De da Maia a 20 de Junho de 2012 às 02:44
Doses maciças de concorrência?
Num país onde o nº de farmácias está limitado aos alvarás concedidos no tempo da velha senhora?
Num país onde a maioria das universidades nem pôde criar uma faculdade de medicina?
Devemos estar a brincar...

Se a comparticipação ficasse aquém, então serviria de placebo, não resolveria nada, mascarava o problema.
O Estado continuaria a invocar impostos e financiaria os serviços doutros com eles. Lindo... continuariamos na filosofia ruinosa das PPP, ao estilo SCUT-saúde.


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