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Forte Apache

Desviar para canto...

Luís Naves, 19.06.12
 
No debate sobre a crise europeia, instalou-se um poderoso mito segundo o qual os problemas dos países endividados têm origem na austeridade e de que há uma saída mágica, de políticas de crescimento, para resolver tudo numa única jogada. A narrativa distorce a realidade, é politicamente motivada e não permite compreender o que se está a passar. Trata-se, no fundo, de uma forma de desviar para canto, típica das discussões onde o lugar-comum dá vantagem aos discursos superficiais. 
Repetindo simplificações (geralmente americanas), muitos autores da blogosfera continuam a pensar que a Europa não tem liderança ou que o euro é uma monstruosidade. Outros, à esquerda e à direita, repetem a ideia de que a crise se explica pela incrível estupidez da chanceler Angela Merkel, sempre designada 'senhora Merkel', para sublinhar que se trata de uma mulher (e alemã, ainda por cima). Nunca lhe é dado qualquer desconto, nem sequer a legitimidade de defender os interesses do país que a elegeu.
Poucos explicam que, a nível europeu, as negociações estão avançadas na ideia de lançar uma união bancária, projecto que exigirá vários anos. Quando isso estiver concluído, os países não terão os mesmos poderes sobre a sua banca. Imaginem um supervisor europeu a exigir o desmantelamento de um banco português. E, no entanto, para estabilizar a moeda única, isto será necessário, pelo menos o compromisso de que existirá um tal mecanismo. O eleitorado está preparado? É óbvio que não. Por isso, as verdadeiras soluções serão lentas.

 

Ontem em Los Cabos, México, na reunião dos líderes do G20, o presidente da comissão europeia, Durão Barroso, teve uma resposta notável a uma insistente pergunta, sem dúvida feita pela enésima vez.. Barroso explicou que a Europa não recebe lições de democracia, pois todos os 27 membros da UE são democracias, enquanto nem todos os G20 o são. Quando um jornalista canadiano lhe perguntou por que razão deveria a América do Norte correr riscos para ajudar a Europa, Durão respondeu que a crise não começou na Europa, mas na América do Norte, devido a práticas financeiras pouco ortodoxas.
Este é um dos elementos convenientemente esquecidos. Os EUA ainda não saíram da crise. As loucuras e crimes financeiros que levaram ao colapso do subprime continuam a ser práticas comuns. Nada mudou, nem sequer o profundo endividamento americano que, mais tarde ou mais cedo, levará Washington a bater na parede.

 

Mas este contexto é interessante para percebermos as pressões que estão a ser exercidas sobre os líderes europeus. A solução que sairá de uma negociação que envolve países democráticos será sempre o mínimo denominador comum. Em causa, está o cálculo da dose adicional de integração. É um cálculo político puro, que tem a ver com cedências de soberania, tais como perder o direito de decidir sobre a banca nacional ou sobre o orçamento.
Dito de outra forma, para salvar o euro, os líderes terão de propor soluções que reforçam a união política, não havendo objectivamente condições imediatas para o aprofundamento da UE, dada a enorme desconfiança da opinião pública sobre cada novo passo que é dado. Os britânicos já saíram de jogo, afastaram-se da zona euro, o que no futuro terá amplas implicações políticas para Londres.
Por todo o lado crescem as forças populistas e extremistas. O novo parlamento grego, por exemplo, tem um terço de deputados comunistas ou neonazis. Lembram-se dos três que andaram à estalada na TV? Foram todos eleitos.

 

Em Portugal, há muita demagogia sobre austeridade e crescimento, como se houvesse dinheiro à farta para programas de investimento público que vão criar empregos imediatos. E como se tivéssemos a opção de renegociar o memorando da troika e suavizar as metas, isto quando já foi concluída a parte mais difícil do programa.
Enfim, muita espuma, declarações distorcidas e contextos omitidos. Também há muita demagogia sobre a Europa, como se Portugal tivesse margem de manobra para negociar cada vírgula do seu programa de ajustamento. Que devia haver mais solidariedade, dizem, esquecendo que o resgate já é generoso e custa 78 mil milhões, na sua maioria pagos pelo contribuinte europeu, e que há risco efectivo desse dinheiro nunca ser recuperado. Cada português recebe 7800 euros, mas há muitos entre nós que se recusam a ver qualquer generosidade do credor ou a justificar a ansiedade de quem passou o cheque.
Na Europa está a ser preparada uma mudança profunda, a discussão já começou sobre esse passo adicional na integração, mas continuamos a discutir espuma, estados de alma e o orgulho ferido. Depois, no fim da cimeira de dia 28 e 29, teremos de ouvir os comentadores a explicar que a Europa não tem liderança, que a cimeira foi outra oportunidade perdida, que o euro será uma péssima ideia e que a austeridade não se aguenta, a Europa é só conversa e não aconteceu nada. No debate intelectual, chutar para canto é uma arte.  

 

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